Sexta-Feira, 06 de Setembro de 2013
22ª Semana do Tempo Comum
Leituras:
1ª Leitura: Cl 1,15-20
Salmo: Sl 100
Evangelho: Lc 5,33-39
Cor Litúrgica: VERDE
Santo do Dia: São Zacarias
Oração do Dia
Deus do universo, fonte de todo bem, derramai em nossos corações o vosso amor e estreitai os laços que nos unem convosco para alimentar em nós o que é bom e guardar com solicitude o que nos destes. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
1ª LEITURA
Leitura da Primeira Carta de São Paulo aos Colossenses
15Cristo Jesus é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, 16pois por causa dele foram criadas todas as coisas no céu e na terra, as visíveis e as invisíveis, tronos e dominações, soberanias e poderes.
Tudo foi criado por meio dele e para ele. 17Ele existe antes de todas as coisas e todas têm nele a sua consistência. 18Ele é a Cabeça do corpo, isto é, da Igreja. Ele é o princípio, o Primogênito dentre os mortos; de sorte que em tudo ele tem a primazia, 19porque Deus quis habitar nele com toda a sua plenitude e 20por ele reconciliar consigo todos os seres, os que estão na terra e no céu, realizando a paz pelo sangue da sua cruz.
SALMO DE RESPOSTA
Com canto apresentai-vos diante do Senhor!
Com canto apresentai-vos diante do Senhor!
Aclamai o Senhor, ó terra inteira, servi ao Senhor com alegria, ide a ele cantando jubilosos!
Sabei que o Senhor, só ele, é Deus, ele mesmo nos fez, e somos seus, nós somos o seu povo e seu rebanho.
Entrai por suas portas dando graças, e em seus átrios com hinos de louvor; dai-lhe graças, seu nome bendizei!
Sim, é bom o Senhor e nosso Deus, sua bondade perdura para sempre, seu amor é fiel eternamente!
EVANGELHO
Evangelho de Jesus Cristo, segundo Lucas
Naquele tempo, 33os fariseus e os mestres da Lei disseram a Jesus: "Os discípulos de João, e também os discípulos dos fariseus, jejuam com freqüência e fazem orações. Mas os teus discípulos comem e bebem". 34Jesus, porém, lhes disse: "Os convidados de um casamento podem fazer jejum enquanto o noivo está com eles? 35Dias virão em que o noivo será tirado do meio deles. Então, naqueles dias, eles jejuarão".
36Jesus contou-lhes ainda uma parábola: "Ninguém tira retalho de roupa nova para fazer remendo em roupa velha; senão vai rasgar a roupa nova, e o retalho novo não combinará com a roupa velha. 37Ninguém põe vinho novo em odres velhos; porque, senão, o vinho novo arrebenta os odres velhos e se derrama; e os odres se perdem. 38Vinho novo deve ser posto em odres novos. 39E ninguém, depois de beber vinho velho, deseja vinho novo; porque diz: o velho é melhor".
Seja bem vindo! Aqui você encontrará noticias variadas de religião e filosofia, fé e razão no mesmo espaço!
DECRETO INTER MIRIFICA SOBRE OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
DECRETO INTER MIRIFICA
SOBRE OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
SOBRE OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
PROÉMIO
Importância dos meios de comunicação
social
1. Entre as maravilhosas invenções da técnica que,
principalmente nos nossos dias, o engenho humano extraiu, com a ajuda de Deus,
das coisas criadas, a santa Igreja acolhe e fomenta aquelas que dizem respeito,
antes de mais, ao espírito humano e abriram novos caminhos para comunicar
facilmente notícias, ideias e ordens. Entre estes meios, salientam-se aqueles
que, por sua natureza, podem atingir e mover não só cada um dos homens mas
também as multidões e toda a sociedade humana, como a imprensa, o cinema, a
rádio, a televisão e outros que, por isso mesmo, podem chamar-se, com toda a
razão meios de comunicação social.
Relação com a ordem moral
2. A mãe Igreja sabe que estes meios, retamente
utilizados, prestam ajuda valiosa ao género humano, enquanto contribuem
eficazmente para recrear e cultivar os espíritos e para propagar e firmar o
reino de Deus; sabe também que os homens podem utilizar tais meios contra o
desígnio do Criador e convertê-los em meios da sua própria ruína; mais ainda,
sente uma maternal angústia pelos danos que, com o seu mau uso, se têm
infligido, com demasiada frequência, à sociedade humana.
Em face disto, o sagrado Concílio, acolhendo a
vigilante preocupação de Pontífices e Bispos em matéria de tanta importância,
considera seu dever ocupar-se das principais questões respeitantes aos meios de
comunicação social. Confia, além disso, em que a sua doutrina e disciplina,
assim apresentadas, aproveitarão não só ao bem dos cristãos, mas também ao
progresso de toda a sociedade humana.
CAPÍTULO I
A Igreja e os meios de comunicação
social
3. A Igreja católica, fundada por Nosso Senhor
Jesus Cristo para levar a salvação a todos os homens, e por isso mesmo obrigada
a evangelizar, considera seu dever pregar a mensagem de salvação, servindo-se
dos meios de comunicação social, e ensina aos homens a usar retamente estes
meios.
À Igreja, pois, compete o direito nativo de usar e
de possuir toda a espécie destes meios, enquanto são necessários ou úteis à
educação cristã e a toda a sua obra de salvação das almas; compete, porém, aos
sagrados pastores o dever de instruir e de dirigir os fiéis de modo que estes,
servindo-se dos ditos meios, alcancem a sua própria salvação e perfeição, assim
como a de todo o gênero humano.
Além disso, compete principalmente aos leigos
vivificar com espírito humano e cristão estes meios, a fim de que correspondam
à grande esperança do gênero humano e aos desígnios divinos.
Normas para o seu reto uso
4. Para o reto uso destes meios, é absolutamente
necessário que todos os que servem deles conheçam e ponham fielmente em
prática, neste campo, as normas da ordem moral. Considerem, pois, as matérias
que se difundem através destes meios, segundo a natureza peculiar de cada um;
tenham, ao mesmo tempo, em conta todas as circunstâncias ou condições, isto é,
o fim, as pessoas, o lugar, o tempo e outros fatores mediante os quais a
comunicação se realiza e que podem mudar ou alterar inteiramente a sua bondade
moral; entre estas circunstancias, conta-se o caráter específico com que atua
cada meio, nomeadamente a sua própria força, que pode ser tão grande que os
homens, sobretudo se não estão prevenidos, dificilmente serão capazes de a descobrir,
dominar e, se se der o caso, a pôr de lado.
Formação de uma consciência reta sobre
a informação
5. É necessário, sobretudo, que todos os
interessados na utilização destes meios de comunicação formem retamente a
consciência acerca de tal uso, em especial no que se refere a algumas questões
acremente debatidas nos nossos dias.
A primeira questão refere-se à chamada informação,
ou obtenção e divulgação das notícias. É evidente que tal informação, em
virtude do progresso actual da sociedade humana e dos vínculos mais estreitos
entre os seus membros, resulta muito útil e, na maioria das vezes, necessária,
pois a comunicação pública e oportuna de notícias sobre acontecimentos e coisas
facilita aos homens um conhecimento mais amplo e contínuo dos fatos, de tal
modo que pode contribuir eficazmente para o bem comum e maior progresso de toda
a sociedade humana. Existe, pois, no seio da sociedade humana, o direito à
informação sobre aquelas coisas que convêm aos homens, segundo as
circunstâncias de cada um, tanto particularmente como constituídos em sociedade.
No entanto, o uso reto deste direito exige que a informação seja sempre objetivamente
verdadeira e, salvas a justiça e a caridade, íntegra. Quanto ao modo, tem de
ser, além disso, honesto e conveniente, isto é, que respeite as leis morais do
homem, os seus legítimos direitos e dignidade, tanto na obtenção da notícia
como na sua divulgação. Na verdade, nem toda a ciência aproveita, «mas a
caridade é construtiva» ( 1 Cor. 8,1).
Sobre a relação entre arte e moral
6. Uma segunda questão se põe sobre as relações que
medeiam entre os chamados direitos da arte e as normas da lei moral. Dado que,
não raras vezes, as controvérsias que surgem sobre este tema têm a sua origem
em falsas doutrinas sobre ética e estética, o Concílio proclama que a primazia
da ordem moral objectiva há-de ser aceite por todos, porque é a única que
supera e coerentemente ordena todas as demais ordens humanas, por mais dignas
que sejam, sem excluir a arte. Na realidade, só a ordem moral atinge, em toda a
sua natureza, o homem, criatura racional de Deus e chamado ao sobrenatural;
quando tal ordem moral se observa íntegra e fielmente, condu-lo à perfeição e
bem-aventurança plena.
Sobre a apresentação do mal moral
7. Finalmente, a narração, descrição e
representação do mal moral podem, sem dúvida, com o auxílio dos meios de
comunicação social, servir para conhecer e descobrir melhor o homem e para
fazer que melhor resplandeçam e se exaltem a verdade e o bem, obtendo, além
disso, oportunos efeitos dramáticos; todavia, para que não produzam maior dano
que utilidade às almas, hão de acomodar-se plenamente às leis morais, sobretudo
se trata de coisas que merecem o máximo
respeito ou que incitam mais facilmente o homem, marcado pela culpa original, a
desejos depravados.
Justiça e caridade na formação da
opinião pública
8. Visto que a opinião pública exerce hoje uma
poderosa influência em todas as ordens da vida social, pública e privada, é
necessário que todos os membros da sociedade cumpram os seus deveres de justiça
e de caridade também nesta matéria e, portanto, que com o auxílio destes meios,
se procure formar e divulgar uma reta opinião pública.
Deveres dos destinatários
9. Deveres peculiares competem a todos os
destinatários da informação, leitores, espectadores e ouvintes, que, por
pessoal e livre escolha, recebem as informações difundidas por estes meios de
comunicação. Na realidade, uma reta escolha exige que estes favoreçam
plenamente tudo o que se destaca pela perfeição, ciência e arte, e evitem, em
contrapartida, tudo o que possa ser causa ou ocasião de dano espiritual para
eles e para os outros, pelo mau exemplo que possam ocasionar-lhes, e o que
dificulte as boas produções e favoreça as más produções e boas, o que sucede
amiúde, contribuindo economicamente para empresas que somente atendem ao lucro
com a utilização destes meios.
Assim, pois, para que os destinatários da
informação cumpram a lei moral, devem cuidar de informar-se oportunamente sobre
os juízos ou critérios das autoridades competentes nesta matéria e segui-los
segundo as normas da recta consciência Todavia, para que possam, com maior
facilidade, opor-se aos maus conselhos e apoiar plenamente os bons, procurem
dirigir e formar a sua consciência com os recursos adequados.
Moderação e disciplina no seu uso
10. Os destinatários, sobretudo os jovens, procurem
acostumar-se a ser moderados e disciplinados no uso destes meios; ponham, além
disso, empenho em entenderem bem o que ouvem, leem e veem; dialoguem com
educadores e peritos na matéria e aprendam a formar um reto juízo.
Recordem os pais que é seu dever vigiar
cuidadosamente por que os espetáculos, as leituras e coisas parecidas que
possam ofender a fé ou os bons costumes não entrem no lar e por que os seus
filhos não os vejam noutra parte.
Deveres dos realizadores e autores
11. Importante obrigação moral incumbe, quanto ao
bom uso dos meios de comunicação social, aos jornalistas, escritores, atores,
produtores, realizadores, exibidores, distribuidores, empresários e vendedores,
críticos e, além destes, a todos quantos intervêm na realização e difusão das
comunicações. Na realidade, é de todo evidente a transcendente importância
desta obrigação nas atuais condições humanas, já que eles, informando e
incitando, podem encaminhar reta ou torpemente o gênero humano.
Portanto, é sua missão tratar as questões
econômicas, políticas ou artísticas de modo que não causem prejuízo ao bem
comum; para se conseguir isto mais facilmente, bem será que se associem
profissionalmente – incluindo-se, se for necessário, o compromisso de observar,
desde o começo, um código moral – àquelas associações que imponham a seus
membros o respeito pelas leis morais nas empresas e trabalhos da sua profissão.
Lembrem-se sempre de que a maior parte dos leitores
e espectadores é composta de jovens necessitados de imprensa e de espetáculos
que lhes ofereçam exemplos de moralidade e os estimulem a sentimentos elevados.
Procurem, além disso, que as comunicações sobre assuntos religiosos se confiem
a pessoas dignas e peritas e se tratem com a devida reverência.
Deveres das autoridades civis
12. As autoridades civis têm peculiares deveres
nesta matéria em razão do bem comum ao qual se ordenam estes meios. Em virtude
da sua autoridade e em função da mesma, compete-lhes defender e tutelar a
verdadeira e justa liberdade de que a sociedade moderna necessita inteiramente
para seu proveito, sobretudo no que se refere à imprensa; promover a religião,
a cultura e as belas artes; defender os receptores, para que possam gozar
livremente dos seus legítimos direitos. Por outro lado, à autoridade civil
compete fomentar aquelas iniciativas que, sendo especialmente úteis à
juventude, não poderiam de outro modo ser realizadas.
Por último, a mesma autoridade pública, que
legitimamente se ocupa da saúde dos cidadãos, está obrigada a procurar justa e
zelosamente, mediante a oportuna promulgação e diligente execução das leis, que
não se cause dano aos costumes e ao progresso da sociedade através de um mau
uso destes meios de comunicação. Essa cuidada diligência não restringe, de modo
algum, a liberdade dos indivíduos ou das associações, sobretudo quando faltam
as devidas precauções por parte daqueles que, por motivo do seu oficio, manejam
estes meios.
Tenha-se um especial cuidado em proteger os jovens
contra a imprensa e os espetáculos que sejam perniciosos para a sua idade.
CAPÍTULO II
Os meios de comunicação social e o
apostolado
13. Procurem, de comum acordo, todos os filhos da
Igreja que os meios de comunicação social se utilizem, sem demora e com o máximo
empenho nas mais variadas formas de apostolado, tal como o exigem as realidades
e as circunstâncias do nosso tempo, adiantando-se assim às más iniciativas,
especialmente naquelas regiões em que o progresso moral e religioso reclama uma
maior atenção.
Apressem-se, pois, os sagrados pastores a cumprir
neste campo a sua missão, intimamente ligada ao seu dever ordinário de pregar.
Por seu lado, os leigos que fazem uso dos ditos meios, procurem dar testemunho
de Cristo, realizando, em primeiro lugar, as suas próprias tarefas com perícia
e espírito apostólico, e oferecendo, além disso, no que esteja ao seu alcance,
mediante as possibilidades da técnica, da economia, da cultura e da arte, o seu
apoio direto à ação pastoral da Igreja.
Iniciativas dos católicos
14. Há que fomentar, antes de mais, a boa imprensa.
Porém, para imbuir plenamente de espírito cristão os leitores, deve criar-se e
difundir-se uma imprensa genuinamente católica que – sob o estímulo e a
dependência direta quer da autoridade eclesiástica quer de homens católicos –
editada com a intenção de formar, afirmar e promover uma opinião pública em
consonância com o direito natural e com a doutrina e princípios católicos, ao
mesmo tempo que divulga e desenvolve adequadamente os acontecimentos relacionados
com a vida da Igreja. Devem advertir-se os fiéis da necessidade de ler e
difundir a imprensa católica para conseguir um critério cristão sobre todos os
acontecimentos.
Promovam-se por todos os meios eficazes e
assegurem-se a todo o custo a produção e a exibição de filmes destinados ao
descanso honesto do espírito, proveitosos para a cultura e arte humana,
sobretudo aqueles que se destinam à juventude; isto consegue-se, sobretudo,
apoiando e coordenando as realizações e as iniciativas honestas, tanto da
produção como da distribuição, recomendando as películas que merecem elogio por
juízo concorde e pelos prêmios dos críticos, fomentando e associando entre si
as salas pertencentes a bons empresários católicos.
Preste-se, também, apoio eficaz às emissões
radiofônicas e televisivas honestas, antes de mais àquelas que sejam
apropriadas para as famílias. E fomentem-se com todo o interesse as emissões
católicas, mediante as quais os ouvintes e os espectadores sejam estimulados a
participar na vida da Igreja e se compenetrem das verdades religiosas. Com toda
a solicitude, devem promover-se, onde for oportuno, as estações católicas;
cuide-se, porém, que as suas transmissões primem pela sua perfeição e pela sua
eficácia.
Cuide-se, enfim, de que a nobre e antiga arte
cênica, que hoje se propaga amplamente através dos meios de comunicação social,
trabalhe a favor dos valores humanos e da ordenação dos costumes dos
espectadores.
Formação técnica e apostólica para o
seu uso
15. Para prover às necessidades acima indicadas hão
de formar-se oportunamente sacerdotes, religiosos e também leigos, que possuam
a devida perícia nestes meios e possam dirigi-los para os fins do apostolado.
Em primeiro lugar, devem ser instruídos os leigos
na arte, doutrina e costumes, multiplicando o número das escolas, faculdades e
institutos, onde os jornalistas, autores cinematográficos, radiofônicos, de
televisão e demais interessados possam adquirir uma formação íntegra, penetrada
de espírito cristão, sobretudo no que toca à doutrina social da Igreja. Também
os atores cênicos hão de ser formados e ajudados para que sirvam
convenientemente, com a sua arte, a sociedade humana. Por último, hão de
preparar-se cuidadosamente críticos literários, cinematográficos, radiofônicos,
da televisão e outros meios, que dominem perfeitamente a sua profissão,
preparados e estimulados para emitir juízos nos quais a razão moral apareça
sempre na sua verdadeira luz.
Formação da juventude
16. Tendo-se na devida conta que o uso dos meios de
comunicação social, que se dirigem a pessoas diferentes na idade e na cultura,
requer nestas pessoas uma formação e uma experiência adequadas e apropriadas,
devem favorecer-se, multiplicar-se e encaminhar-se, segundo os princípios da
moral cristã, as iniciativas que sejam aptas para conseguir este fim –
sobretudo se se destinam aos jovens – nas escolas católicas de qualquer grau,
nos Seminários e nas associações apostólicas dos leigos. Para que se obtenha
isto com maior rapidez, a exposição e explicação da doutrina e disciplina católicas
nesta matéria devem ter lugar no ensino do catecismo.
Ajuda económica
17. Como não convém absolutamente aos filhos da
Igreja suportar insensivelmente que a doutrina da salvação seja obstruída e
impedida por dificuldades técnicas ou por gastos, certamente volumosos, que são
próprios destes meios, este sagrado Concílio chama a atenção para a obrigação
de sustentar e auxiliar os diários católicos, as revistas e iniciativas
cinematográficas, as estações e transmissões radiofónicas e televisivas, cujo fim
principal é divulgar e defender a verdade, e prover à formação cristã da
sociedade humana. Igualmente convida insistentemente as associações e os
particulares, que gozam de uma grande autoridade nas questões económicas e
técnicas, a sustentar com largueza e de bom grado, com os seus bens econômicos
e a sua perícia, estes meios, enquanto servem o aposto lado e a verdadeira
cultura.
Dia mundial
18. Para que se revigore o apostolado da Igreja em
relação com os meios de comunicação social, deve celebrar-se em cada ano em
todas as dioceses do mundo, a juízo do Bispo, um dia em que os fiéis sejam
doutrinados a respeito das suas obrigações nesta matéria, convidados a orar por
esta causa e a dar uma esmola para este fim, a qual ser destinada a sustentar e
a fomentar, segundo as necessidades do orbe católico, as instituições e as
iniciativas promovidas pela Igreja nesta matéria.
Organismo da Santa Sé
19. Para exercitar a suprema cura pastoral sobre os
meios de comunicação social, o Sumo Pontífice tem à sua disposição um peculiar
organismo da Santa Sé (1).
Vigilância e solicitude pastoral dos
Bispos
20. Será da competência dos Bispos, nas suas
próprias dioceses, vigiar estas obras e iniciativas e promovê-las e, enquanto
tocam ao apostolado público, ordená-las, sem excluir aquelas que se encontram
submetidas à direção dos religiosos isentos.
Organismos nacionais
21. Todavia, como a eficácia do apostolado em toda
a nação requer unidade de propósitos e de esforços, este sagrado Concílio
estabelece e manda que em toda a parte se constituam e se apoiem, por todos os
meios, secretariados nacionais para os problemas da imprensa, do cinema, da
rádio e da televisão. A missão destes secretariados será de velar por que a
consciência dos fiéis se forme retamente sobre o uso destes meios e estimular e
organizar tudo o que os católicos realizem neste campo.
Em cada nação, a direção destes secretariados há de
confiar-se a uma Comissão especial do Episcopado ou a um Bispo delegado. Nestes
secretariados, hão de participar também leigos que conheçam a doutrina da
Igreja sobre estas atividades.
Associações Internacionais
22. Posto que a eficácia de tais meios ultrapassa
os limites das nações, e é como se convertesse cada homem em cidadão da
humanidade, cooperem as iniciativas deste gênero, tanto no plano nacional como
no internacional. Aqueles secretariados, de que se fala no número 21, hão de
trabalhar denodadamente em união com a sua correspondente Associação católica
internacional. Estas Associações católicas internacionais, porém, são legitimamente
aprovadas só pela Santa Sé e dela dependem.
CLÁUSULAS
Preparação de uma instrução pastoral
pontifícia
23. Para que todos os princípios deste sagrado
Concílio e as normas acerca dos meios de comunicação social se levem a efeito,
publicar-se-á, por expresso mandato do Concilio e com a colaboração de peritos
de várias nações, uma instrução pastoral; a sua publicação ficar a cargo do
organismo da Santa Sé, de que se fala no número 19.
Exortação final
24. Além do mais, este sagrado Concílio confia em
que estas instruções e normas serão livremente aceites e santamente observadas
por todos os filhos da Igreja, os quais, por esta razão, ao utilizarem tais
meios, longe de padecer dano, como sal e como luz darão sabor à terra e
iluminarão o mundo. O Concílio convida, além disso, todos os homens de boa
vontade, especialmente aqueles que dirigem estes meios, a que se esforcem por
os utilizar a bem da sociedade humana, cuja sorte depende cada dia mais do uso
reto deles.
Assim, pois, como nos monumentos artísticos da
antiguidade, também agora, nos novos inventos, deve ser glorificado o nome do
Senhor, segundo o que diz o Apóstolo: «Jesus Cristo, ontem e hoje, Ele mesmo
por todos os séculos dos séculos» (Hebr. 13,8).
Vaticano, 4 de Dezembro de 1966.
PAPA PAULO VI
(1) Os Padres do Concílio, fazendo seu o voto do «Secretariado para a
Imprensa e para a orientação dos Espetáculos», reverentemente pedem ao Sumo
Pontífice que estenda as obrigações e competências deste organismo a todos os
meios de comunicação social sem excluir a imprensa, associando a ele
especialistas das diferentes nações, entre os quais também leigos.
Fides et Ratio
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Venerados
Irmãos no Episcopado,
saúde e Bênção Apostólica!
A fé e a razão (fides et ratio) constituem
como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a
contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo
de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que,
conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio
(cf. Ex 33, 18; Sal 2726, 8-9; 6362, 2-3;Jo 14,
8; 1 Jo 3, 2).
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INTRODUÇÃO - «CONHECE-TE A TI MESMO »
1. Tanto no Oriente como no Ocidente, é possível
entrever um caminho que, ao longo dos séculos, levou a humanidade a
encontrar-se progressivamente com a verdade e a confrontar-se com ela. É um
caminho que se realizou — nem podia ser de outro modo — no âmbito da
autoconsciência pessoal: quanto mais o homem conhece a realidade e o mundo,
tanto mais se conhece a si mesmo na sua unicidade, ao mesmo tempo que nele se
torna cada vez mais premente a questão do sentido das coisas e da sua própria
existência. O que chega a ser objecto do nosso conhecimento, torna-se por
isso mesmo parte da nossa vida. A recomendação conhece-te a ti
mesmo estava esculpida no dintel do templo de Delfos, para
testemunhar uma verdade basilar que deve ser assumida como regra mínima de
todo o homem que deseje distinguir-se, no meio da criação inteira, pela sua
qualificação de « homem », ou seja, enquanto «conhecedor de si mesmo ».
Aliás, basta um simples olhar pela história
antiga para ver com toda a clareza como surgiram simultaneamente, em diversas
partes da terra animadas por culturas diferentes, as questões fundamentais
que caracterizam o percurso da existência humana: Quem sou
eu? Donde venho e para onde vou? Porque existe o mal? O que é que
existirá depois desta vida? Estas perguntas encontram-se nos
escritos sagrados de Israel, mas aparecem também nos Vedas e no Avestá;
achamo-las tanto nos escritos de Confúcio e Lao-Tze, como na pregação de
Tirtankara e de Buda; e assomam ainda quer nos poemas de Homero e nas
tragédias de Eurípides e Sófocles, quer nos tratados filosóficos de Platão e
Aristóteles. São questões que têm a sua fonte comum naquela exigência de
sentido que, desde sempre, urge no coração do homem: da resposta a tais
perguntas depende efectivamente a orientação que se imprime à existência.
2. A Igreja não é alheia, nem pode sê-lo, a este
caminho de pesquisa. Desde que recebeu, no Mistério Pascal, o dom da verdade
última sobre a vida do homem, ela fez-se peregrina pelas estradas do mundo,
para anunciar que Jesus Cristo é « o caminho, a verdade e a vida » (Jo 14,
6). De entre os vários serviços que ela deve oferecer à humanidade, há um
cuja responsabilidade lhe cabe de modo absolutamente peculiar: é a diaconia
da verdade. 1 Por um lado, esta missão torna a
comunidade crente participante do esforço comum que a humanidade realiza para
alcançar a verdade, 2 e, por outro, obriga-a a empenhar-se
no anúncio das certezas adquiridas, ciente todavia de que cada verdade
alcançada é apenas mais uma etapa rumo àquela verdade plena que se há--de
manifestar na última revelação de Deus: « Hoje vemos como por um espelho, de
maneira confusa, mas então veremos face a face. Hoje conheço de maneira
imperfeita, então conhecerei exactamente » (1 Cor 13, 12).
3. Variados são os recursos que o homem possui
para progredir no conhecimento da verdade, tornando assim cada vez mais humana
a sua existência. De entre eles sobressai a filosofia, cujo
contributo específico é colocar a questão do sentido da vida e esboçar a
resposta: constitui, pois, uma das tarefas mais nobres da humanidade. O termo
filosofia significa, segundo a etimologia grega, « amor à sabedoria ».
Efectivamente a filosofia nasceu e começou a desenvolver-se quando o homem
principiou a interrogar-se sobre o porquê das coisas e o seu fim. Ela
demonstra, de diferentes modos e formas, que o desejo da verdade pertence à
própria natureza do homem. Interrogar-se sobre o porquê das coisas é uma
propriedade natural da sua razão, embora as respostas, que esta aos poucos
vai dando, se integrem num horizonte que evidencia a complementaridade das
diferentes culturas onde o homem vive.
A grande incidência que a filosofia teve na
formação e desenvolvimento das culturas do Ocidente não deve fazer-nos
esquecer a influência que a mesma exerceu também nos modos de conceber a
existência presentes no Oriente. Na realidade, cada povo possui a sua própria
sabedoria natural, que tende, como autêntica riqueza das culturas, a
exprimir-se e a maturar em formas propriamente filosóficas. Prova da verdade
de tudo isto é a existência duma forma basilar de conhecimento filosófico,
que perdura até aos nossos dias e que se pode constatar nos próprios
postulados em que as várias legislações nacionais e internacionais se
inspiram para regular a vida social.
4. Deve-se assinalar, porém, que, por detrás dum
único termo, se escondem significados diferentes. Por isso, é necessária uma
explicitação preliminar. Impelido pelo desejo de descobrir a verdade última
da existência, o homem procura adquirir aqueles conhecimentos universais que
lhe permitam uma melhor compreensão de si mesmo e progredir na sua
realização. Os conhecimentos fundamentais nascem da maravilha que
nele suscita a contemplação da criação: o ser humano enche-se de encanto ao
descobrir-se incluído no mundo e relacionado com outros seres semelhantes,
com quem partilha o destino. Parte daqui o caminho que o levará, depois, à
descoberta de horizontes de conhecimentos sempre novos. Sem tal assombro, o
homem tornar-se-ia repetitivo e, pouco a pouco, incapaz de uma existência
verdadeiramente pessoal.
A capacidade reflexiva própria do intelecto
humano permite elaborar, através da actividade filosófica, uma forma de
pensamento rigoroso, e assim construir, com coerência lógica entre as
afirmações e coesão orgânica dos conteúdos, um conhecimento sistemático.
Graças a tal processo, alcançaram-se, em contextos culturais diversos e em
diferentes épocas históricas, resultados que levaram à elaboração de
verdadeiros sistemas de pensamento. Historicamente isto gerou muitas vezes a
tentação de identificar uma única corrente com o pensamento filosófico
inteiro. Mas, nestes casos, é claro que entra em jogo uma certa «soberba
filosófica », que pretende arvorar em leitura universal a própria perspectiva
e visão imperfeita. Na realidade, cada sistema filosófico,
sempre no respeito da sua integridade e livre de qualquer instrumentalização,
deve reconhecer a prioridade dopensar filosófico de que teve
origem e ao qual deve coerentemente servir.
Neste sentido, é possível, não obstante a mudança
dos tempos e os progressos do saber, reconhecer um núcleo de conhecimentos
filosóficos, cuja presença é constante na história do pensamento. Pense-se,
só como exemplo, nos princípios de não-contradição, finalidade, causalidade,
e ainda na concepção da pessoa como sujeito livre e inteligente, e na sua
capacidade de conhecer Deus, a verdade, o bem; pense-se, além disso, em
algumas normas morais fundamentais que geralmente são aceites por todos.
Estes e outros temas indicam que, para além das correntes de pensamento,
existe um conjunto de conhecimentos, nos quais é possível ver uma espécie de
património espiritual da humanidade. É como se nos encontrássemos perante
uma filosofia implícita, em virtude da qual cada um sente que
possui estes princípios, embora de forma genérica e não reflectida. Estes
conhecimentos, precisamente porque partilhados em certa medida por todos,
deveriam constituir uma espécie de ponto de referência para as diversas
escolas filosóficas. Quando a razão consegue intuir e formular os princípios
primeiros e universais do ser, e deles deduzir correcta e coerentemente
conclusões de ordem lógica e deontológica, então pode-se considerar uma razão
recta, ou, como era chamada pelos antigos, orthòs logos, recta
ratio.
5. A Igreja, por sua vez, não pode deixar de
apreciar o esforço da razão na consecução de objectivos que tornem cada vez
mais digna a existência pessoal. Na verdade, ela vê, na filosofia, o caminho
para conhecer verdades fundamentais relativas à existência do homem. Ao mesmo
tempo, considera a filosofia uma ajuda indispensável para aprofundar a
compreensão da fé e comunicar a verdade do Evangelho a quantos não a conhecem
ainda.
Na sequência de iniciativas análogas dos meus
Predecessores, desejo também eu debruçar-me sobre esta actividade peculiar da
razão. Faço-o movido pela constatação, sobretudo em nossos dias, de que a
busca da verdade última aparece muitas vezes ofuscada. A filosofia moderna
possui, sem dúvida, o grande mérito de ter concentrado a sua atenção sobre o
homem. Partindo daí, uma razão cheia de interrogativos levou por diante o seu
desejo de conhecer sempre mais ampla e profundamente. Desta forma, foram
construídos sistemas de pensamento complexos, que deram os seus frutos nos
diversos âmbitos do conhecimento, favorecendo o progresso da cultura e da
história. A antropologia, a lógica, as ciências da natureza, a história, a
linguística, de algum modo todo o universo do saber foi abarcado. Todavia, os
resultados positivos alcançados não devem levar a transcurar o facto de que essa
mesma razão, porque ocupada a investigar de maneira unilateral o homem como
objecto, parece ter-se esquecido de que este é sempre chamado a voltar-se
também para uma realidade que o transcende. Sem referência a esta, cada um
fica ao sabor do livre arbítrio, e a sua condição de pessoa acaba por ser
avaliada com critérios pragmáticos baseados essencialmente sobre o dado
experimental, na errada convicção de que tudo deve ser dominado pela técnica.
Foi assim que a razão, sob o peso de tanto saber, em vez de exprimir melhor a
tensão para a verdade, curvou-se sobre si mesma, tornando-se incapaz, com o
passar do tempo, de levantar o olhar para o alto e de ousar atingir a verdade
do ser. A filosofia moderna, esquecendo-se de orientar a sua pesquisa para o
ser, concentrou a própria investigação sobre o conhecimento humano. Em vez de
se apoiar sobre a capacidade que o homem tem de conhecer a verdade, preferiu
sublinhar as suas limitações e condicionalismos.
Daí provieram várias formas de agnosticismo e
relativismo, que levaram a investigação filosófica a perder-se nas areias
movediças dum cepticismo geral. E, mais recentemente, ganharam relevo
diversas doutrinas que tendem a desvalorizar até mesmo aquelas verdades que o
homem estava certo de ter alcançado. A legítima pluralidade de posições cedeu
o lugar a um pluralismo indefinido, fundado no pressuposto de que todas as
posições são equivalentes: trata-se de um dos sintomas mais difusos, no
contexto actual, de desconfiança na verdade. E esta ressalva vale também para
certas concepções de vida originárias do Oriente: é que negam à verdade o seu
carácter exclusivo, ao partirem do pressuposto de que ela se manifesta de
modo igual em doutrinas diversas ou mesmo contraditórias entre si. Neste
horizonte, tudo fica reduzido a mera opinião. Dá a impressão de um movimento
ondulatório: enquanto, por um lado, a razão filosófica conseguiu avançar pela
estrada que a torna cada vez mais atenta à existência humana e às suas formas
de expressão, por outro tende a desenvolver considerações existenciais,
hermenêuticas ou linguísticas, que prescindem da questão radical relativa à
verdade da vida pessoal, do ser e de Deus. Como consequência, despontaram,
não só em alguns filósofos mas no homem contemporâneo em geral, atitudes de
desconfiança generalizada quanto aos grandes recursos cognoscitivos do ser
humano. Com falsa modéstia, contentam-se de verdades parciais e provisórias,
deixando de tentar pôr as perguntas radicais sobre o sentido e o fundamento
último da vida humana, pessoal e social. Em suma, esmoreceu a esperança de se
poder receber da filosofia respostas definitivas a tais questões.
6. Credenciada pelo facto de ser depositária da
revelação de Jesus Cristo, a Igreja deseja reafirmar a necessidade da
reflexão sobre a verdade. Foi por este motivo que decidi dirigir-me a vós,
venerados Irmãos no Episcopado, com quem partilho a missão de anunciar «
abertamente a verdade » (2 Cor 4, 2), e dirigir-me também aos
teólogos e filósofos a quem compete o dever de investigar os diversos aspectos
da verdade, e ainda a quantos andam à procura duma resposta, para comunicar
algumas reflexões sobre o caminho que conduz à verdadeira sabedoria, a fim de
que todo aquele que tiver no coração o amor por ela possa tomar a estrada
certa para a alcançar, e nela encontrar repouso para a sua fadiga e também
satisfação espiritual.
Tomo esta iniciativa impelido, antes de mais,
pela certeza de que os Bispos, como assinala o Concílio Vaticano II, são «
testemunhas da verdade divina e católica » 3. Por isso, testemunhar a verdade é um
encargo que nos foi confiado a nós, os Bispos; não podemos renunciar a ele,
sem faltar ao ministério que recebemos. Reafirmando a verdade da fé, podemos
restituir ao homem de hoje uma genuína confiança nas suas capacidades
cognoscitivas e oferecer à filosofia um estímulo para poder recuperar e
promover a sua plena dignidade.
Há um segundo motivo que me induz a escrever
estas reflexões Na carta encíclica Veritatis splendor, chamei a
atenção para « algumas verdades fundamentais da doutrina católica que, no
contexto actual, correm o risco de serem deformadas ou negadas ». 4 Com este novo documento, desejo
continuar aquela reflexão, concentrando a atenção precisamente sobre o tema
da verdade e sobre o seu fundamento em relação
com a fé. De facto, não se pode negar que este período, de
mudanças rápidas e complexas, deixa sobretudo os jovens, a quem pertence e de
quem depende o futuro, na sensação de estarem privados de pontos de
referência autênticos. A necessidade de um alicerce sobre o qual construir a
existência pessoal e social faz-se sentir de maneira premente, principalmente
quando se é obrigado a constatar o carácter fragmentário de propostas que
elevam o efémero ao nível de valor, iludindo assim a possibilidade de se alcançar
o verdadeiro sentido da existência. Deste modo, muitos arrastam a sua vida
quase até à borda do precipício, sem saber o que os espera. Isto depende
também do facto de, às vezes, quem era chamado por vocação a exprimir em
formas culturais o fruto da sua reflexão, ter desviado o olhar da verdade,
preferindo o sucesso imediato ao esforço duma paciente investigação sobre
aquilo que merece ser vivido. A filosofia, que tem a grande responsabilidade
de formar o pensamento e a cultura através do apelo perene à busca da
verdade, deve recuperar vigorosamente a sua vocação originária. É por isso
que senti a necessidade e o dever de intervir sobre este tema, para que, no
limiar do terceiro milénio da era cristã, a humanidade tome consciência mais
clara dos grandes recursos que lhe foram concedidos, e se empenhe com
renovada coragem no cumprimento do plano de salvação, no qual está inserida a
sua história.
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CAPÍTULO I - A REVELAÇÃO DA SABEDORIA DE DEUS
1. Jesus, revelador do Pai
7. Na base de toda a reflexão feita pela Igreja,
está a consciência de ser depositária duma mensagem, que tem a sua origem no
próprio Deus (cf. 2 Cor 4, 1-2). O conhecimento que ela
propõe ao homem, não provém de uma reflexão sua, nem sequer da mais alta, mas
de ter acolhido na fé a palavra de Deus (cf. 1 Tes 2, 13).
Na origem do nosso ser crentes existe um encontro, único no seu género, que
assinala a abertura de um mistério escondido durante tantos séculos
(cf. 1 Cor 2, 7; Rom 16, 25-26), mas agora
revelado: « Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-Se a Si mesmo
e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1, 9),
segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao
Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina ». 5 Trata-se de uma iniciativa
completamente gratuita, que parte de Deus e vem ao encontro da humanidade
para a salvar. Enquanto fonte de amor, Deus deseja dar-Se a conhecer, e o
conhecimento que o homem adquire d'Ele leva à plenitude qualquer outro
conhecimento verdadeiro que a sua mente seja capaz de alcançar sobre o
sentido da própria existência.
8. Retomando quase literalmente a doutrina
presente na constituição Dei Filius do Concílio Vaticano I e
tendo em conta os princípios propostos pelo Concílio de Trento, a
constituição Dei Verbum do Vaticano II continuou aquele
caminho plurissecular de compreensão da fé, reflectindo sobre a
Revelação à luz da doutrina bíblica e de toda a tradição patrística. No
primeiro Concílio do Vaticano, os Padres tinham sublinhado o carácter
sobrenatural da revelação de Deus. A crítica racionalista que então se fazia
sentir contra a fé, baseada em teses erradas mas muito difusas, insistia
sobre a negação de qualquer conhecimento que não fosse fruto das capacidades
naturais da razão. Isto obrigara o Concílio a reafirmar vigorosamente que,
além do conhecimento da razão humana, por sua natureza, capaz de chegar ao
Criador, existe um conhecimento que é peculiar da fé. Este conhecimento
exprime uma verdade que se funda precisamente no facto de Deus que Se revela,
e é uma verdade certíssima porque Deus não Se engana nem quer enganar. 6
9. Por isso, o Concílio Vaticano I ensina que a
verdade alcançada pela via da reflexão filosófica e a verdade da Revelação
não se confundem, nem uma torna a outra supérflua: « Existem duas ordens de
conhecimento, diversas não apenas pelo seu princípio, mas também pelo
objecto. Pelo seu princípio, porque, se num conhecemos pela razão natural, no
outro fazêmo-lo por meio da fé divina; pelo objecto, porque, além das
verdades que a razão natural pode compreender, é-nos proposto ver os
mistérios escondidos em Deus, que só podem ser conhecidos se nos forem
revelados do Alto ». 7A fé, que se fundamenta no testemunho de
Deus e conta com a ajuda sobrenatural da graça, pertence efectivamente a uma
ordem de conhecimento diversa da do conhecimento filosófico. De facto, este
assenta sobre a percepção dos sentidos, sobre a experiência, e move-se apenas
com a luz do intelecto. A filosofia e as ciências situam-se na ordem da razão
natural, enquanto a fé, iluminada e guiada pelo Espírito, reconhece na
mensagem da salvação a « plenitude de graça e de verdade » (cf.Jo 1,
14) que Deus quis revelar na história, de maneira definitiva, por meio do seu
Filho Jesus Cristo (cf. 1 Jo 5, 9; Jo 5,
31-32).
10. No Concílio Vaticano II, os Padres, fixando a
atenção sobre Jesus revelador, ilustraram o carácter salvífico da revelação
de Deus na história e exprimiram a sua natureza do seguinte modo: « Em
virtude desta revelação, Deus invisível (cf. Col 1,
15; 1 Tim 1, 17), na riqueza do seu amor, fala aos homens
como amigos (cf. Ex 33, 11; Jo 15, 14-15) e
convive com eles (cf. Bar 3, 38), para os convidar e admitir
à comunhão com Ele. Esta economia da Revelação realiza-se por meio de acções
e palavras intimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras,
realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a
doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua
vez, declaram as obras e esclarecem o mistério nelas contido. Porém, a
verdade profunda tanto a respeito de Deus como a respeito da salvação dos
homens manifesta-se-nos, por esta Revelação, em Cristo, que é simultaneamente
o mediador e a plenitude de toda a revelação ». 8
11. Assim, a revelação de Deus entrou no tempo e
na história. Mais, a encarnação de Jesus Cristo realiza-se na « plenitude dos
tempos » (Gal 4, 4). À distância de dois mil anos deste
acontecimento, sinto o dever de reafirmar intensamente que, « no
cristianismo, o tempo tem uma importância fundamental ». 9 Com efeito, é nele que tem lugar
toda a obra da criação e da salvação, e sobretudo merece destaque o facto de
que, com a encarnação do Filho de Deus, vivemos e antecipamos desde já aquilo
que se seguirá ao fim dos tempos (cf. Heb 1, 2).
A verdade que Deus confiou ao homem a respeito de
Si mesmo e da sua vida insere-se, portanto, no tempo e na história. Sem
dúvida, aquela foi pronunciada uma vez por todas no mistério de Jesus de
Nazaré. Afirma-o, com palavras muito expressivas, a constituição Dei
Verbum: « Depois de ter falado muitas vezes e de muitos modos pelos
profetas, falou-nos Deus nestes nossos dias, que são os últimos, através de
seu Filho (Heb 1, 1-2). Com efeito, enviou o seu Filho, isto é, o
Verbo eterno, que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e
manifestar-lhes a vida íntima de Deus (cf. Jo 1, 1-18).
Jesus Cristo, Verbo feito carne, enviado como homem para os homens,
"fala, portanto, as palavras de Deus" (Jo 3, 34) e
consuma a obra de salvação que o Pai Lhe mandou realizar (cf. Jo 5,
36; 17, 4). Por isso, Ele — vê-l'O a Ele é ver o Pai (cf. Jo 14,
9) —, com toda a sua presença e manifestação da sua pessoa, com palavras e
obras, sinais e milagres, e sobretudo com a sua morte e gloriosa
ressurreição, e enfim, com o envio do Espírito de verdade, completa
totalmente e confirma com o testemunho divino a Revelação ». 10
Assim, a história constitui um caminho que o Povo
de Deus há-de percorrer inteiramente, de tal modo que a verdade revelada
possa exprimir em plenitude os seus conteúdos, graças à acção incessante do
Espírito Santo (cf. Jo 16, 13). Ensina-o também a
constituição Dei Verbum, quando afirma que « a Igreja, no decurso
dos séculos, tende continuamente para a plenitude da verdade divina, até que
nela se realizem as palavras de Deus ». 11
12. A história torna-se, assim, o lugar onde
podemos constatar a acção de Deus em favor da humanidade. Ele vem ter
connosco, servindo-Se daquilo que nos é mais familiar e mais fácil de
verificar, ou seja, o nosso contexto quotidiano, fora do qual não conseguiríamos
entender-nos.
A encarnação do Filho de Deus permite ver
realizada uma síntese definitiva que a mente humana, por si mesma, nem sequer
poderia imaginar: o Eterno entra no tempo, o Tudo esconde-se no fragmento,
Deus assume o rosto do homem. Deste modo, a verdade expressa na revelação de
Cristo deixou de estar circunscrita a um restrito âmbito territorial e
cultural, abrindo-se a todo o homem e mulher que a queira acolher como
palavra definitivamente válida para dar sentido à existência. Agora todos têm
acesso ao Pai, em Cristo; de facto, com a sua morte e ressurreição, Ele
concedeu-nos a vida divina que o primeiro Adão tinha rejeitado (cf. Rom 5,
12-15). Com esta Revelação, é oferecida ao homem a verdade última a respeito
da própria vida e do destino da história: « Na realidade, o mistério do homem
só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente », afirma a
constituição Gaudium et spes. 12 Fora desta perspectiva, o mistério
da existência pessoal permanece um enigma insolúvel. Onde poderia o homem
procurar resposta para questões tão dramáticas como a dor, o sofrimento do
inocente e a morte, a não ser na luz que dimana do mistério da paixão, morte
e ressurreição de Cristo?
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2. A razão perante o mistério
13. Entretanto, não se pode esquecer que a
Revelação permanece envolvida no mistério. Jesus, com toda a sua vida, revela
seguramente o rosto do Pai, porque Ele veio para manifestar os segredos de
Deus; 13 e contudo, o conhecimento que
possuímos daquele rosto, está marcado sempre pelo carácter parcial e limitado
da nossa compreensão. Somente a fé permite entrar dentro do mistério,
proporcionando uma sua compreensão coerente.
O Concílio ensina que, « a Deus que revela, é
devida a obediência da fé ». 14 Com esta breve mas densa afirmação,
é indicada uma verdade fundamental do cristianismo. Diz-se, em primeiro
lugar, que a fé é uma resposta de obediência a Deus. Isto implica que Ele
seja reconhecido na sua divindade, transcendência e liberdade suprema. Deus
que Se dá a conhecer na autoridade da sua transcendência absoluta, traz
consigo também a credibilidade dos conteúdos que revela. Pela fé, o homem
presta assentimento a esse testemunho divino. Isto significa
que reconhece plena e integralmente a verdade de tudo o que foi revelado,
porque é o próprio Deus que o garante. Esta verdade, oferecida ao homem sem
que ele a possa exigir, insere-se no horizonte da comunicação interpessoal e
impele a razão a abrir-se a esta e a acolher o seu sentido profundo. É por
isso que o acto pelo qual nos entregamos a Deus, sempre foi considerado pela
Igreja como um momento de opção fundamental, que envolve a pessoa inteira.
Inteligência e vontade põem em acção o melhor da sua natureza espiritual,
para consentir que o sujeito realize um acto no pleno exercício da sua
liberdade pessoal. 15 Na fé, portanto, não basta a
liberdade estar presente, exige-se que entre em acção. Mais, é a fé que
permite a cada um exprimir, do melhor modo, a sua própria liberdade. Por
outras palavras, a liberdade não se realiza nas opções contra Deus. Na
verdade, como poderia ser considerado um uso autêntico da liberdade, a recusa
de se abrir àquilo que permite a realização de si mesmo? No acreditar é que a
pessoa realiza o acto mais significativo da sua existência; de facto, nele a
liberdade alcança a certeza da verdade e decide viver nela.
Em auxílio da razão, que procura a compreensão do
mistério, vêm também os sinais presentes na Revelação. Estes servem para
conduzir mais longe a busca da verdade e permitir que a mente possa
autonomamente investigar inclusive dentro do mistério. De qualquer modo, se,
por um lado, esses sinais dão maior força à razão, porque lhe permitem
pesquisar dentro do mistério com os seus próprios meios, de que ela
justamente se sente ciosa, por outro lado, impelem-na a transcender a sua
realidade de sinais para apreender o significado ulterior de que eles são portadores.
Portanto, já há neles uma verdade escondida, para a qual encaminham a mente e
da qual esta não pode prescindir sem destruir o próprio sinal que lhe foi
proposto.
Chega-se, assim, ao horizonte sacramental da
Revelação e de forma particular ao sinal eucarístico, onde a união
indivisível entre a realidade e o respectivo significado permite identificar
a profundidade do mistério. Na Eucaristia, Cristo está verdadeiramente
presente e vivo, actua pelo seu Espírito, mas, como justamente diz S. Tomás,
« nada vês nem compreendes, mas t'o afirma a fé mais viva, para além das leis
da Terra. Sob espécies diferentes, que não passam de sinais, é que está o dom
de Deus ». 16 Temos um eco disto mesmo nas
seguintes palavras do filósofo Pascal: « Como Jesus Cristo passou
despercebido no meio dos homens, assim a sua verdade permanece, entre as
opiniões comuns, sem diferença exterior. O mesmo se dá com a Eucaristia
relativamente ao pão comum ».17
Em resumo, o conhecimento da fé não anula o
mistério; torna-o apenas mais evidente e apresenta-o como um facto essencial
para a vida do homem: Cristo Senhor, « na própria revelação do mistério do
Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação
sublime », 18 que é participar no mistério da vida
trinitária de Deus. 19
14. A doutrina do primeiro e segundo Concílio do
Vaticano abre um horizonte verdadeiramente novo também ao saber filosófico. A
Revelação coloca dentro da história um ponto de referência de que o homem não
pode prescindir, se quiser chegar a compreender o mistério da sua existência;
mas, por outro lado, este conhecimento apela constantemente para o mistério
de Deus que a mente não consegue abarcar, mas apenas receber e acolher na fé.
Entre estes dois momentos, a razão possui o seu espaço peculiar que lhe
permite investigar e compreender, sem ser limitada por nada mais que a sua
finitude ante o mistério infinito de Deus.
A Revelação introduz, portanto, na nossa história
uma verdade universal e última que leva a mente do homem a nunca mais se
deter; antes, impele-a a ampliar continuamente os espaços do próprio
conhecimento até sentir que realizou tudo o que estava ao seu alcance, sem
nada descurar. Ajuda-nos, nesta reflexão, uma das inteligências mais fecundas
e significativas da história da humanidade, à qual obrigatoriamente fazem
referência a filosofia e a teologia: Santo Anselmo. Na sua obra,Proslogion,
o Arcebispo de Cantuária exprime-se assim: « Detendo-me com frequência e
atenção a pensar neste problema, sucedia umas vezes que me parecia estar para
agarrar o que buscava, outras vezes, pelo contrário, furtava-se completamente
ao meu pensamento; até que finalmente, desesperado de o poder achar, decidi
deixar de procurar algo que me era impossível encontrar. Mas, quando quis
afastar de mim tal pensamento para que a sua ocupação da minha mente não me
alheasse de outros problemas de que podia tirar algum proveito, foi então que
começou a apresentar-se cada vez mais teimoso. (...) Mas, pobre de mim, um
dos pobres filhos de Eva, longe de Deus, o que é que comecei a fazer e o que
é que consegui? O que é que visava e a que ponto cheguei? A que é que
aspirava e por que é que suspiro? (...) Ó Senhor, Vós não sois apenas algo
acerca do qual não se pode pensar nada de maior (non solum es quo maius
cogitari nequit), mas sois maior de tudo o que se possa pensar (quiddam
maius quam cogitari possit) (...). Se não fôsseis o que sois, poder-se-ia
pensar algo maior do que Vós, mas isso é impossível ». 20
15. A verdade da revelação cristã, que se
encontra em Jesus de Nazaré, permite a quemquer que seja perceber o «
mistério » da própria vida. Enquanto verdade suprema, ao mesmo tempo que
respeita a autonomia da criatura e a sua liberdade, obriga-a a abrir-se à
transcendência. Aqui, a relação entre liberdade e verdade atinge o seu máximo
grau, podendo-se compreender plenamente esta palavra do Senhor: « Conhecereis
a verdade e a verdade libertar-vos-á » (Jo 8, 32).
A revelação cristã é a verdadeira estrela de
orientação para o homem, que avança por entre os condicionalismos da
mentalidade imanentista e os reducionismos duma lógica tecnocrática; é a última
possibilidade oferecida por Deus, para reencontrar em plenitude aquele
projecto primordial de amor que teve início com a criação. Ao homem ansioso
de conhecer a verdade — se ainda é capaz de ver para além de si mesmo e
levantar os olhos acima dos seus próprios projectos — é-lhe concedida a
possibilidade de recuperar a genuína relação com a sua vida, seguindo a
estrada da verdade. Podem-se aplicar a esta situação as seguintes palavras do
Deuteronómio: « A lei que hoje te imponho não está acima das tuas forças nem
fora do teu alcance. Não está no céu, para que digas: "Quem subirá por
nós ao céu e no-la irá buscar?" Não está tão pouco do outro lado do mar,
para que digas: "Quem atravessará o mar para no-la buscar e no-la fazer
ouvir para que a observemos?" Não, ela está muito perto de ti: está na
tua boca e no teu coração; e tu podes cumpri-la » (30, 11-14). Temos um eco
deste texto no famoso pensamento do filósofo e teólogo Santo Agostinho:
« Noli foras ire, in te ipsum redi. In interiore homine habitat veritas ». 21
À luz destas considerações, impõe-se uma primeira
conclusão: a verdade que a Revelação nos dá a conhecer não é o fruto maduro
ou o ponto culminante dum pensamento elaborado pela razão. Pelo contrário,
aquela apresenta-se com a característica da gratuidade, obriga a pensá-la, e
pede para ser acolhida, como expressão de amor. Esta verdade revelada é a
presença antecipada na nossa história daquela visão última e definitiva de
Deus, que está reservada para quantos acreditam n'Ele ou O procuram de
coração sincero. Assim, o fim último da existência pessoal é objecto de
estudo quer da filosofia, quer da teologia. Embora com meios e conteúdos
diversos, ambas apontam para aquele « caminho da vida » (Sal 1615,
11) que, segundo nos diz a fé, tem o seu termo último de chegada na alegria
plena e duradoura da contemplação de Deus Uno e Trino.
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CAPÍTULO II - CREDO UT INTELLEGAM
1. « A sabedoria sabe e compreende todas as
coisas» (Sab9, 11)
16. Quão profunda seja a ligação entre o
conhecimento da fé e o da razão, já a Sagrada Escritura no-lo indica com
elementos de uma clareza surpreendente. Comprovam-no sobretudo os Livros
Sapienciais. O que impressiona na leitura, feita sem preconceitos, dessas
páginas da Sagrada Escritura é o facto de estes textos conterem não apenas a
fé de Israel, mas também o tesouro de civilizações e culturas já
desaparecidas. Como se de um desígnio particular se tratasse, o Egipto e a
Mesopotâmia fazem ouvir novamente a sua voz, e alguns traços comuns das
culturas do Antigo Oriente ressurgem nestas páginas ricas de intuições
singularmente profundas.
Não é por acaso que o autor sagrado, ao querer
descrever o homem sábio, o apresenta como aquele que ama e busca a verdade: «
Feliz o homem que é constante na sabedoria, e que discorre com a sua inteligência;
que repassa no seu coração os caminhos da sabedoria, e que penetra no
conhecimento dos seus segredos; vai atrás dela como quem lhe segue o rasto, e
permanece nos seus caminhos; olha pelas suas janelas, e escuta às suas
portas; repousa junto da sua morada, e fixa um pilar nas suas paredes;
levanta a sua tenda junto dela, e estabelece ali agradável morada; coloca os
seus filhos debaixo da sua protecção, e ele mesmo morará debaixo dos seus
ramos; à sua sombra estará defendido do calor, e repousará na sua glória » (Sir 14,
20-27).
Para o autor inspirado, como se vê, o desejo de
conhecer é uma característica comum a todos os homens. Graças à inteligência,
é dada a todos, crentes e descrentes, a possibilidade de « saciarem-se nas
águas profundas » do conhecimento (cf. Prov 20, 5).
Seguramente, no Antigo Israel, o conhecimento do mundo e dos seus fenómenos
não se realizava pela via da abstracção, como já o fazia o filósofo jónico ou
o sábio egípcio. E menos ainda podia o bom israelita conceber o conhecimento nos
parâmetros próprios da época moderna, mais propensa à subdivisão do saber.
Apesar disso, o mundo bíblico fez confluir, para o grande mar da teoria do
conhecimento, o seu contributo original.
Qual? O carácter peculiar do texto bíblico reside
na convicção de que existe uma unidade profunda e indivisível entre o
conhecimento da razão e o da fé. O mundo e o que nele acontece, assim como a
história e as diversas vicissitudes da nação são realidades observadas,
analisadas e julgadas com os meios próprios da razão, mas sem deixar a fé
alheia a este processo. Esta não intervém para humilhar a autonomia da razão,
nem para reduzir o seu espaço de acção, mas apenas para fazer compreender ao
homem que, em tais acontecimentos, Se torna visível e actua o Deus de Israel.
Assim, não é possível conhecer profundamente o mundo e os factos da história,
sem ao mesmo tempo professar a fé em Deus que neles actua. A fé aperfeiçoa o
olhar interior, abrindo a mente para descobrir, no curso dos acontecimentos,
a presença operante da Providência. A tal propósito, é significativa uma
expressão do livro dos Provérbios: « A mente do homem dispõe o seu caminho,
mas é o Senhor quem dirige os seus passos » (16, 9). É como se dissesse que o
homem, pela luz da razão, pode reconhecer a sua estrada, mas percorrê-la de
maneira decidida, sem obstáculos e até ao fim, ele só o consegue se, de ânimo
recto, integrar a sua pesquisa no horizonte da fé. Por isso, a razão e a fé
não podem ser separadas, sem fazer com que o homem perca a possibilidade de conhecer
de modo adequado a si mesmo, o mundo e Deus.
17. Não há motivo para existir concorrência entre
a razão e a fé: uma implica a outra, e cada qual tem o seu espaço próprio de
realização. Aponta nesta direcção o livro dos Provérbios, quando exclama: « A
glória de Deus é encobrir as coisas, e a glória dos reis é investigá-las »
(25, 2). Deus e o homem estão colocados, em seu respectivo mundo, numa
relação única. Em Deus reside a origem de tudo, n'Ele se encerra a plenitude
do mistério, e isto constitui a sua glória; ao homem, pelo contrário, compete
o dever de investigar a verdade com a razão, e nisto está a sua nobreza. Um
novo ladrilho é colocado neste mosaico pelo Salmista, quando diz: « Quão
insondáveis para mim, ó Deus, vossos pensamentos! Quão imenso o seu número!
Quisera contá-los, são mais que as areias; se pudesse chegar ao fim, estaria
ainda convosco » (139/ 138, 17-18). O desejo de conhecer é tão grande e
comporta tal dinamismo que o coração do homem, ao tocar o limite
intransponível, suspira pela riqueza infinita que se encontra para além
deste, por intuir que nela está contida a resposta cabal para toda a questão
ainda sem resposta.
18. Podemos, pois, dizer que Israel, com a sua
reflexão, soube abrir à razão o caminho para o mistério. Na revelação de
Deus, pôde sondar em profundidade aquilo que a razão estava procurando
alcançar sem o conseguir. A partir desta forma mais profunda de conhecimento,
o Povo Eleito compreendeu que a razão deve respeitar algumas regras
fundamentais, para manifestar do melhor modo possível a própria natureza. A
primeira regra é ter em conta que o conhecimento do homem é um caminho que
não permite descanso; a segunda nasce da consciência de que não se pode
percorrer tal caminho com o orgulho de quem pensa que tudo seja fruto de
conquista pessoal; a terceira regra funda-se no « temor de Deus », de quem a
razão deve reconhecer tanto a transcendência soberana como o amor solícito no
governo do mundo.
Quando o homem se afasta destas regras, corre o
risco de falimento e acaba por encontrar-se na condição do « insensato ».
Segundo a Bíblia, nesta insensatez encerra-se uma ameaça à vida. É que o
insensato ilude-se pensando que conhece muitas coisas, mas, de facto, não é
capaz de fixar o olhar nas realidades essenciais. E isto impede-lhe de pôr
ordem na sua mente (cf. Prov 1, 7) e de assumir uma atitude
correcta para consigo mesmo e o ambiente circundante. Quando, depois, chega a
afirmar que « Deus não existe » (cf. Sal 1413, 1), isso
revela, com absoluta clareza, quanto seja deficiente o seu conhecimento e
quão distante esteja ele da verdade plena a respeito das coisas, da sua
origem e do seu destino.
19. Encontramos, no livro da Sabedoria, alguns
textos importantes, que iluminam ainda melhor este assunto. Lá, o autor
sagrado fala de Deus que Se dá a conhecer também através da natureza. Para os
antigos, o estudo das ciências naturais coincidia, em grande parte, com o
saber filosófico. Depois de ter afirmado que o homem, com a sua inteligência,
é capaz de « conhecer a constituição do universo e a força dos elementos
(...), o ciclo dos anos e a posição dos astros, a natureza dos animais mansos
e os instintos dos animais ferozes » (Sab 7, 17.19-20), por
outras palavras, que o homem é capaz de filosofar, o texto sagrado dá um
passo em frente muito significativo. Retomando o pensamento da filosofia
grega, à qual parece referir-se neste contexto, o autor afirma que,
raciocinando precisamente sobre a natureza, pode-se chegar ao Criador: « Pela
grandeza e beleza das criaturas, pode-se, por analogia, chegar ao
conhecimento do seu Autor » (Sab 13, 5). Reconhece-se, assim, um
primeiro nível da revelação divina, constituído pelo maravilhoso « livro da
natureza »; lendo-o com os meios próprios da razão humana, pode-se chegar ao
conhecimento do Criador. Se o homem, com a sua inteligência, não chega a
reconhecer Deus como criador de tudo, isso fica-se a dever não tanto à falta
de um meio adequado, como sobretudo ao obstáculo interposto pela sua vontade
livre e pelo seu pecado.
20. Nesta perspectiva, a razão é valorizada, mas
não superexaltada. O que ela alcança pode ser verdade, mas só adquire pleno
significado se o seu conteúdo for situado num horizonte mais amplo, o da fé:
« O Senhor é quem dirige os passos do homem; como poderá o homem compreender o
seu próprio destino? » (Prov 20, 24). A fé, segundo o Antigo
Testamento, liberta a razão, na medida em que lhe permite alcançar
coerentemente o seu objecto de conhecimento e situá-lo naquela ordem suprema
onde tudo adquire sentido. Em resumo, pela razão o homem alcança a verdade,
porque, iluminado pela fé, descobre o sentido profundo de tudo e,
particularmente, da própria existência. Justamente, pois, o autor sagrado
coloca o início do verdadeiro conhecimento no temor de Deus: « O temor do
Senhor é o princípio da sabedoria » (Prov 1, 7; cf. Sir 1,
14).
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2. « Adquire a sabedoria, adquire a
inteligência » (Prov 4, 5)
21. Segundo o Antigo Testamento, o conhecimento
não se baseia apenas numa atenta observação do homem, do mundo e da história,
mas supõe como indispensável também uma relação com a fé e os conteúdos da
Revelação. Aqui se concentram os desafios que o Povo Eleito teve de enfrentar
e a que deu resposta. Ao reflectir sobre esta sua condição, o homem bíblico
descobriu que não se podia compreender senão como « ser em relação »: relação
consigo mesmo, com o povo, com o mundo e com Deus. Esta abertura ao mistério,
que provinha da Revelação, acabou por ser, para ele, a fonte dum verdadeiro
conhecimento, que permitiu à sua razão aventurar-se em espaços infinitos,
recebendo inesperadas possibilidades de compreensão.
Segundo o autor sagrado, o esforço da
investigação não estava isento da fadiga causada pelo embate nas limitações
da razão. Sente-se isso mesmo, por exemplo, nas palavras com que o livro dos
Provérbios denuncia o cansaço provado ao tentar compreender os misteriosos
desígnios de Deus (cf. 30, 1-6). Todavia, apesar da fadiga, o crente não
desiste. E a força para continuar o seu caminho rumo à verdade provém da
certeza de que Deus o criou como um « explorador » (cf. Coel1,
13), cuja missão é não deixar nada sem tentar, não obstante a contínua
chantagem da dúvida. Apoiando-se em Deus, o crente permanece, em todo o lado
e sempre, inclinado para o que é belo, bom e verdadeiro.
22. S. Paulo, no primeiro capítulo da carta aos
Romanos, ajuda-nos a avaliar melhor quanto seja incisiva a reflexão dos
Livros Sapienciais. Desenvolvendo com linguagem popular uma argumentação
filosófica, o Apóstolo exprime uma verdade profunda: através da criação, os «
olhos da mente » podem chegar ao conhecimento de Deus. Efectivamente, através
das criaturas, Ele faz intuir à razão o seu « poder » e a sua « divindade »
(cf. Rom 1, 20). Deste modo, é atribuída à razão humana uma
capacidade tal que parece quase superar os seus próprios limites naturais:
não só ultrapassa o âmbito do conhecimento sensorial, visto que lhe é
possível reflectir criticamente sobre o mesmo, mas, raciocinando a partir dos
dados dos sentidos, pode chegar também à causa que está na origem de toda a
realidade sensível. Em terminologia filosófica, podemos dizer que, neste
significativo texto paulino, está afirmada a capacidade metafísica do homem.
Segundo o Apóstolo, no projecto originário da
criação estava prevista a capacidade de a razão ultrapassar comodamente o
dado sensível para alcançar a origem mesma de tudo: o Criador. Como resultado
da desobediência com que o homem escolheu colocar-se em plena e absoluta
autonomia relativamente Àquele que o tinha criado, perdeu tal facilidade de
acesso a Deus criador.
O livro do Génesis descreve de maneira figurada
esta condição do homem, quando narra que Deus o colocou no jardim do Éden,
tendo no centro « a árvore da ciência do bem e do mal » (2, 17). O símbolo é
claro: o homem não era capaz de discernir e decidir, por si só, aquilo que
era bem e o que era mal, mas devia apelar-se a um princípio superior. A
cegueira do orgulho iludiu os nossos primeiros pais de que eram soberanos e
autónomos, podendo prescindir do conhecimento vindo de Deus. Nesta
desobediência original, eles implicaram todo o homem e mulher, causando à
razão traumas sérios que haveriam de dificultar-lhe, daí em diante, o caminho
para a verdade plena. Agora a capacidade humana de conhecer a verdade aparece
ofuscada pela aversão contra Aquele que é fonte e origem da verdade. O
próprio apóstolo S. Paulo nos revela como, por causa do pecado, os
pensamentos dos homens se tornaram « vãos » e os seus arrazoados tortuosos e
falsos (cf. Rom 1, 21-22). Os olhos da mente deixaram de ser
capazes de ver claramente: a razão foi progressivamente ficando prisioneira
de si mesma. A vinda de Cristo foi o acontecimento de salvação que redimiu a
razão da sua fraqueza, libertando-a dos grilhões onde ela mesma se tinha
algemado.
23. Deste modo, a relação do cristão com a
filosofia requer um discernimento radical. No Novo Testamento, especialmente
nas cartas de S. Paulo, aparece claramente este dado: a contraposição entre «
a sabedoria deste mundo » e a sabedoria de Deus revelada em Jesus Cristo. A
profundidade da sabedoria revelada rompe o círculo dos nossos esquemas de
reflexão habituais, que não são minimamente capazes de exprimi-la de forma
adequada.
O início da primeira carta aos Coríntios
apresenta radicalmente este dilema. O Filho de Deus crucificado é o
acontecimento histórico contra o qual se desfaz toda a tentativa da mente
para construir, sobre razões puramente humanas, uma justificação suficiente
do sentido da existência. O verdadeiro ponto nodal, que desafia qualquer
filosofia, é a morte de Jesus Cristo na cruz. Aqui, de facto, qualquer
tentativa de reduzir o plano salvífico do Pai a mera lógica humana está
destinada à falência. « Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o
investigador deste século? Porventura, Deus não considerou louca a sabedoria
deste mundo? » (1 Cor 1, 20) — interroga-se enfaticamente o
Apóstolo. Para aquilo que Deus quer realizar, não basta a simples sabedoria
do homem sábio, requer-se um passo decisivo que leve ao acolhimento duma
novidade radical: « O que é louco segundo o mundo é que Deus escolheu para
confundir os sábios (...). O que é vil e desprezível no mundo, é que Deus
escolheu, como também aquelas coisas que nada são, para destruir as que são »
(1 Cor 1, 27-28). A sabedoria do homem recusa ver na própria
fragilidade o pressuposto da sua força; mas S. Paulo não hesita em afirmar: «
Quando me sinto fraco, então é que sou forte » (2 Cor 12, 10). O
homem não consegue compreender como possa a morte ser fonte de vida e de
amor, mas Deus, para revelar o mistério do seu desígnio salvador, escolheu
precisamente o que a razão considera « loucura » e « escândalo ». Usando a
linguagem dos filósofos do seu tempo, Paulo chega ao clímax da sua doutrina e
do paradoxo que quer exprimir: « Deus escolheu, no mundo, aquelas coisas que
nada são, para destruir as que são » (cf. 1 Cor 1, 28). Para
exprimir o carácter gratuito do amor revelado na cruz de Cristo, o Apóstolo
não tem medo de usar a linguagem mais radical que os filósofos empregavam nas
suas reflexões a respeito de Deus. A razão não pode esgotar o mistério de
amor que a Cruz representa, mas a Cruz pode dar à razão a resposta última que
esta procura. S. Paulo coloca, não a sabedoria das palavras, mas a Palavra da
Sabedoria como critério, simultaneamente, de verdade e de salvação.
Por conseguinte, a sabedoria da Cruz supera
qualquer limite cultural que se lhe queira impor, obrigando a abrir-se à
universalidade da verdade de que é portadora. Como é grande o desafio lançado
à nossa razão e como são enormes as vantagens que terá, se ela se render! A
filosofia, que por si mesma já é capaz de reconhecer a necessidade do homem
se transcender continuamente na busca da verdade, pode, ajudada pela fé,
abrir-se para, na « loucura » da Cruz, acolher como genuína a crítica a
quantos se iludem de possuir a verdade, encalhando-a nas sirtes dum sistema
próprio. A relação entre a fé e a filosofia encontra, na pregação de Cristo
crucificado e ressuscitado, o escolho contra o qual pode naufragar, mas
também para além do qual pode desembocar no oceano ilimitado da verdade. Aqui
é evidente a fronteira entre a razão e a fé, mas torna-se claro também o
espaço onde as duas se podem encontrar.
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CAPÍTULO III - INTELLEGO UT CREDAM
1. Caminhar à procura da verdade
24. Nos Actos dos Apóstolos, o evangelista Lucas
narra a chegada de Paulo a Atenas, numa das suas viagens missionárias. A
cidade dos filósofos estava cheia de estátuas, que representavam vários
ídolos; e chamou-lhe a atenção um altar, que Paulo prontamente aproveitou
como motivo e base comum para iniciar o anúncio do querigma: « Atenienses —
disse ele —, vejo que sois, em tudo, os mais religiosos dos homens.
Percorrendo a vossa cidade e examinando os vossos monumentos sagrados, até
encontrei um altar com esta inscrição: "Ao Deus desconhecido". Pois
bem! O que venerais sem conhecer, é que eu vos anuncio » (Act 17,
22-23). Partindo daqui, S. Paulo fala-lhes de Deus enquanto criador, como
Aquele que tudo transcende e a tudo dá vida. Depois continua o seu discurso,
dizendo: « Fez a partir de um só homem, todo o género humano, para habitar em
toda a face da Terra; e fixou a sequência dos tempos e os limites para a sua
habitação, a fim de que os homens procurem a Deus e se esforcem por
encontrá-Lo, mesmo tacteando, embora não Se encontre longe de cada um de nós
» (Act 17, 26-27).
O Apóstolo põe em destaque uma verdade que a
Igreja sempre guardou no seu tesouro: no mais fundo do coração do homem, foi
semeado o desejo e a nostalgia de Deus. Recorda-o a liturgia de Sexta-feira
Santa, quando, convidando a rezar pelos que não crêem, diz: « Deus eterno e
omnipotente, criastes os homens para que Vos procurem, de modo que só em Vós
descansa o seu coração ». 22 Existe, portanto, um caminho que o
homem, se quiser, pode percorrer; o seu ponto de partida está na capacidade
de a razão superar o contingente para se estender até ao infinito.
De vários modos e em tempos diversos, o homem
demonstrou que conseguia dar voz a este seu desejo íntimo. A literatura, a
música, a pintura, a escultura, a arquitectura e outras realizações da sua
inteligência criadora tornaram-se canais de que ele se serviu para exprimir
esta sua ansiosa procura. Mas foi sobretudo a filosofia que, de modo
peculiar, recolheu este movimento, exprimindo, com os meios e segundo as
modalidades científicas que lhe são próprias, este desejo universal do homem.
25. « Todos os homens desejam saber », 23 e o objecto próprio deste desejo é a
verdade. A própria vida quotidiana demonstra o interesse que tem cada um em
descobrir, para além do que ouve, a realidade das coisas. Em toda a criação
visível, o homem é o único ser que é capaz não só de saber, mas também de
saber que sabe, e por isso se interessa pela verdade real daquilo que vê.
Ninguém pode sinceramente ficar indiferente quanto à verdade do seu saber. Se
descobre que é falso, rejeita-o; se, pelo contrário, consegue certificar-se
da sua verdade, sente-se satisfeito. É a lição que nos dá Santo Agostinho,
quando escreve: « Encontrei muitos com desejos de enganar outros, mas não
encontrei ninguém que quisesse ser enganado ». 24 Considera-se, justamente, que uma
pessoa alcançou a idade adulta, quando consegue discernir, por seus próprios
meios, entre aquilo que é verdadeiro e o que é falso, formando um juízo
pessoal sobre a realidade objectiva das coisas. Está aqui o motivo de muitas
pesquisas, particularmente no campo das ciências, que levaram, nos últimos
séculos, a resultados tão significativos, favorecendo realmente o progresso
da humanidade inteira.
E a pesquisa é tão importante no campo teórico,
como no âmbito prático: ao referir-me a este, desejo aludir à procura da
verdade a respeito do bem que se deve realizar. Com efeito, graças
precisamente ao agir ético, a pessoa, se actuar segundo a sua livre e recta
vontade, entra pela estrada da felicidade e encaminha-se para a perfeição.
Também neste caso, está em questão a verdade. Reafirmei esta convicção na
carta encíclica Veritatis splendor: « Não há moral sem liberdade
(...). Se existe o direito de ser respeitado no próprio caminho em busca da
verdade, há ainda antes a obrigação moral grave para cada um de procurar a
verdade e de aderir a ela, uma vez conhecida ». 25
Por isso, é necessário que os valores escolhidos
e procurados na vida sejam verdadeiros, porque só estes é que podem
aperfeiçoar a pessoa, realizando a sua natureza. Não é fechando-se em si
mesmo que o homem encontra esta verdade dos valores, mas abrindo-se para a
receber mesmo de dimensões que o transcendem. Esta é uma condição necessária
para que cada um se torne ele mesmo e cresça como pessoa adulta e madura.
26. Ao princípio, a verdade apresenta-se ao homem
sob forma interrogativa: A vida tem um sentido? Para onde se
dirige? À primeira vista, a existência pessoal poderia aparecer
radicalmente sem sentido. Não é preciso recorrer aos filósofos do absurdo,
nem às perguntas provocatórias que se encontram no livro de Job para duvidar
do sentido da vida. A experiência quotidiana do sofrimento, pessoal e alheio,
e a observação de muitos factos, que à luz da razão se revelam inexplicáveis,
bastam para tornar iniludível um problema tão dramático como é a questão do
sentido da vida. 26 A isto se deve acrescentar que a
primeira verdade absolutamente certa da nossa existência, para além do facto
de existirmos, é a inevitabilidade da morte. Perante um dado tão
desconcertante como este, impõe-se a busca de uma resposta exaustiva. Cada um
quer, e deve, conhecer a verdade sobre o seu fim. Quer saber se a morte será
o termo definitivo da sua existência, ou se algo permanece para além da
morte; se pode esperar uma vida posterior, ou não. É significativo que o
pensamento filosófico tenha recebido, da morte de Sócrates, uma orientação
decisiva que o marcou durante mais de dois milénios. Certamente não é por
acaso que os filósofos, perante a realidade da morte, sempre voltam a pôr-se
este problema, associado à questão do sentido da vida e da imortalidade.
27. A tais questões, não pode esquivar-se ninguém
— nem o filósofo, nem o homem comum. E, da resposta que se lhes der, deriva uma
orientação decisiva da investigação: a possibilidade, ou não, de alcançar uma
verdade universal. Por si mesma qualquer verdade, mesmo parcial, se realmente
é verdade, apresenta-se como universal e absoluta. Aquilo que é verdadeiro
deve ser verdadeiro sempre e para todos. Contudo, para além desta
universalidade, o homem procura um absoluto que seja capaz de dar resposta e
sentido a toda a sua pesquisa: algo de definitivo, que sirva de fundamento a
tudo o mais. Por outras palavras, procura uma explicação definitiva, um valor
supremo, para além do qual não existam, nem possam existir, ulteriores
perguntas ou apelos. As hipóteses podem seduzir, mas não saciam. Para todos,
chega o momento em que, admitam-no ou não, há necessidade de ancorar a
existência a uma verdade reconhecida como definitiva, que forneça uma certeza
livre de qualquer dúvida.
Os filósofos procuraram, ao longo dos séculos,
descobrir e exprimir tal verdade, criando um sistema ou uma escola de
pensamento. Mas, para além dos sistemas filosóficos, existem outras
expressões nas quais o homem procura formular a sua « filosofia »: trata-se
de convicções ou experiências pessoais, tradições familiares e culturais, ou
itinerários existenciais vividos sob a autoridade de um mestre. A cada uma
destas manifestações, subjaz sempre vivo o desejo de alcançar a certeza da
verdade e do seu valor absoluto.
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2. Os diferentes rostos da verdade do
homem
28. Há que reconhecer que a busca da verdade nem
sempre se desenrola com a referida transparência e coerência de raciocínio.
Muitas vezes, as limitações naturais da razão e a inconstância do coração
ofuscam e desviam a pesquisa pessoal. Outros interesses de vária ordem podem
sobrepor-se à verdade. Acontece também que o próprio homem a evite, quando
começa a entrevê-la, porque teme as suas exigências. Apesar disto, mesmo
quando a evita, é sempre a verdade que preside à sua existência. Com efeito,
nunca poderia fundar a sua vida sobre a dúvida, a incerteza ou a mentira; tal
existência estaria constantemente ameaçada pelo medo e a angústia. Assim,
pode-se definir o homem como aquele que procura a verdade.
29. É impensável que uma busca, tão profundamente
radicada na natureza humana, possa ser completamente inútil e vã. A própria
capacidade de procurar a verdade e fazer perguntas implica já uma primeira
resposta. O homem não começaria a procurar uma coisa que ignorasse totalmente
ou considerasse absolutamente inatingível. Só a previsão de poder chegar a
uma resposta é que consegue induzi-lo a dar o primeiro passo. De facto, assim
sucede normalmente na pesquisa científica. Quando o cientista, depois de ter
uma intuição, se lança à procura da explicação lógica e empírica dum certo
fenómeno, fá-lo porque tem a esperança, desde o início, de encontrar uma
resposta, e não se dá por vencido com os insucessos. Nem considera inútil a
intuição inicial, só porque não alcançou o seu objectivo; dirá antes, e
justamente, que não encontrou ainda a resposta adequada.
O mesmo deve valer também para a busca da verdade
no âmbito das questões últimas. A sede de verdade está tão radicada no
coração do homem que, se tivesse de prescindir dela, a sua existência ficaria
comprometida. Basta observar a vida de todos os dias para constatar como
dentro de cada um de nós se sente o tormento de algumas questões essenciais
e, ao mesmo tempo, se guarda na alma, pelo menos, o esboço das respectivas
respostas. São respostas de cuja verdade estamos convencidos, até porque
notamos que não diferem substancialmente das respostas a que muitos outros
chegaram. Por certo, nem toda a verdade adquirida possui o mesmo valor;
todavia, o conjunto dos resultados alcançados confirma a capacidade que o ser
humano, em princípio, tem de chegar à verdade.
30. Convém, agora, fazer uma rápida menção das
diversas formas de verdade. As mais numerosas são as verdades que assentam em
evidências imediatas ou recebem confirmação da experiência: esta é a ordem
própria da vida quotidiana e da pesquisa científica. Nível diverso ocupam as
verdades de carácter filosófico, que o homem alcança através da capacidade
especulativa do seu intelecto. Por último, existem as verdades religiosas,
que de algum modo têm as suas raízes também na filosofia; estão contidas nas
respostas que as diversas religiões oferecem, nas suas tradições, às questões
últimas. 27
Quanto às verdades filosóficas, é necessário
especificar que não se limitam só às doutrinas, por vezes efémeras, dos
filósofos profissionais. Como já disse, todo o homem é, de certa forma, um
filósofo e possui as suas próprias concepções filosóficas, pelas quais
orienta a sua vida. De diversos modos, consegue formar uma visão global e uma
resposta sobre o sentido da própria existência: e, à luz disso, interpreta a
própria vida pessoal e regula o seu comportamento. É aqui que deveria
colocar-se a questão da relação entre as verdades filosófico-religiosas e a
verdade revelada em Jesus Cristo. Antes de responder a tal questão, é preciso
ter em conta outro dado da filosofia.
31. O homem não foi criado para viver sozinho.
Nasce e cresce numa família, para depois se inserir, pelo seu trabalho, na
sociedade. Assim a pessoa aparece integrada, desde o seu nascimento, em várias
tradições; delas recebe não apenas a linguagem e a formação cultural, mas
também muitas verdades nas quais acredita quase instintivamente. Entretanto,
o crescimento e a maturação pessoal implicam que tais verdades possam ser
postas em dúvida e avaliadas através da actividade crítica própria do
pensamento. Isto não impede que, uma vez passada esta fase, aquelas mesmas
verdades sejam « recuperadas » com base na experiência feita ou em virtude de
sucessiva ponderação. Apesar disso, na vida duma pessoa, são muito mais
numerosas as verdades simplesmente acreditadas que aquelas adquiridas por
verificação pessoal. Na realidade, quem seria capaz de avaliar criticamente
os inumeráveis resultados das ciências, sobre os quais se fundamenta a vida
moderna? Quem poderia, por conta própria, controlar o fluxo de informações,
recebidas diariamente de todas as partes do mundo e que, por princípio, são
aceites como verdadeiras? Enfim, quem poderia percorrer novamente todos os
caminhos de experiência e pensamento, pelos quais se foram acumulando os
tesouros de sabedoria e religiosidade da humanidade? Portanto, o homem, ser
que busca a verdade, é também aquele que vive de crenças.
32. Cada um, quando crê, confia nos conhecimentos
adquiridos por outras pessoas. Neste acto, pode-se individuar uma
significativa tensão: por um lado, o conhecimento por crença apresenta-se
como uma forma imperfeita de conhecimento, que precisa de se aperfeiçoar
progressivamente por meio da evidência alcançada pela própria pessoa; por
outro lado, a crença é muitas vezes mais rica, humanamente, do que a simples
evidência, porque inclui a relação interpessoal, pondo em jogo não apenas as
capacidades cognoscitivas do próprio sujeito, mas também a sua capacidade
mais radical de confiar noutras pessoas, iniciando com elas um relacionamento
mais estável e íntimo.
Importa sublinhar que as verdades procuradas
nesta relação interpessoal não são primariamente de ordem empírica ou de
ordem filosófica. O que se busca é sobretudo a verdade da própria pessoa:
aquilo que ela é e o que manifesta do seu próprio íntimo. De facto, a
perfeição do homem não se reduz apenas à aquisição do conhecimento abstracto
da verdade, mas consiste também numa relação viva de doação e fidelidade ao
outro. Nesta fidelidade que leva à doação, o homem encontra plena certeza e
segurança. Ao mesmo tempo, porém, o conhecimento por crença, que se
fundamenta na confiança interpessoal, tem a ver também com a verdade: de
facto, acreditando, o homem confia na verdade que o outro lhe manifesta.
Quantos exemplos se poderiam aduzir para ilustrar
este dado! O primeiro que me vem ao pensamento é o testemunho dos mártires.
Com efeito, o mártir é a testemunha mais genuína da verdade da existência.
Ele sabe que, no seu encontro com Jesus Cristo, alcançou a verdade a respeito
da sua vida, e nada nem ninguém poderá jamais arrancar-lhe esta certeza. Nem
o sofrimento, nem a morte violenta poderão fazê-lo retroceder da adesão à
verdade que descobriu no encontro com Cristo. Por isso mesmo é que, até
agora, o testemunho dos mártires atrai, gera consenso, é escutado e seguido.
Esta é a razão pela qual se tem confiança na sua palavra: descobre-se neles a
evidência dum amor que não precisa de longas demonstrações para ser
convincente, porque fala daquilo que cada um, no mais fundo de si mesmo, já
sente como verdadeiro e que há tanto tempo procurava. Em resumo, o mártir
provoca em nós uma profunda confiança, porque diz aquilo que já sentimos e
torna evidente aquilo que nós mesmos queríamos ter a força de dizer.
33. Deste modo, foi possível completar
progressivamente os dados do problema. O homem, por sua natureza, procura a
verdade. Esta busca não se destina apenas à conquista de verdades parciais,
físicas ou científicas; não busca só o verdadeiro bem em cada um das suas decisões.
Mas a sua pesquisa aponta para uma verdade superior, que seja capaz de
explicar o sentido da vida; trata-se, por conseguinte, de algo que não pode
desembocar senão no absoluto. 28 Graças às capacidades de que está
dotado o seu pensamento, o homem pode encontrar e reconhecer uma tal verdade.
Sendo esta vital e essencial para a sua existência, chega-se a ela não só por
via racional, mas também através de um abandono fiducial a outras pessoas que
possam garantir a certeza e autenticidade da verdade. A capacidade e a
decisão de confiar o próprio ser e existência a outra pessoa constituem, sem
dúvida, um dos actos antropologicamente mais significativos e expressivos.
É bom não esquecer que também a razão, na sua
busca, tem necessidade de ser apoiada por um diálogo confiante e uma amizade
sincera. O clima de suspeita e desconfiança, que por vezes envolve a pesquisa
especulativa, ignora o ensinamento dos filósofos antigos, que punham a
amizade como um dos contextos mais adequados para o recto filosofar.
Do que ficou dito conclui-se que o homem se
encontra num caminho de busca, humanamente infindável: busca da verdade e
busca duma pessoa em quem poder confiar. A fé cristã vem em sua ajuda,
dando-lhe a possibilidade concreta de ver realizado o objectivo dessa busca.
De facto, superando o nível da simples crença, ela introduz o homem naquela
ordem da graça que lhe consente participar no mistério de Cristo, onde lhe é
oferecido o conhecimento verdadeiro e coerente de Deus Uno e Trino. Deste
modo, em Jesus Cristo, que é a Verdade, a fé reconhece o apelo último
dirigido à humanidade, para que possa tornar realidade o que experimenta como
desejo e nostalgia.
34. Esta verdade, que Deus nos revela em Jesus
Cristo, não está em contraste com as verdades que se alcançam filosofando.
Pelo contrário, as duas ordens de conhecimento conduzem à verdade na sua
plenitude. A unidade da verdade já é um postulado fundamental da razão
humana, expresso no princípio de não-contradição. A Revelação dá a certeza
desta unidade, ao mostrar que Deus criador é também o Deus da história da
salvação. Deus que fundamenta e garante o carácter inteligível e racional da
ordem natural das coisas, sobre o qual os cientistas se apoiam
confiadamente, 29 é o mesmo que Se revela como Pai de
nosso Senhor Jesus Cristo. Esta unidade da verdade, natural e revelada,
encontra a sua identificação viva e pessoal em Cristo, como recorda o
apóstolo Paulo: « A verdade que existe em Jesus » (Ef 4, 21;
cf. Col 1, 15-20). Ele é a Palavra eterna, na qual
tudo foi criado, e ao mesmo tempo é a Palavra encarnada que,
com toda a sua pessoa,30 revela o Pai (cf.Jo 1,
14.18). Aquilo que a razão humana procura « sem o conhecer » (cf. Act 17,
23), só pode ser encontrado por meio de Cristo: de facto, o que n'Ele se
revela é a « verdade plena » (cf. Jo 1, 14-16) de todo o ser
que, n'Ele e por Ele, foi criado e, por isso mesmo, n'Ele encontra a sua
realização (cf. Col 1, 17).
35. Tendo estas considerações gerais como pano de
fundo, é necessário agora examinar, de maneira mais directa, a relação entre
a verdade revelada e a filosofia. Tal relação requer uma dupla consideração,
visto que a verdade que nos vem da Revelação tem de ser, simultaneamente,
compreendida pela luz da razão. Só nesta dupla acepção é que será possível
especificar a justa relação da verdade revelada com o saber filosófico. Por
isso, vamos considerar, em primeiro lugar, as relações entre a fé e a
filosofia ao longo da história, donde será possível individuar alguns
princípios, que constituem os pontos de referência aos quais recorrer para
estabelecer a correcta relação entre as duas ordens de conhecimento.
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CAPÍTULO IV - A RELAÇÃO ENTRE A FÉ E A RAZÃO
1. As etapas significativas do encontro
entre a fé e a razão
36. Os Actos dos Apóstolos testemunham que o
anúncio cristão se encontrou, desde os seus primórdios, com as correntes
filosóficas do tempo. Lá se refere a discussão que S. Paulo teve com « alguns
filósofos epicuristas e estóicos » (17, 18). A análise exegética do discurso
no Areópago evidenciou repetidas alusões a ideias populares,
predominantemente de origem estóica. Certamente isso não se deu por acaso; os
primeiros cristãos, para se fazerem compreender pelos pagãos, não podiam
citar apenas « Moisés e os profetas » nos seus discursos, mas tinham de
servir-se também do conhecimento natural de Deus e da voz da consciência
moral de cada homem (cf. Rom 1, 19-21; 2, 14-15; Act 14,
16-17). Como, porém, na religião pagã, esse conhecimento natural tinha
degenerado em idolatria (cf. Rom 1, 21-32), o Apóstolo
considerou mais prudente ligar o seu discurso ao pensamento dos filósofos,
que desde o início tinham contraposto, aos mitos e cultos mistéricos,
conceitos mais respeitosos da transcendência divina.
De facto, um dos cuidados que mais a peito
tiveram os filósofos do pensamento clássico, foi purificar de formas
mitológicas a concepção que os homens tinham de Deus. Bem sabemos que a
religião grega, como grande parte das religiões cósmicas, era politeísta,
chegando a divinizar até coisas e fenómenos da natureza. As tentativas do
homem para compreender a origem dos deuses e, nestes, a do universo tiveram a
sua primeira expressão na poesia. As teogonias permanecem, até hoje, o
primeiro testemunho desta investigação do homem. Os pais da filosofia tiveram
por missão mostrar a ligação entre a razão e a religião. Estendendo o olhar
para os princípios universais, deixaram de contentar-se com os mitos antigos
e procuraram dar fundamento racional à sua crença na divindade. Embocou-se
assim uma estrada que, saindo das antigas tradições particulares, levava a um
desenvolvimento que correspondia às exigências da razão universal. O fim que
tal desenvolvimento tinha em vista era a verificação crítica daquilo em que
se acreditava. A primeira a ganhar com esse caminho feito foi a concepção da
divindade. As superstições acabaram por ser reconhecidas como tais, e a
religião, pelo menos em parte, foi purificada pela análise racional. Foi
nesta base que os Padres da Igreja instituíram um diálogo fecundo com os
filósofos antigos, abrindo a estrada ao anúncio e à compreensão do Deus de
Jesus Cristo.
37. Quando se menciona este movimento de
aproximação dos cristãos à filosofia, é obrigatório recordar também a cautela
com que eles olhavam outros elementos do mundo cultural pagão, como, por
exemplo, a gnose. A filosofia, enquanto sabedoria prática e escola de vida,
podia facilmente ser confundida com um conhecimento de tipo superior,
esotérico, reservado a poucos iluminados. É, sem dúvida, a especulações esotéricas
deste género que pensa S. Paulo, quando adverte os Colossenses: « Vede que
ninguém vos engane com falsas e vãs filosofias, fundadas nas tradições
humanas, nos elementos do mundo, e não em Cristo » (2, 8). Como são actuais
estas palavras do Apóstolo, quando as referimos às diversas formas de
esoterismo que hoje se difundem mesmo entre alguns crentes, privados do
necessário sentido crítico! Seguindo as pegadas de S. Paulo, outros
escritores dos primeiros séculos, particularmente Santo Ireneu e Tertuliano,
puseram reservas a uma orientação cultural que pretendia subordinar a verdade
da Revelação à interpretação dos filósofos.
38. Como vemos, o encontro do cristianismo com a
filosofia não foi fácil nem imediato. A exercitação desta e a frequência das
respectivas escolas foi vista mais vezes pelos primeiros cristãos como
transtorno, do que como uma oportunidade. Para eles, a primeira e mais
urgente missão era o anúncio de Cristo ressuscitado, que havia de ser
proposto num encontro pessoal, capaz de levar o interlocutor à conversão do
coração e ao pedido do Baptismo. De qualquer modo, isso não significa que
ignorassem a obrigação de aprofundar a compreensão da fé e suas motivações;
antes pelo contrário. É injusta e pretextuosa a crítica de Celso, quando acusa
os cristãos de serem gente « iletrada e rude ». 31 A explicação deste seu desinteresse
inicial tem de ser procurada noutro lado. Na realidade, o encontro com o
Evangelho oferecia uma resposta tão satisfatória à questão do sentido da
vida, até então insolúvel, que frequentar os filósofos parecia-lhes uma coisa
sem interesse e, em certos aspectos, superada.
Isto é, hoje, ainda mais claro, se se pensa ao
contributo dado pelo cristianismo, quando defende o acesso à verdade como um
direito universal. Derrubadas as barreiras raciais, sociais e sexuais, o
cristianismo tinha anunciado, desde as suas origens, a igualdade de todos os
homens diante de Deus. A primeira consequência deste conceito registou-se no
tema da verdade, ficando decididamente superado o carácter elitista que a sua
busca tinha no pensamento dos antigos: se o acesso à verdade é um bem que
permite chegar a Deus, todos devem estar em condições de poder percorrer esta
estrada. As vias para chegar à verdade continuam a ser muitas; mas, dado que
a verdade cristã tem valor salvífico, cada uma delas só pode ser percorrida
se conduzir à meta final, ou seja, à revelação de Jesus Cristo.
Como pioneiro dum encontro positivo com o
pensamento filosófico, sempre marcado por um prudente discernimento, há que
recordar S. Justino. Apesar da grande estima que continuava a ter pela
filosofia grega depois da sua conversão, afirmava decidida e claramente que
tinha encontrado, no cristianismo, « a única filosofia segura e vantajosa
». 32 De forma semelhante, Clemente de
Alexandria chamava ao Evangelho « a verdadeira filosofia », 33 e, em analogia com a lei mosaica,
via a filosofia como uma instrução propedêutica à fé cristã 34 e uma preparação ao Evangelho. 35 Uma vez que « a filosofia anela por
aquela sabedoria que consiste na rectidão da alma e da palavra e na pureza da
vida, está aberta à sabedoria e tudo faz para a alcançar. No nosso meio,
designam-se por filósofos os que amam a sabedoria que é criadora e mestra de
tudo, isto é, o conhecimento do Filho de Deus ».36 Segundo este pensador alexandrino,
a filosofia grega não tem como primeiro objectivo completar ou corroborar a
verdade cristã; a sua função é, sobretudo, a defesa da fé: « A doutrina do
Salvador é perfeita em si mesma e não precisa de apoio, porque é a força e a
sabedoria de Deus. A filosofia grega não torna mais forte a verdade com o seu
contributo, mas, porque torna impotente o ataque da sofística e desarma os
assaltos traiçoeiros contra a verdade, foi justamente chamada sebe e muro de
vedação da vinha ».37
39. Entretanto, na história deste
desenvolvimento, é possível constatar a assunção crítica do pensamento
filosófico por parte dos pensadores cristãos. No meio dos primeiros exemplos
encontrados, sobressai, sem dúvida, Orígenes. Contra os ataques lançados pelo
filósofo Celso, ele recorre à filosofia platónica para argumentar e
responder-lhe. Citando vários elementos do pensamento platónico, começa a
elaborar uma primeira forma de teologia cristã. Naquele tempo, a designação
mesma de teologia e a sua concepção como discurso racional sobre Deus ainda
estavam ligadas à sua origem grega. Na filosofia aristotélica, por exemplo, o
termo designava a parte mais nobre e o verdadeiro apogeu do discurso
filosófico. Mas, à luz da revelação cristã, o que anteriormente indicava uma
doutrina genérica sobre a divindade, passou a assumir um significado
totalmente novo, ou seja, a reflexão que o crente realiza para exprimir
a verdadeira doutrina acerca de Deus. Este pensamento
cristão novo, que estava a desenvolver-se, servia-se da filosofia, mas ao
mesmo tempo tendia a distinguir-se nitidamente dela. A história revela que o
próprio pensamento platónico, quando foi assumido pela teologia, sofreu
profundas transformações, especialmente em conceitos como a imortalidade da
alma, a divinização do homem e a origem do mal.
40. Nesta obra de cristianização do pensamento
platónico e neoplatónico, merecem menção particular os Padres Capadócios,
Dionísio chamado o Areopagita e sobretudo Santo Agostinho. O grande Doutor
ocidental contactara diversas escolas filosóficas, mas todas o tinham
desiludido. Quando se lhe deparou a verdade da fé cristã, então teve a força
de realizar aquela conversão radical a que os filósofos anteriormente
contactados não tinham conseguido induzi-lo. Ele mesmo refere o motivo: «
Preferindo a doutrina católica, já sentia, então, que era mais razoável e
menos enganoso sermos obrigados a crer o que não demonstrava, quer houvesse
prova, mesmo que esta não estivesse ao alcance de qualquer pessoa, quer a não
houvesse. Seria isto mais sensato do que zombarem da crença os maniqueístas,
apoiados em temerária promessa de ciência, para depois nos mandarem acreditar
em inúmeras fábulas tão absurdas que as não podiam provar ». 38 Quanto aos platónicos, que ocupavam
lugar privilegiado nos pontos de referimento de Agostinho, este censurava-os
porque, embora conhecessem o fim para onde se devia tender, tinham, porém,
ignorado o caminho que lá conduzia: o Verbo encarnado. 39 O Bispo de Hipona conseguiu
elaborar a primeira grande síntese do pensamento filosófico e teológico, nela
confluindo correntes do pensamento grego e latino. Também nele a grande
unidade do saber, que tinha o seu fundamento no pensamento bíblico, acabou
por ser confirmada e sustentada pela profundidade do pensamento especulativo.
A síntese feita por Santo Agostinho permanecerá como a forma mais elevada de
reflexão filosófica e teológica que o Ocidente, durante séculos, conheceu.
Com uma história pessoal intensa e ajudado por uma admirável santidade de
vida, ele foi capaz de introduzir, nas suas obras, muitos dados que,
apelando-se à experiência, antecipavam já futuros desenvolvimentos de algumas
correntes filosóficas.
41. De diversas formas, pois, os Padres do
Oriente e do Ocidente entraram em relação com as escolas filosóficas. Isto não
significa que tenham identificado o conteúdo da sua mensagem com os sistemas
a que faziam referência. A pergunta de Tertuliano: « Que têm em comum Atenas
e Jerusalém? Ou, a Academia e a Igreja? », 40 é um sintoma claro da consciência
crítica com que os pensadores cristãos encararam, desde as origens, o
problema da relação entre a fé e a filosofia, vendo-o globalmente, tanto nos
seus aspectos positivos como nas suas limitações. Não eram pensadores
ingénuos. Precisamente porque viviam de forma intensa o conteúdo da fé, eles
conseguiam chegar às formas mais profundas da reflexão. Por isso, é injusto e
redutivo limitar o seu trabalho a mera transposição das verdades de fé para
categorias filosóficas. Eles fizeram muito mais; conseguiram explicitar
plenamente aquilo que resultava ainda implícito e preliminar no pensamento
dos grandes filósofos antigos. 41 Estes, conforme já disse, tiveram a
função de mostrar o modo como a razão, livre dos vínculos externos, podia
escapar do beco sem saída dos mitos, para melhor se abrir à transcendência.
Uma razão purificada e recta era capaz de se elevar aos níveis mais elevados
da reflexão, dando fundamento sólido à percepção do ser, do transcendente e
do absoluto.
Aqui mesmo se insere a novidade operada pelos
Padres. Acolheram a razão na sua plena abertura ao absoluto e, nela,
enxertaram a riqueza vinda da Revelação. O encontro não foi apenas questão de
culturas, uma das quais talvez seduzida pelo fascínio da outra; mas
verificou-se no íntimo da alma, e foi um encontro entre a criatura e o seu
Criador. Ultrapassando o fim mesmo para o qual inconscientemente tendia por
força da sua natureza, a razão pôde alcançar o sumo bem e a suma verdade na
pessoa do Verbo encarnado. Ao encararem as filosofias, os Padres não tiveram
medo de reconhecer tanto os elementos comuns como as diferenças que aquelas
apresentavam relativamente à Revelação. A percepção das convergências não
ofuscava neles o reconhecimento das diferenças.
42. Na teologia escolástica, o papel da razão
educada filosoficamente torna-se ainda mais notável sob o impulso da
interpretação anselmiana do intelectus fidei. Segundo o santo
Arcebispo de Cantuária, a prioridade da fé não faz concorrência à
investigação própria da razão. De facto, esta não é chamada a exprimir um
juízo sobre os conteúdos da fé; seria incapaz disso, porque não é idónea. A
sua tarefa é, antes, saber encontrar um sentido, descobrir razões que a todos
permitam alcançar algum entendimento dos conteúdos da fé. Santo Anselmo
sublinha o facto de que o intelecto deve pôr-se à procura daquilo que ama:
quanto mais ama, mais deseja conhecer. Quem vive para a verdade, tende para
uma forma de conhecimento que se inflama num amor sempre maior por aquilo que
conhece, embora admita que ainda não fizera tudo aquilo que estaria no seu
desejo: « Ad te videndum factus sum; et nondum feci propter quod
factus sum ». 42 Assim, o desejo da verdade impele a
razão a ir sempre mais além; esta fica como que embevecida pela constatação
de que a sua capacidade é sempre maior do que aquilo que alcança. Chegada
aqui, porém, a razão é capaz de descobrir onde está o termo do seu caminho: «
Penso efectivamente que, quem investiga uma coisa incompreensível, se deve
contentar de chegar, pela razão, a reconhecer com a máxima certeza a sua
existência real, embora não seja capaz de penetrar, pela inteligência, o seu
modo de ser (...). Aliás, que há de tão incompreensível e inefável como
aquilo que está acima de tudo? Portanto, se aquilo de cuja essência suprema
discutimos até agora, ficou estabelecido sobre razões necessárias, ainda que
a inteligência não o possa penetrar de forma a conseguir traduzi-lo em
palavras claras, nem por isso vacila minimamente o fundamento da sua certeza.
Com efeito, se uma reflexão anterior compreendeu de maneira racional que é
incompreensível (rationabiliter comprehendit incomprehensibile esse) o
modo como a sabedoria suprema sabe aquilo que fez (...) , quem explicará como
ela mesma se conhece e exprime, dado que sobre ela o homem nada ou quase nada
pode saber? ». 43
Confirma-se assim, uma vez mais, a harmonia
fundamental entre o conhecimento filosófico e o conhecimento da fé: a fé
requer que o seu objecto seja compreendido com a ajuda da razão; por sua vez
a razão, no apogeu da sua indagação, admite como necessário aquilo que a fé
apresenta.
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2. A novidade perene do pensamento de S.
Tomás de Aquino
43. Neste longo caminho, ocupa um lugar
absolutamente especial S. Tomás, não só pelo conteúdo da sua doutrina, mas
também pelo diálogo que soube instaurar com o pensamento árabe e hebreu do
seu tempo. Numa época em que os pensadores cristãos voltavam a descobrir os
tesouros da filosofia antiga, e mais directamente da filosofia aristotélica,
ele teve o grande mérito de colocar em primeiro lugar a harmonia que existe
entre a razão e a fé. A luz da razão e a luz da fé provêm ambas de Deus:
argumentava ele; por isso, não se podem contradizer entre si. 44
Indo mais longe, S. Tomás reconhece que a
natureza, objecto próprio da filosofia, pode contribuir para a compreensão da
revelação divina. Deste modo, a fé não teme a razão, mas solicita-a e confia
nela. Como a graça supõe a natureza e leva-a à perfeição, 45 assim também a fé supõe e
aperfeiçoa a razão. Esta, iluminada pela fé, fica liberta das fraquezas e
limitações causadas pela desobediência do pecado, e recebe a força necessária
para elevar-se até ao conhecimento do mistério de Deus Uno e Trino. Embora
sublinhando o carácter sobrenatural da fé, o Doutor Angélico não esqueceu o
valor da racionabilidade da mesma; antes, conseguiu penetrar profundamente e
especificar o sentido de tal racionabilidade. Efectivamente, a fé é de algum
modo « exercitação do pensamento »; a razão do homem não é anulada nem
humilhada, quando presta assentimento aos conteúdos de fé; é que estes são
alcançados por decisão livre e consciente. 46
Precisamente por este motivo é que S. Tomás foi
sempre proposto pela Igreja como mestre de pensamento e modelo quanto ao
recto modo de fazer teologia. Neste contexto, apraz-me recordar o que
escreveu o meu Predecessor, o Servo de Deus Paulo VI, por ocasião do sétimo
centenário da morte do Doutor Angélico: « Sem dúvida, S. Tomás possuiu, no
máximo grau, a coragem da verdade, a liberdade de espírito quando enfrentava
os novos problemas, a honestidade intelectual de quem não admite a
contaminação do cristianismo pela filosofia profana, mas tão pouco defende a
rejeição apriorística desta. Por isso, passou à história do pensamento
cristão como um pioneiro no novo caminho da filosofia e da cultura universal.
O ponto central e como que a essência da solução que ele deu ao problema
novamente posto da contraposição entre razão e fé, com a genialidade do seu
intuito profético, foi o da conciliação entre a secularidade do mundo e a
radicalidade do Evangelho, evitando, por um lado, aquela tendência
anti-natural que nega o mundo e seus valores, mas, por outro, sem faltar às
exigências supremas e inabaláveis da ordem sobrenatural ». 47
44. Entre as grandes intuições de S. Tomás,
conta-se a de atribuir ao Espírito Santo o papel de fazer amadurecer, como
sapiência, a ciência humana. Desde as primeiras páginas da Summa
theologiæ, 48o Aquinate quis mostrar o primado daquela
sapiência que é dom do Espírito Santo e que introduz no conhecimento das
realidades divinas. A sua teologia permite compreender a peculiaridade da
sapiência na sua ligação íntima com a fé e o conhecimento de Deus: conhece
por conaturalidade, pressupõe a fé e chega a formular rectamente o seu juízo
a partir da verdade da própria fé: « A sapiência elencada entre os dons do
Espírito Santo é distinta da mencionada entre as virtudes intelectuais. De
facto, esta segunda adquire-se pelo estudo; aquela, pelo contrário,
"provém do alto", como diz S. Tiago. Mas é também distinta da fé,
porque esta aceita a verdade divina tal como é, enquanto é próprio do dom da
sapiência julgar segundo a verdade divina ». 49
Mas, ao reconhecer a prioridade desta sapiência,
o Doutor Angélico não esquece a existência de mais duas formas complementares
de sabedoria: a filosófica, que se baseia sobre a capacidade que
tem o intelecto, dentro dos próprios limites naturais, de investigar a
realidade; e a sabedoriateológica, que se fundamenta na Revelação e
examina os conteúdos da fé, alcançando o próprio mistério de Deus.
Intimamente convencido de que « omne
verum a quocumque dicatur a Spiritu Sancto est », 50 S. Tomás amou desinteressadamente a
verdade. Procurou-a por todo o lado onde pudesse manifestar-se, colocando em
relevo a sua universalidade. Nele, o Magistério da Igreja viu e apreciou a
paixão pela verdade; o seu pensamento, precisamente porque se mantém sempre
no horizonte da verdade universal, objectiva e transcendente, atingiu «
alturas que a inteligência humana jamais poderia ter pensado ».51 É, pois, com razão que S. Tomás
pode ser definido « apóstolo da verdade ».52 Porque se consagrou sem reservas à
verdade, no seu realismo soube reconhecer a sua objectividade. A sua
filosofia é verdadeiramente uma filosofia do ser, e não do simples aparecer.
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3. O drama da separação da fé e da razão
45. Quando surgiram as primeiras universidades, a
teologia começou a relacionar-se mais directamente com outras formas da
pesquisa e do saber científico. Santo Alberto Magno e S. Tomás, embora
admitindo uma ligação orgânica entre a filosofia e a teologia, foram os
primeiros a reconhecer à filosofia e às ciências a autonomia de que precisavam
para se debruçar eficazmente sobre os respectivos campos de investigação.
Todavia, a partir da baixa Idade Média, essa distinção legítima entre os dois
conhecimentos transformou-se progressivamente em nefasta separação. Devido ao
espírito excessivamente racionalista de alguns pensadores, radicalizaram-se
as posições, chegando-se, de facto, a uma filosofia separada e absolutamente
autónoma dos conteúdos da fé. Entre as várias consequências de tal separação,
sobressai a difidência cada vez mais forte contra a própria razão. Alguns
começaram a professar uma desconfiança geral, céptica ou agnóstica, quer para
reservar mais espaço à fé, quer para desacreditar qualquer possível
referência racional à mesma.
Em resumo, tudo o que o pensamento patrístico e medieval
tinha concebido e actuado como uma unidade profunda, geradora dum
conhecimento capaz de chegar às formas mais altas da especulação, foi
realmente destruído pelos sistemas que abraçaram a causa de um conhecimento
racional, separado e alternativo da fé.
46. As radicalizações mais influentes são bem
conhecidas e visíveis, sobretudo na história do Ocidente. Não é exagerado
afirmar que boa parte do pensamento filosófico moderno se desenvolveu num
progressivo afastamento da revelação cristã até chegar explicitamente à
contraposição. No século passado, este movimento tocou o seu apogeu. Alguns
representantes do idealismo procuraram, de diversos modos, transformar a fé e
os seus conteúdos, inclusive o mistério da morte e ressurreição de Jesus
Cristo, em estruturas dialécticas racionalmente compreensíveis. Mas a esta
concepção, opuseram-se diversas formas de humanismo ateu, elaboradas
filosoficamente, que apontaram a fé como prejudicial e alienante para o
desenvolvimento pleno do uso da razão. Não tiveram medo de se apresentar como
novas religiões, dando base a projectos que desembocaram, no plano político e
social, em sistemas totalitários traumáticos para a humanidade.
No âmbito da investigação científica, foi-se
impondo uma mentalidade positivista, que não apenas se afastou de toda a
referência à visão cristã do mundo, mas sobretudo deixou cair qualquer alusão
à visão metafísica e moral. Por causa disso, certos cientistas, privados de
qualquer referimento ético, correm o risco de não manterem, ao centro do seu interesse,
a pessoa e a globalidade da sua vida. Mais, alguns deles, cientes das
potencialidades contidas no progresso tecnológico, parecem ceder à lógica do
mercado e ainda à tentação dum poder demiúrgico sobre a natureza e o próprio
ser humano.
Como consequência da crise do racionalismo,
apareceu o niilismo. Enquanto filosofia do nada, consegue exercer um certo
fascínio sobre os nossos contemporâneos. Os seus seguidores defendem a
pesquisa como fim em si mesma, sem esperança nem possibilidade alguma de alcançar
a meta da verdade. Na interpretação niilista, a existência é somente uma
oportunidade para sensações e experiências onde o efémero detém o primado. O
niilismo está na origem duma mentalidade difusa, segundo a qual não se deve
assumir qualquer compromisso definitivo, porque tudo é fugaz e provisório.
47. Por outro lado, é preciso não esquecer que,
na cultura moderna, foi alterada a própria função da filosofia. De sabedoria
e saber universal que era, foi-se progressivamente reduzindo a uma das muitas
áreas do saber humano; mais, sob alguns dos seus aspectos, ficou reduzida a
um papel completamente marginal. Entretanto, foram-se consolidando sempre
mais outras formas de racionalidade, pondo assim em evidência o carácter
marginal do saber filosófico. Em vez de apontarem para a contemplação da
verdade e a busca do fim último e do sentido da vida, essas formas de
racionalidade são orientadas, ou pelo menos orientáveis, como « razão
instrumental » ao serviço de fins utilitaristas, de prazer ou de poder.
Quanto seja perigoso absolutizar esta estrada,
fi-lo notar já na minha primeira carta encíclica, ao escrever: « O homem de
hoje parece estar sempre ameaçado por aquilo mesmo que produz, ou seja, pelo
resultado do trabalho das suas mãos e, ainda mais, pelo resultado do trabalho
da sua inteligência e das tendências da sua vontade. Os frutos desta
multiforme actividade do homem, com grande rapidez e de modo muitas vezes
imprevisível, passam a ser não tanto objecto de "alienação", no
sentido de que são simplesmente tirados àqueles que os produzem, como
sobretudo, pelo menos parcialmente, num círculo consequente e indirecto dos
seus efeitos, tais frutos voltam-se contra o próprio homem. Eles são de facto
dirigidos, ou podem sê-lo, contra o homem. Nisto parece consistir o acto
principal do drama da existência humana contemporânea, na sua dimensão mais
ampla e universal. Assim, o homem vive mergulhado cada vez mais no medo. Teme
que os seus produtos, naturalmente não todos nem a maior parte, mas alguns e
precisamente aqueles que encerram uma especial porção da sua genialidade e da
sua iniciativa, possam ser voltados de maneira radical contra si mesmo
». 53
Na sequência destas transformações culturais,
alguns filósofos, abandonando a busca da verdade por si mesma, assumiram como
único objectivo a obtenção da certeza subjectiva ou da utilidade prática. Em
consequência, deu-se o obscurecimento da verdadeira dignidade da razão,
impossibilitada de conhecer a verdade e de procurar o absoluto.
48. Assim, o dado saliente desta última parte da
história da filosofia é a constatação duma progressiva separação entre a fé e
a razão filosófica. É verdade que, observando bem, mesmo na reflexão
filosófica daqueles que contribuíram para ampliar a distância entre fé e
razão, se manifestam às vezes gérmenes preciosos de pensamento que, se
aprofundados e desenvolvidos com mente e coração recto, podem fazer descobrir
o caminho da verdade. Estes gérmenes de pensamento podem-se encontrar, por
exemplo, nas profundas análises sobre a percepção e a experiência, a
imaginação e o inconsciente, sobre a personalidade e a intersubjectividade, a
liberdade e os valores, o tempo e a história. Inclusive o tema da morte pode
tornar-se, para todo o pensador, um severo apelo a procurar dentro de si
mesmo o sentido autêntico da própria existência. Todavia isto não pode fazer
esquecer a necessidade que a actual relação entre fé e razão tem de um
cuidadoso esforço de discernimento, porque tanto a razão como a fé ficaram
reciprocamente mais pobres e débeis. A razão, privada do contributo da
Revelação, percorreu sendas marginais com o risco de perder de vista a sua
meta final. A fé, privada da razão, pôs em maior evidência o sentimento e a
experiência, correndo o risco de deixar de ser uma proposta universal. É
ilusório pensar que, tendo pela frente uma razão débil, a fé goze de maior
incidência; pelo contrário, cai no grave perigo de ser reduzida a um mito ou
superstição. Da mesma maneira, uma razão que não tenha pela frente uma fé adulta
não é estimulada a fixar o olhar sobre a novidade e radicalidade do ser.
À luz disto, creio justificado o meu apelo
veemente e incisivo para que a fé e a filosofia recuperem aquela unidade
profunda que as torna capazes de serem coerentes com a sua natureza, no
respeito da recíproca autonomia. Ao desassombro (parresia) da fé deve
corresponder a audácia da razão.
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CAPÍTULO V - INTERVENÇÕES DO MAGISTÉRIO EM
MATÉRIA FILOSÓFICA
1. O discernimento do Magistério como
diaconia da verdade
49. A Igreja não propõe uma filosofia própria,
nem canoniza uma das correntes filosóficas em detrimento de outras. 54 A razão profunda desta reserva está
no facto de que a filosofia, mesmo quando entra em relação com a teologia,
deve proceder segundo os seus métodos e regras; caso contrário, não haveria
garantia de permanecer orientada para a verdade, tendendo para a mesma
através dum processo racionalmente controlável. Pouca ajuda daria uma
filosofia que não agisse à luz da razão, segundo princípios próprios e
específicas metodologias. Fundamentalmente, a raiz da autonomia de que goza a
filosofia, há que individuá-la no facto de a razão estar orientada, por sua
natureza, para a verdade e dotada em si mesma dos meios necessários para a
alcançar. Uma filosofia, ciente deste seu « estatuto constitutivo », não pode
deixar de respeitar as exigências e evidências próprias da verdade revelada.
E, todavia, vimos, na história, os extravios e
erros em que várias vezes incorreu o pensamento filosófico, sobretudo
moderno. Não é função nem competência do Magistério intervir para colmar as
lacunas dum discurso filosófico carente. Mas, já é sua obrigação reagir, de
forma clara e vigorosa, quando teses filosóficas discutíveis ameaçam a recta
compreensão do dado revelado e quando se difundem teorias falsas e sectárias
que semeiam erros graves, perturbando a simplicidade e a pureza da fé do povo
de Deus.
50. Por conseguinte, o Magistério eclesiástico
pode, e deve, exercer com autoridade, à luz da fé, o discernimento crítico
sobre filosofias e afirmações que contradigam a doutrina cristã. 55 Ao Magistério compete, antes de
mais, indicar os pressupostos e as conclusões filosóficas que são
incompatíveis com a verdade revelada, formulando assim as exigências que, do
ponto de vista da fé, se impõem à filosofia. Além disso, no desenvolvimento
do saber filosófico, surgiram diversas escolas de pensamento; ora, este
pluralismo impõe ao Magistério a responsabilidade de exprimir o seu juízo
sobre a compatibilidade ou incompatibilidade das concepções de base,
defendidas por essas escolas, com as exigências próprias da palavra de Deus e
da reflexão teológica.
A Igreja tem o dever de indicar aquilo que pode
existir, num sistema filosófico, de incompatível com a sua fé. Na verdade,
muitos conteúdos filosóficos — relativos, por exemplo, a Deus, ao homem, à
sua liberdade e ao seu comportamento ético —, têm a ver directamente com a
Igreja, porque tocam na verdade revelada que ela guarda. Quando nós, Bispos,
realizamos o referido discernimento, temos a obrigação de ser « testemunhas
da verdade », no cumprimento dum serviço humilde, mas firme, que todo o
filósofo devia prezar, em benefício da recta ratio, ou seja, da razão que
reflecte correctamente sobre a verdade.
51. Em todo o caso, tal discernimento não deve
ser visto primariamente de forma negativa, como se a intenção do Magistério
fosse eliminar ou reduzir qualquer possibilidade de mediação; ao contrário,
as suas intervenções visam em primeiro lugar suscitar, promover e encorajar o
pensamento filosófico. Os filósofos são, aliás, os primeiros a compreender a
exigência de autocrítica, de correcção de eventuais erros, e a necessidade de
ultrapassar os limites demasiado estreitos em que a sua reflexão foi
concebida. De modo particular, deve-se considerar que a verdade é uma só,
embora as suas expressões acusem os vestígios da história e sejam, além
disso, obra duma razão humana ferida e enfraquecida pelo pecado. Daqui se
conclui que nenhuma forma histórica da filosofia pode, legitimamente, ter a pretensão
de abraçar a totalidade da verdade ou de possuir a explicação cabal do ser
humano, do mundo e da relação do homem com Deus.
E hoje, com esta multiplicação de sistemas,
métodos, conceitos e argumentos filosóficos, muitas vezes extremamente
fragmentários, impõe-se ainda com maior urgência um discernimento crítico à
luz da fé. Este discernimento não é fácil, porque, se já é custoso reconhecer
as capacidades naturais e inalienáveis da razão com as suas limitações
constitutivas e históricas, mais problemático ainda se pode tornar às vezes o
discernimento de cada uma das propostas filosóficas para verificar, do ponto
de vista da fé, o que apresentam de válido e fecundo e o que existe nelas de
errado ou perigoso. De qualquer modo, a Igreja sabe que os « tesouros da
sabedoria e da ciência » estão escondidos em Cristo (Col 2, 3);
por isso, ela intervém, estimulando a reflexão filosófica, para que não se
obstrua a estrada que leva ao conhecimento do mistério.
52. Não foi só recentemente que o Magistério da
Igreja interveio para manifestar o seu pensamento a respeito de determinadas
doutrinas filosóficas. A título de exemplo, basta recordar, no decurso dos
séculos, as tomadas de posição acerca das teorias que defendiam a
preexistência das almas, 56 e ainda sobre as diversas formas de
idolatria e esoterismo supersticioso, contidas em teses astrológicas; 57 sem esquecer os textos mais
sistemáticos contra algumas teses do averroísmo latino, incompatíveis com a
fé cristã. 58
Se a palavra do Magistério se fez ouvir mais
frequentemente a partir da segunda metade do século passado, foi porque,
naquele período, numerosos católicos sentiram o dever de contrapor uma
filosofia própria às várias correntes do pensamento moderno. Daqui resultou,
para o Magistério da Igreja, a obrigação de vigiar a fim de que tais
filosofias não degenerassem, por sua vez, em formas erróneas e negativas.
Acabaram assim censurados os dois extremos: dum lado, o fideísmo 59 e otradicionalismo radical,60 pela sua falta de confiança nas
capacidades naturais da razão; e, do outro, o racionalismo 61 e o ontologismo, 62 porque atribuíam à razão natural
aquilo que apenas se pode conhecer pela luz da fé. Os conteúdos positivos
deste debate foram formalizados na constituição dogmática Dei Filius,
por meio da qual um concílio ecuménico — o Vaticano I — intervinha, pela
primeira vez e de forma solene, sobre as relações entre razão e fé. A
doutrina contida neste texto marcou, intensa e positivamente, a investigação
filosófica de muitos crentes e constitui ainda hoje um ponto normativo de
referência para uma correcta e coerente reflexão cristã neste âmbito
particular.
53. Mais do que teses filosóficas isoladas, as
tomadas de posição do Magistério ocuparam-se da necessidade do conhecimento
racional — e por conseguinte, em última análise, do conhecimento filosófico —
para a compreensão da fé. O Concílio Vaticano I, sintetizando e confirmando
solenemente os ensinamentos que o Magistério pontifício tinha proposto aos
fiéis de maneira ordinária e constante, pôs em evidência como são inseparáveis
e ao mesmo tempo irredutíveis entre si o conhecimento natural de Deus e a
Revelação, a razão e a fé. O Concílio partia da exigência fundamental —
pressuposta também pela Revelação — da cognoscibilidade natural da existência
de Deus, princípio e fim de todas as coisas, 63 para concluir com a solene
afirmação já citada: « Existem duas ordens de conhecimento, distintas não
apenas pelo seu princípio, mas também pelo seu objecto ». 64 É que era preciso afirmar, contra
qualquer forma de racionalismo, a distinção entre os mistérios da fé e as
conclusões filosóficas, e ainda a transcendência e precedência daqueles sobre
estas; por outro lado, contra as tentações fideístas, tornava-se necessário
corroborar a unidade da verdade e também o contributo positivo que o
conhecimento racional pode, e deve, dar para o conhecimento da fé: « Mas,
embora a fé esteja acima da razão, não poderá existir nunca uma verdadeira
divergência entre fé e razão, porque o mesmo Deus que revela os mistérios e
comunica a fé, foi quem colocou também, no espírito humano, a luz da razão. E
Deus não poderia negar-Se a Si mesmo, pondo a verdade em contradição com a
verdade ».65
54. Neste século, o Magistério voltou várias
vezes ao mesmo assunto, alertando contra a tentação racionalista. É neste
horizonte que se devem colocar as intervenções do Papa S. Pio X, pondo em
relevo como, na base do modernismo, havia posições filosóficas de linha
fenomenista, agnóstica e imanentista.66 E não se pode esquecer a importância
que teve a rejeição católica da filosofia marxista e do comunismo ateu.67
Sucessivamente, o Papa Pio XII fez ouvir a sua
voz quando, na carta encíclica Humani generis, preveniu contra
interpretações erróneas que andavam ligadas com as teses do evolucionismo, do
existencialismo e do historicismo. Explicava ele que estas teses não foram
elaboradas nem eram propostas por teólogos, mas tinham a sua origem « fora do
redil de Cristo »; 68 acrescentava, porém, que tais
extravios não deviam ser liminarmente rejeitados, mas examinados
criticamente: « Ora, estas tendências, que se afastam em medida desigual da
recta via, não podem ser ignoradas ou transcuradas pelos filósofos e teólogos
católicos, que têm o grave dever de defender a verdade divina e humana, e de
fazê-la penetrar na mente dos homens. Pelo contrário, devem conhecer bem
estas opiniões, quer porque as doenças não podem ser curadas, se primeiro não
são bem conhecidas, quer porque algumas vezes mesmo nas afirmações falsas se
esconde um pouco de verdade, quer finalmente porque os próprios erros forçam
a nossa mente a investigar e a perscrutar, com maior diligência, certas
verdades filosóficas e teológicas ».69
Por último, também a Congregação da Doutrina da
Fé, no cumprimento do seu múnus específico ao serviço do magistério universal
do Romano Pontífice, 70 teve de intervir para sublinhar o
perigo que comportava a assunção acrítica, feita por alguns teólogos da
libertação, de teses e metodologias provenientes do marxismo. 71
Vemos assim que, no passado, o Magistério exerceu
reiteradamente e sob diversas modalidades o discernimento em matéria
filosófica. Aquilo que os meus Venerados Predecessores enunciaram, constitui
um contributo precioso que não pode ser esquecido.
55. Se observarmos a situação actual, constatamos
que os problemas retornam, mas com peculiaridades novas. Já não se trata de
questões que interessam apenas a indivíduos ou grupos, mas de convicções tão
generalizadas no ambiente que se tornam, em certa medida, mentalidade comum.
Tal é, por exemplo, a desconfiança radical na razão, que evidenciam as
conclusões mais recentes de muitos estudos filosóficos. De várias partes
ouviu-se falar, a este respeito, de « fim da metafísica »: querem que a
filosofia se contente com tarefas mais modestas, tais como a mera
interpretação dos factos ou apenas a investigação sobre determinados campos
do saber humano ou das suas estruturas.
Também, na teologia, voltam a assomar as
tentações de outrora. Por exemplo, em algumas teologias contemporâneas
comparece novamente um certo racionalismo, principalmente quando
asserções, consideradas filosoficamente fundadas, são tomadas como normativas
para a investigação teológica. Isto sucede sobretudo quando o teólogo, por
falta de competência filosófica, se deixa condicionar de modo acrítico por
afirmações que já entraram na linguagem e cultura corrente, mas carecem de
suficiente base racional. 72
Não faltam também perigosas recaídas no fideísmo,
que não reconhece a importância do conhecimento racional e do discurso
filosófico para a compreensão da fé, melhor, para a própria possibilidade de
acreditar em Deus. Uma expressão, hoje generalizada, desta tendência fideísta
é o « biblicismo », que tende a fazer da leitura da Sagrada Escritura, ou da
sua exegese, o único referencial da verdade. Assim, acaba-se por identificar
a palavra de Deus só com a Sagrada Escritura, anulando deste modo a doutrina
da Igreja que o Concílio Ecuménico Vaticano II expressamente reafirmou. Com
efeito, a constituição Dei Verbum, depois de recordar que a
palavra de Deus está presente tanto nos textos sagrados como na
Tradição, 73 afirma sem rodeios: « A Sagrada
Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito sagrado da palavra
de Deus, confiado à Igreja; aderindo a este, todo o Povo santo persevera
unido aos seus Pastores na doutrina dos Apóstolos ».74 Portanto, a Sagrada Escritura não
constitui, para a Igreja, a sua única referência; a « regra suprema da sua fé
» 75 provém efectivamente da unidade que
o Espírito estabeleceu entre a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o
Magistério da Igreja, numa reciprocidade tal que os três não podem subsistir
de maneira independente.76
Além disso, não se deve subestimar o perigo que
existe quando se quer individuar a verdade da Sagrada Escritura com a
aplicação de uma única metodologia, esquecendo a necessidade de uma exegese
mais ampla que permita o acesso, em união com toda a Igreja, ao sentido pleno
dos textos. Os que se dedicam ao estudo da Sagrada Escritura nunca devem
esquecer que as diversas metodologias hermenêuticas têm também na sua base
uma concepção filosófica: é preciso examiná-las com grande discernimento,
antes de as aplicar aos textos sagrados.
Outras formas de fideísmo latente podem-se
identificar na pouca consideração que é reservada à teologia especulativa, e
ainda no desprezo pela filosofia clássica, de cujas noções provieram os
termos para exprimir tanto a compreensão da fé como as próprias formulações
dogmáticas. O Papa Pio XII, de veneranda memória, alertou contra este
esquecimento da tradição filosófica e abandono das terminologias
tradicionais. 77
56. Constata-se, enfim, uma generalizada
desconfiança relativamente a asserções globais e absolutas sobretudo da parte
de quem pensa que a verdade resulte do consenso, e não da conformidade do
intelecto com a realidade objectiva. Compreende-se que, num mundo subdividido
em tantos campos de especializações, se torne difícil reconhecer aquele
sentido total e último da vida que tradicionalmente a filosofia procurava.
Mas nem por isso posso, à luz da fé que reconhece em Jesus Cristo tal sentido
último, deixar de encorajar os filósofos, cristãos ou não, a terem confiança
nas capacidades da razão humana e a não prefixarem metas demasiado modestas à
sua investigação filosófica. A lição da história deste milénio, quase a
terminar, testemunha que a estrada a seguir é esta: não perder a paixão pela
verdade última, nem o anseio de pesquisa, unidos à audácia de descobrir novos
percursos. É a fé que incita a razão a sair de qualquer isolamento e a
abraçar de bom grado qualquer risco por tudo o que é belo, bom e verdadeiro.
Deste modo, a fé torna-se advogada convicta e convincente da razão.
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2. Solicitude da Igreja pela filosofia
57. O Magistério, porém, não se limitou a pôr em
destaque os erros e desvios das doutrinas filosóficas. Mas, com igual
cuidado, quis confirmar os princípios fundamentais para uma genuína renovação
do pensamento filosófico, indicando mesmo percursos concretos a seguir. Nesta
linha, o Papa Leão XIII, com a carta encíclica Æterni Patris,
realizou um passo de alcance verdadeiramente histórico na vida da Igreja.
Efectivamente aquela constitui, até ao dia de hoje, o único documento
pontifício dedicado, a esse nível, inteiramente à filosofia. O grande
Pontífice retomou e desenvolveu a doutrina do Concílio Vaticano I sobre a
relação entre fé e razão, mostrando como o pensamento filosófico é um
contributo fundamental para a fé e para a ciência teológica. 78 Passado mais de um século, muitas
indicações, lá contidas, nada perderam do seu interesse tanto do ponto de
vista prático como pedagógico; a primeira de todas é a que diz respeito ao
valor incomparável da filosofia de S. Tomás. A reposição do pensamento do
Doutor Angélico era vista pelo Papa Leão XIII como a melhor estrada para se
recuperar um uso da filosofia conforme às exigências da fé. S. Tomás,
escrevia ele, « ao mesmo tempo que, como é devido, distingue perfeitamente a
fé da razão, une-as a ambas com laços de amizade recíproca: conserva os
direitos próprios de cada uma e salvaguarda a sua dignidade ».79
58. São conhecidas as felizes consequências que
teve este convite pontifício. Os estudos sobre o pensamento de S. Tomás e
doutros autores escolásticos receberam novo incentivo. Foi dado um forte
impulso aos estudos históricos, de que resultou uma nova descoberta das
riquezas do pensamento medieval, até então amplamente desconhecidas, e
constituíram-se novas escolas tomistas. Com a aplicação da metodologia
histórica, fizeram-se grandes progressos no conhecimento da obra de S. Tomás,
e muitos foram os estudiosos que corajosamente introduziram a tradição
tomista nas discussões dos problemas filosóficos e teológicos daquele tempo.
Os teólogos católicos mais influentes deste século, a cuja reflexão e
pesquisa muito deve o Concílio Vaticano II, são filhos de tal renovação da
filosofia tomista. E assim a Igreja pôde, no decurso do século XX, dispor dum
vigoroso grupo de pensadores, formados na escola do Doutor Angélico.
59. Contudo, a renovação tomista e neotomista não
foi o único sinal de retoma do pensamento filosófico na cultura de inspiração
cristã. Já antes, e contemporâneamente ao convite do Papa Leão XIII, tinham
surgido vários filósofos católicos que, valendo-se de correntes de pensamento
mais recentes e com uma metodologia própria, geraram obras filosóficas de
grande influência e valor duradouro. Houve quem tivesse organizado sínteses
de nível tão alto que nada tinham a invejar aos grandes sistemas do
idealismo, e quem pusesse as bases epistemológicas para uma nova exposição da
fé, à luz de uma renovada compreensão da consciência moral; houve quem
tivesse elaborado uma filosofia que, partindo da análise da imanência, abria
o caminho para o transcendente, e quem tentasse traduzir as exigências da fé
no horizonte da metodologia fenomenológica. Em suma, partindo de diversas
perspectivas, continuou-se a elaborar formas de reflexão filosófica, que
visavam manter viva a grande tradição do pensamento cristão na unidade de fé
e razão.
60. O Concílio Ecuménico Vaticano II, por sua
vez, apresenta uma doutrina muito rica e fecunda a propósito da filosofia.
Não posso esquecer, sobretudo no contexto desta carta encíclica, que um
capítulo inteiro da constituição Gaudium et spes constitui
uma espécie de compêndio de antropologia bíblica, fonte de inspiração também
para a filosofia. Naquelas páginas, trata-se do valor da pessoa humana criada
à imagem de Deus, indicam-se os motivos da sua dignidade e superioridade
relativamente ao resto da criação, e mostra-se a capacidade transcendente da
sua razão. 80 Na referida Constituição conciliar,
considera-se também o problema do ateísmo e denunciam-se, juntamente com suas
causas, os erros desta visão filosófica, sobretudo no que diz respeito à
dignidade inalienável da pessoa e da sua liberdade. 81 E um profundo significado
filosófico reveste também o ponto culminante daquelas páginas, que
transcrevia já na minha primeira carta encíclica, a Redemptor hominis,
e mantive como um dos pontos de referência constante no meu magistério: « Na
realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece
verdadeiramente. Adão, o primeiro homem, era efectivamente figura do futuro,
isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério
do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação
sublime ». 82
O Concílio ocupou-se também do estudo da
filosofia, ao qual se devem dedicar os candidatos ao sacerdócio; são
recomendações que se podem generalizar a todo o ensino cristão. Afirma-se num
dos documentos conciliares: « As disciplinas filosóficas sejam ensinadas de
forma que os alunos possam adquirir, antes de mais, um conhecimento sólido e
coerente do homem, do mundo e de Deus, apoiados num património filosófico
perenemente válido, tendo em conta as investigações filosóficas dos tempos
actuais »83
Estas directrizes foram depois retomadas e
especificadas noutros documentos do Magistério, com o intuito de garantir uma
sólida formação filosófica sobretudo àqueles que se preparam para os estudos
teológicos. Também eu sublinhei, em várias ocasiões, a importância desta
formação filosófica para todos os que, um dia, terão de enfrentar, na vida
pastoral, as questões do mundo actual e individuar as causas de determinados
comportamentos, a fim de lhes dar pronta resposta. 84
61. Se foi necessário intervir, em diversas
circunstâncias, sobre este tema, reiterando o valor das intuições do Doutor
Angélico e insistindo a favor da aquisição do seu pensamento, isso ficou a
dever-se também ao facto de não terem sido sempre observadas as directrizes
do Magistério, com a solicitude desejada. De facto, nos anos posteriores ao
Concílio Vaticano II, pôde observar-se, em muitas escolas católicas, um certo
declínio nesta matéria, devido à menor estima sentida não apenas pela
filosofia escolástica, mas pelo estudo da filosofia em geral. Com surpresa e
mágoa, tenho de constatar que vários teólogos compartilham este desinteresse
pelo estudo da filosofia.
Na base desta indiferença, há diversas razões. Em
primeiro lugar, aquela falta de confiança na razão que se manifesta em grande
parte da filosofia contemporânea, abandonando em larga escala a investigação
metafísica das questões últimas do homem para concentrar a sua atenção sobre
problemas particulares e regionais, às vezes puramente formais. Depois, há
que acrescentar o equívoco que se gerou sobretudo a respeito das « ciências
humanas ». O Concílio Vaticano II afirmou, várias vezes, o valor positivo da
pesquisa científica para um conhecimento mais profundo do mistério do
homem. 85 Mas, o convite dirigido aos
teólogos para conhecerem estas ciências e, se vier a propósito, aplicá-las
correctamente nos seus estudos, não deve ser interpretado como uma implícita
autorização para marginalizar a filosofia, pondo-a de parte na formação
pastoral e napræparatio fidei. E, finalmente, não se pode esquecer o
interesse novamente sentido pela inculturação da fé. Em particular, a vida
das jovens Igrejas permitiu descobrir, ao lado de formas elevadas de
pensamento, a presença de múltiplas expressões de sabedoria popular. Isto
constitui um autêntico património de cultura e de tradições. Todavia, o
estudo dos costumes tradicionais deve ser acompanhado simultaneamente pela
pesquisa filosófica. Será esta que possibilitará fazer sobressair os traços
positivos da sabedoria popular, criando a necessária ligação com o anúncio do
Evangelho.86
62. Desejo insistir novamente que o estudo da
filosofia reveste um carácter fundamental e indispensável na estrutura dos
estudos teológicos e na formação dos candidatos ao sacerdócio. Não é por
acaso que o currículo dos estudos teológicos é antecedido por um período de
tempo especialmente consagrado ao estudo da filosofia. Esta decisão,
confirmada pelo Concílio Ecuménico Lateranense V, 87 tem as suas raízes na experiência
maturada durante a Idade Média, quando foi posta em relevo a importância de
uma harmonia construtiva entre o saber filosófico e o teológico. Esta
organização dos estudos influenciou, facilitou e promoveu, embora de forma
indirecta, uma boa parte do progresso da filosofia moderna. Temos um exemplo
significativo na influência exercida pelasDisputationes metaphysicæ de
Francisco Suárez, que eram seguidas até mesmo nas universidades luteranas da
Alemanha. Pelo contrário, o abandono desta metodologia foi causa de graves
carências, tanto na formação sacerdotal como na investigação teológica. Basta
considerar, por exemplo, como a sua negligência no âmbito do pensamento e da
cultura moderna levou ao encerramento de toda a forma de diálogo ou à
recepção indiscriminada de qualquer filosofia.
Nutro profunda esperança de que estas
dificuldades serão superadas mercê de uma sábia formação filosófica e
teológica, que nunca deve faltar na Igreja.
63. Em virtude das razões aduzidas, senti a
urgência de confirmar, por meio desta carta encíclica, o grande interesse que
a Igreja tem pela filosofia; ou melhor, a ligação íntima do trabalho
teológico com a investigação filosófica da verdade. Daqui nasce o dever que o
Magistério tem de discernir e estimular um pensamento filosófico que não
esteja em dissonância com a fé. A minha missão é propor alguns princípios e
pontos de referência, que considero necessários para se poder instaurar uma
relação harmoniosa e eficaz entre a teologia e a filosofia. À luz deles, será
possível discernir com maior clareza se e como deve a teologia relacionar-se
com os diversos sistemas ou asserções filosóficas que o mundo actual
apresenta.
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CAPÍTULO VI - INTERACÇÃO DA TEOLOGIA COM A
FILOSOFIA
1. A ciência da fé e as exigências da
razão filosófica
64. A palavra de Deus destina-se a todo o homem,
de qualquer época e lugar da terra; e o homem, por natureza, é filósofo. Por
sua vez, a teologia, enquanto elaboração reflexiva e científica da
compreensão da palavra divina à luz da fé, não pode deixar de recorrer às
filosofias que vão surgindo ao longo da história, tanto para algumas das suas
formas de proceder como para realizar funções mais específicas. Sem pretender
indicar aos teólogos metodologias particulares — porque tal não compete ao
Magistério —, desejo, porém, lembrar algumas funções próprias da teologia,
onde, por causa da própria natureza da Palavra revelada, se exige o recurso
ao pensamento filosófico.
65. A teologia está organizada, enquanto ciência
da fé, à luz dum duplo princípio metodológico: auditus fidei e intellectus
fidei. Com o primeiro, recolhe os conteúdos da Revelação tal como se
foram explicitando progressivamente na Sagrada Tradição, na Sagrada Escritura
e no Magistério vivo da Igreja. 88 Pelo segundo, a teologia quer responder
às exigências próprias do pensamento, através da reflexão especulativa.
Quanto à preparação para um correcto auditus
fidei, a filosofia proporciona à teologia a sua ajuda peculiar, quando
examina a estrutura do conhecimento e da comunicação pessoal, e sobretudo as
várias formas e funções da linguagem. Igualmente importante é a contribuição
da filosofia para uma compreensão mais coerente da Tradição eclesial, das
intervenções do Magistério e das sentenças dos grandes mestres da teologia:
estes, de facto, exprimem-se frequentemente por conceitos e formas de
pensamento conotados com determinada tradição filosófica. Neste caso, pede-se
ao teólogo não só que exponha conceitos e termos através dos quais a Igreja
possa reflectir e elaborar a sua doutrina, mas que conheça profundamente
também os sistemas filosóficos que tenham, porventura, influenciado as noções
e a terminologia, a fim de se chegar a interpretações correctas e coerentes.
66. Relativamente ao intellectus fidei,
importa considerar, antes de mais, que a Verdade divina, « que nos é proposta
nas Sagradas Escrituras, interpretadas correctamente pela doutrina da Igreja
»,89 goza de uma inteligibilidade
própria, logicamente tão coerente que se deve propor como um autêntico saber.
O intellectus fidei explicita esta verdade, não só quando
investiga as estruturas lógicas e conceptuais das proposições em que se
articula a doutrina da Igreja, mas também e sobretudo quando põe em realce o
significado salvífico de tais proposições para o indivíduo e para a
humanidade. É pelo conjunto destas proposições que o crente chega a conhecer
a história da salvação, que culmina na pessoa de Jesus Cristo e no seu
mistério pascal; ele participa deste mistério, com a sua adesão de fé.
A teologia dogmática deve ser
capaz de articular o sentido universal do mistério de Deus, Uno e Trino, e da
economia da salvação, quer de modo narrativo, quer sobretudo de forma
argumentativa. Por outras palavras, deve fazê-lo mediante expressões
conceptuais, formuladas de modo crítico e universalmente acessível. De facto,
sem o contributo da filosofia não seria possível ilustrar certos conteúdos
teológicos como, por exemplo, a linguagem sobre Deus, as relações pessoais no
seio da Santíssima Trindade, a acção criadora de Deus no mundo, a relação
entre Deus e o homem, a identidade de Cristo que é verdadeiro Deus e
verdadeiro homem. E o mesmo se diga de diversos temas da teologia moral, onde
é preciso recorrer, de imediato, a conceitos como lei moral, consciência,
liberdade, responsabilidade pessoal, culpa, etc., cuja definição provém da
ética filosófica.
Por isso, é necessário que a razão do crente
tenha um conhecimento natural, verdadeiro e coerente das coisas criadas, do
mundo e do homem, que são também objecto da revelação divina; mais ainda, ela
deve ser capaz de articular este conhecimento de maneira conceptual e
argumentativa. Assim, a teologia dogmática especulativa pressupõe e implica
uma filosofia do homem, do mundo e, mais radicalmente, do próprio ser,
fundada sobre a verdade objectiva.
67. A teologia fundamental, pelo seu
próprio carácter de disciplina que tem por função dar razão da fé (cf. 1
Ped 3, 15), deverá procurar justificar e explicitar a relação entre
a fé e a reflexão filosófica. Já o Concílio Vaticano I, reafirmando o
ensinamento paulino (cf. Rom 1, 19-20), chamara a atenção
para o facto de existirem verdades que se podem conhecer de modo natural e,
consequentemente, filosófico. O seu conhecimento constitui um pressuposto
necessário para acolher a revelação de Deus. Quando a teologia fundamental
estuda a Revelação e a sua credibilidade com o relativo acto de fé, deverá
mostrar como emergem, à luz do conhecimento pela fé, algumas verdades que a
razão, autonomamente, já encontra ao longo do seu caminho de pesquisa. A
essas verdades, a Revelação confere-lhes plenitude de sentido, orientando-as
para a riqueza do mistério revelado, onde encontram o seu fim último. Basta
pensar, por exemplo, ao conhecimento natural de Deus, à possibilidade de
distinguir a revelação divina de outros fenómenos, ou ao conhecimento da sua
credibilidade, à capacidade que tem a linguagem humana de falar, de modo
significativo e verdadeiro, mesmo do que ultrapassa a experiência humana. Por
todas estas verdades, a mente é levada a reconhecer a existência duma via
realmente propedêutica à fé, que pode desembocar no acolhimento da Revelação,
sem faltar minimamente aos seus próprios princípios e autonomia. 90
Da mesma forma, a teologia fundamental deverá
manifestar a compatibilidade intrínseca entre a fé e a sua exigência
essencial de se explicitar através de uma razão capaz de dar com plena
liberdade o seu consentimento. Assim, a fé saberá « mostrar plenamente o
caminho a uma razão em busca sincera da verdade. Deste modo a fé, dom de
Deus, apesar de não se basear na razão, decerto não pode existir sem ela; ao
mesmo tempo, surge a necessidade de que a razão se fortifique na fé, para
descobrir os horizontes aos quais, sozinha, não poderia chegar ». 91
68. A teologia moral tem,
possivelmente, uma necessidade ainda maior do contributo filosófico. Na Nova
Aliança, a vida humana está efectivamente muito menos regulada por
prescrições do que na Antiga. A vida no Espírito conduz os crentes a uma
liberdade e responsabilidade que ultrapassam a própria Lei. No entanto, o
Evangelho e os escritos apostólicos não deixam de propor ora princípios
gerais de conduta cristã, ora ensinamentos e preceitos específicos; para
aplicá-los às circunstâncias concretas da vida individual e social, o cristão
tem necessidade de valer-se plenamente da sua consciência e da força do seu
raciocínio. Por outras palavras, a teologia moral deve recorrer a uma visão
filosófica correcta tanto da natureza humana e da sociedade, como dos
princípios gerais duma decisão ética.
69. Talvez se possa objectar que, na situação
actual, o teólogo, mais do que à filosofia, deveria recorrer à ajuda de
outras formas do saber humano, concretamente à história e sobretudo às
ciências, de que todos admiram os progressos extraordinários recentemente
alcançados. Outros, impelidos por uma maior sensibilidade à relação entre fé
e culturas, defendem que a teologia deveria dar preferência às sabedorias
tradicionais, em vez de uma filosofia de origem grega e eurocêntrica. Outros
ainda, partindo duma concepção errada do pluralismo de culturas, negam
simplesmente o valor universal do património filosófico abraçado pela Igreja.
Os aspectos sublinhados, já presentes aliás na
doutrina conciliar, 92 contêm uma parte de verdade. O
referimento às ciências, útil em muitos casos porque permite um conhecimento
mais completo do objecto de estudo, não deve, porém, fazer esquecer a
necessidade que há da mediação duma reflexão tipicamente filosófica, crítica
e aberta ao universal, solicitada também por um fecundo intercâmbio entre as
culturas. A minha preocupação é pôr em destaque o dever de não se ficar pelo
caso isolado e concreto, descuidando assim a tarefa primária que é manifestar
o carácter universal do conteúdo de fé. Além disso, não se deve esquecer que
a peculiar contribuição do pensamento filosófico permite discernir, tanto nas
diversas concepções da vida como nas culturas, « não o que os homens pensam,
mas qual é a verdade objectiva ». 93 Não as diversas opiniões humanas,
mas somente a verdade pode servir de ajuda à filosofia.
70. Além do mais, o tema da relação com as
culturas merece uma reflexão específica, apesar de necessariamente não
exaustiva, pelas implicações que daí derivam para as vertentes filosófica e
teológica. O processo de encontro e comparação com as culturas é uma
experiência que a Igreja viveu desde os começos da pregação do Evangelho. O
mandato de Cristo aos discípulos para irem, a toda a parte « até aos confins
do mundo » (Act 1, 8), transmitir a verdade revelada por Ele, fez
com que a comunidade cristã pudesse bem cedo dar-se conta da universalidade
do anúncio e dos obstáculos resultantes da diversidade das culturas. Um
trecho da carta de S. Paulo aos cristãos de Éfeso oferece uma válida ajuda
para compreender como a Comunidade Primitiva enfrentou este problema. Escreve
o Apóstolo: « Agora porém, vós, que outrora estáveis longe, pelo Sangue de
Cristo vos aproximastes. Ele é a nossa paz, Ele que de dois povos fez um só,
destruindo o muro de inimizade que os separava » (2, 13-14).
Iluminada por este texto, a nossa reflexão pode
debruçar-se sobre a transformação que se operou nos gentios quando abraçaram
a fé. As barreiras que separam as diversas culturas caem diante da riqueza da
salvação, realizada por Cristo. Agora, em Cristo, a promessa de Deus torna-se
uma oferta universal: não limitada já à dimensão particular de um povo, da
sua língua ou dos seus costumes, mas alargada a todos, como um património ao
qual cada um pode livremente ter acesso. Dos mais diversos lugares e
tradições, todos são chamados, em Cristo, a participar na unidade da família
dos filhos de Deus. Cristo faz com que dois povos se tornem « um só ». Os que
« estavam longe » ficaram « próximo », graças à novidade gerada pelo mistério
pascal. Jesus abate os muros de divisão e realiza a unificação, de um modo
original e supremo, por meio da participação no seu mistério. Esta unidade é
tão profunda que a Igreja pode dizer com S. Paulo: « Já não sois hóspedes nem
peregrinos, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus » (Ef 2,
19).
Nesta asserção tão simples, está contida uma
grande verdade: o encontro da fé com as diversas culturas deu vida a uma nova
realidade. Na verdade, quando as culturas estão profundamente radicadas na
natureza humana, contêm em si mesmas o testemunho da abertura, própria do
homem, ao universal e à transcendência. É por isso que elas apresentam
perspectivas distintas da verdade, que são de evidente utilidade para o
homem, porque lhe fazem vislumbrar valores capazes de tornar a sua existência
sempre mais humana. 94 Por outro lado, na medida em que
evocam os valores das tradições antigas, as culturas trazem consigo — embora
de modo implícito, mas nem por isso menos real — a referência à manifestação
de Deus na natureza, como se viu antes nos textos sapienciais e no
ensinamento de S. Paulo.
71. Uma vez que as culturas estão intimamente
relacionadas com os homens e a sua história, partilham das mesmas dinâmicas
do tempo humano. E, consequentemente, registam transformações e progressos
com os encontros que os homens promovem e com as recíprocas transmissões dos
seus modelos de vida. As culturas alimentam-se com a comunicação de valores,
e a sua vitalidade e subsistência dependem da sua capacidade de permanecerem
abertas para acolher a novidade. Como se explicam tais dinâmicas? Todo o
homem está integrado numa cultura; depende dela, e sobre ela influi. É
simultaneamente filho e pai da cultura onde está inserido. Em cada
manifestação da sua vida, o homem traz consigo algo que o caracteriza no meio
da criação: a sua constante abertura ao mistério e o seu desejo inexaurível
de conhecimento. Em consequência, cada cultura traz gravada em si mesma e
deixa transparecer a tensão para uma plenitude. Pode-se, portanto, dizer que
a cultura contém em si própria a possibilidade de acolher a revelação divina.
Também o modo como os cristãos vivem a fé, está
imbuído da cultura do ambiente circundante, e vai progressivamente
contribuindo, por sua vez, para modelar as características do mesmo. Os
cristãos transmitem, a cada cultura, a verdade imutável que Deus revelou na
história e na cultura dum povo. Ao longo dos séculos, continua a reproduzir-se
o mesmo fenómeno testemunhado pelos peregrinos presentes em Jerusalém, no dia
de Pentecostes. Ao escutarem os Apóstolos, perguntavam-se: « Mas quê! Essa
gente que está a falar não é da Galileia? Que se passa, então, para que cada
um de nós os oiça falar na nossa língua materna? Partos, medos, elamitas,
habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da
Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene,
colonos de Roma, judeus e prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los anunciar
nas nossas línguas as maravilhas de Deus! » (Act 2, 7-11). O
anúncio do Evangelho nas diversas culturas, ao exigir de cada um dos
destinatários a adesão da fé, não os impede de conservar a própria identidade
cultural. Isto não provoca qualquer divisão, pois o povo dos baptizados
distingue-se por uma universalidade que é capaz de acolher todas as culturas,
fazendo com que aquilo que nelas está implícito se desenvolva até à sua
explanação plena na verdade.
Em consequência disto, uma cultura nunca pode
servir de critério de juízo e, menos ainda, de critério último de verdade a
respeito da revelação de Deus. O Evangelho não é contrário a esta ou àquela
cultura, como se quisesse, ao encontrar-se com ela, privá-la daquilo que lhe
pertence, e a obrigasse a assumir formas extrínsecas que lhe são estranhas.
Pelo contrário, o anúncio que o crente leva ao mundo e às culturas é uma
forma real de libertação de toda a desordem introduzida pelo pecado e,
simultaneamente, uma chamada à verdade plena. Neste encontro, as culturas não
são privadas de nada, antes são estimuladas a abrirem-se à novidade da
verdade evangélica, de que recebem impulso para novos progressos.
72. O facto da missão evangelizadora ter
encontrado em primeiro lugar no seu caminho a filosofia grega, não constitui
de forma alguma impedimento para outros relacionamentos. Hoje, à medida que o
Evangelho entra em contacto com áreas culturais que estiveram até agora fora
do âmbito de irradiação do cristianismo, novas tarefas se abrem à
inculturação. Colocam-se à nossa geração problemas análogos aos que a Igreja
teve de enfrentar nos primeiros séculos.
O meu pensamento vai espontaneamente até às
terras do Oriente, tão ricas de tradições religiosas e filosóficas muito
antigas. Entre elas, ocupa um lugar especial a Índia. Um grande ímpeto
espiritual leva o pensamento indiano a procurar uma experiência que,
libertando o espírito dos condicionamentos de tempo e espaço, tenha valor de
absoluto. No dinamismo desta busca de libertação, situam-se grandes sistemas
metafísicos.
Compete aos cristãos de hoje, sobretudo aos da
Índia, a tarefa de extrair deste rico património os elementos compatíveis com
a sua fé, para se obter um enriquecimento do pensamento cristão. Nesta obra
de discernimento, que tem a sua fonte de inspiração na declaração
conciliar Nostra aetate, deverão ter em consideração um certo
número de critérios. O primeiro é a universalidade do espírito humano, cujas
exigências fundamentais são idênticas nas mais distintas culturas. O segundo,
derivado do anterior, consiste no seguinte: quando a Igreja entra em contacto
com grandes culturas que nunca tinha encontrado antes, não pode pôr de parte
o que adquiriu pela inculturação no pensamento greco-latino. Rejeitar uma tal
herança seria contrariar o desígnio providencial de Deus, que conduz a sua
Igreja pelos caminhos do tempo e da história. Aliás, este critério é válido
para a Igreja de todos os tempos — também para a Igreja de amanhã, que se
sentirá enriquecida com as aquisições resultantes do encontro em nossos dias
com as culturas orientais, e desta herança há-de tirar, por sua vez,
indicações novas para entrar frutuosamente em diálogo com as culturas que a
humanidade fizer florir no seu caminho rumo ao futuro. Em terceiro lugar,
há-de precaver-se por não confundir a legítima reivindicação de
especificidade e originalidade do pensamento indiano, com a ideia de que uma
tradição cultural deve enclausurar-se na sua diferença e afirmar-se pela sua
oposição às outras tradições — ideia essa que seria contrária precisamente à
natureza do espírito humano.
O que fica dito para a Índia, vale também para a
herança das grandes culturas da China, do Japão e demais países da Ásia, bem
como das riquezas das culturas tradicionais da África, transmitidas sobretudo
por via oral.
73. À luz destas considerações, a justa relação
que se deve instaurar entre a teologia e a filosofia há-de ser pautada por
uma reciprocidade circular. Quanto à teologia, o seu ponto de partida e fonte
primeira terá de ser sempre a palavra de Deus revelada na história, ao passo
que o objectivo final só poderá ser uma compreensão cada vez mais profunda
dessa mesma palavra por parte das sucessivas gerações. Visto que a palavra de
Deus é Verdade (cf. Jo 17, 17), uma melhor compreensão dela
só tem a beneficiar com a busca humana da verdade, ou seja, o filosofar, no
respeito das leis que lhe são próprias. Não se trata simplesmente de
utilizar, no raciocínio teológico, qualquer conceito ou parcela dum sistema
filosófico; o facto decisivo é que a razão do crente exerce as suas
capacidades de reflexão na busca da verdade, dentro dum movimento que,
partindo da palavra de Deus, procura alcançar uma melhor compreensão da
mesma. É claro, de resto, que a razão, movendo-se dentro destes dois pólos —
palavra de Deus e melhor conhecimento desta —, encontra-se prevenida, e de
algum modo guiada, para evitar percursos que poderiam conduzi-la fora da
Verdade revelada e, em última análise, fora pura e simplesmente da verdade;
mais ainda, ela sente-se estimulada a explorar caminhos que, sozinha, nem
sequer suspeitaria de poder percorrer. Esta relação de reciprocidade circular
com a Palavra de Deus enriquece a filosofia, porque a razão descobre
horizontes novos e inesperados.
74. A prova da fecundidade de tal relação é
oferecida pela própria vida de grandes teólogos cristãos que se distinguiram
também como grandes filósofos, deixando escritos de tamanho valor
especulativo que justificam ser colocados ao lado dos grandes mestres da
filosofia antiga. Isto é válido tanto para os Padres da Igreja, de entre os
quais há que citar pelo menos os nomes de S. Gregório Nazianzeno e S.
Agostinho, como para os Doutores medievais entre os quais sobressai a grande
tríade formada por S. Anselmo, S. Boaventura e S. Tomás de Aquino. A relação
entre a filosofia e a palavra de Deus manifesta-se fecunda também na
investigação corajosa realizada por pensadores mais recentes, de entre os
quais me apraz mencionar, no âmbito ocidental, personagens como John Henry
Newman, António Rosmini, Jacques Maritain, Étienne Gilson, Edith Stein, e, no
âmbito oriental, estudiosos com a estatura de Vladimir S. Solov'ev, Pavel A.
Florenskij, Petr J. Caadaev, Vladimir N. Losskij. Ao referir estes autores,
ao lado dos quais outros nomes poderiam ser citados, não tenciono obviamente
dar aval a todos os aspectos do seu pensamento, mas apenas propô-los como
exemplos significativos dum caminho de pesquisa filosófica que tirou notáveis
vantagens da sua confrontação com os dados da fé. Uma coisa é certa: a
consideração do itinerário espiritual destes mestres não poderá deixar de
contribuir para o avanço na busca da verdade e na utilização dos resultados
conseguidos para o serviço do homem. Espera-se que esta grande tradição filosófico-teológica
encontre, hoje e no futuro, os seus continuadores e estudiosos para bem da
Igreja e da humanidade.
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2. Diferentes estádios da filosofia
75. Como consta da história das relações entre a
fé e a filosofia, apontada acima brevemente, podem distinguir-se diversos
estádios da filosofia relativamente à fé cristã. O primeiro é a filosofia
totalmente independente da revelação evangélica: é o estádio da
filosofia, existente historicamente nas épocas que precederam o nascimento do
Redentor, e, mesmo depois dele, nas regiões onde o Evangelho ainda não
chegou. Nesta situação, a filosofia apresenta a legítima aspiração de ser um
empreendimento autónomo, ou seja, que procede segundo as suas
próprias leis, valendo-se simplesmente das forças da razão. Embora cientes
dos graves limites devidos à debilidade congénita da razão humana, uma tal
aspiração deve ser apoiada e fortalecida. De facto, o trabalho filosófico,
como busca da verdade no âmbito natural, pelo menos implicitamente permanece
aberto ao sobrenatural.
E, mesmo quando é o próprio discurso teológico
que se serve de conceitos e argumentações filosóficas, a exigência de
correcta autonomia do pensamento há-de ser respeitada. Com efeito, a
argumentação conduzida segundo rigorosos critérios racionais é garantia para
a obtenção de resultados universalmente válidos. Também aqui se verifica o
princípio segundo o qual a graça não destrói, mas aperfeiçoa a natureza: a
anuência de fé, que envolve a inteligência e a vontade, não destrói mas
aperfeiçoa o livre arbítrio do crente, que acolhe em si próprio o dado
revelado.
Desta exigência em si mesma correcta, afasta-se
nitidamente a teoria da chamada filosofia « separada », sustentada por vários
filósofos modernos. Mais do que afirmação da justa autonomia do filosofar,
ela constitui a reivindicação duma auto-suficiência do pensamento que é
claramente ilegítima: rejeitar as contribuições de verdade vindas da
revelação divina significa efectivamente impedir o acesso a um conhecimento
mais profundo da verdade, danificando precisamente a filosofia.
76. Um segundo estádio da filosofia é aquilo que
muitos designam com a expressão filosofia cristã. A denominação,
em si mesma, é legítima, mas não deve dar margem a equívocos: com ela, não se
pretende aludir a uma filosofia oficial da Igreja, já que a fé enquanto tal
não é uma filosofia. Com aquela designação, deseja-se sobretudo indicar um
modo cristão de filosofar, uma reflexão filosófica concebida em união vital
com a fé. Por conseguinte, não se refere simplesmente a uma filosofia
elaborada por filósofos cristãos que, na sua pesquisa, quiseram não
contradizer a fé. Quando se fala de filosofia cristã, pretende-se abraçar
todos aqueles importantes avanços do pensamento filosófico que não seriam
alcançados sem a contribuição, directa ou indirecta, da fé cristã.
Assim, a filosofia cristã contém dois aspectos:
um subjectivo, que consiste na purificação da razão por parte da fé. Esta,
enquanto virtude teologal, liberta a razão da presunção — uma típica tentação
a que os filósofos facilmente estão sujeitos. Já S. Paulo e os Padres da
Igreja, e mais recentemente filósofos, como Pascal e Kierkegaard, a
estigmatizaram. Com a humildade, o filósofo adquire também a coragem para
enfrentar algumas questões que dificilmente poderia resolver sem ter em
consideração os dados recebidos da Revelação. Basta pensar, por exemplo, aos
problemas do mal e do sofrimento, à identidade pessoal de Deus e à questão
acerca do sentido da vida, ou, mais diretamente, à pergunta metafísica
radical: « Porque existe o ser? ».
Temos, depois, o aspecto objectivo, que diz
respeito aos conteúdos: a Revelação propõe claramente algumas verdades que,
embora sejam acessíveis à razão por via natural, possivelmente nunca seriam
descobertas por ela, se tivesse sido abandonada a si própria. Colocam-se,
neste horizonte, questões como o conceito de um Deus pessoal, livre e
criador, que tanta importância teve para o progresso do pensamento filosófico
e, de modo particular, para a filosofia do ser. Pertence ao mesmo âmbito a
realidade do pecado, tal como é vista pela luz da fé, e que ajuda a filosofia
a enquadrar adequadamente o problema do mal. Também a concepção da pessoa
como ser espiritual é uma originalidade peculiar da fé: o anúncio cristão da
dignidade, igualdade e liberdade dos homens influiu seguramente sobre a
reflexão filosófica, realizada pelos filósofos modernos. Nos tempos mais
recentes, pode-se mencionar a descoberta da importância que tem, também para
a filosofia, o acontecimento histórico, centro da revelação cristã. Não foi
por acaso que aquele se tornou perne de uma filosofia da história, que se
apresenta como um novo capítulo da busca humana da verdade.
Entre os elementos objectivos da filosofia
cristã, inclui-se também a necessidade de explorar a racionalidade de algumas
verdades expressas pela Sagrada Escritura, tais como a possibilidade de uma
vocação sobrenatural do homem, e também o próprio pecado original. São tarefas
que induzem a razão a reconhecer que existe a verdade e o racional, muito
para além dos limites estreitos onde ela seria tentada a encerrar-se. Estas
temáticas ampliam, de facto, o âmbito do racional.
Ao reflectirem sobre estes conteúdos, os
filósofos não se tornaram teólogos, já que não procuraram compreender e
ilustrar as verdades da fé a partir da Revelação; continuaram a trabalhar no
seu próprio terreno e com a sua metodologia puramente racional, mas alargando
a sua investigação a novos âmbitos da verdade. Pode-se dizer que, sem este
influxo estimulante da palavra de Deus, boa parte da filosofia moderna e
contemporânea não existiria. O dado mantém toda a sua relevância, mesmo
diante da constatação decepcionante de não poucos pensadores destes últimos séculos
que abandonaram a ortodoxia cristã.
77. Outro estádio significativo da filosofia
verifica-se quando é a própria teologia que chama em
causa a filosofia. Na verdade, a teologia sempre teve, e continua a ter,
necessidade da contribuição filosófica. Realizado pela razão crítica à luz da
fé, o trabalho teológico pressupõe e exige, ao longo de toda a sua pesquisa,
uma razão conceptual e argumentativamente educada e formada. Além disso, a
teologia precisa da filosofia como interlocutora, para verificar a inteligibilidade
e a verdade universal das suas afirmações. Não foi por acaso que os Padres da
Igreja e os teólogos medievais assumiram, para tal função explicativa,
filosofias não cristãs. Este facto histórico indica o valor da autonomiaque
a filosofia conserva mesmo neste terceiro estádio, mas mostra igualmente as
transformações necessárias e profundas que ela deve sofrer.
É precisamente no sentido de uma contribuição
indispensável e nobre que a filosofia foi chamada, desde a Idade
Patrística, ancilla theologiæ. De facto, o título não foi
atribuído para indicar uma submissão servil ou um papel puramente funcional
da filosofia relativamente à teologia; mas no mesmo sentido em que
Aristóteles falava das ciências experimentais como « servas » da « filosofia primeira
». A expressão, hoje dificilmente utilizável devido aos princípios de
autonomia antes mencionados, foi usada ao longo da história para indicar a
necessidade da relação entre as duas ciências e a impossibilidade de uma sua
separação.
Se o teólogo se recusasse a utilizar a filosofia,
arriscar-se-ia a fazer filosofia sem o saber e a fechar-se em estruturas de
pensamento pouco idóneas à compreensão da fé. Se o filósofo, por sua vez,
excluísse todo o contacto com a teologia, ver-se-ia na obrigação de apoderar-se
por conta própria dos conteúdos da fé cristã, como aconteceu com alguns
filósofos modernos. Tanto num caso como noutro, surgiria o perigo da
destruição dos princípios básicos de autonomia que cada ciência justamente
quer ver garantidos.
O estádio da filosofia agora considerado, devido
às implicações que comporta na compreensão da Revelação, está, como acontece
com a teologia, mais directamente colocado sob a autoridade do Magistério e
do seu discernimento, como expus mais acima. Das verdades de fé derivam,
efectivamente, determinadas exigências que a filosofia deve respeitar, quando
entra em relação com a teologia.
78. À luz destas reflexões, é fácil compreender
porque tenha o Magistério louvado reiteradamente os méritos do pensamento de
S. Tomás, e o tenha proposto como guia e modelo dos estudos teológicos. O que
interessava não era tomar posição sobre questões propriamente filosóficas,
nem impor a adesão a teses particulares; o objectivo do Magistério era, e
continua a ser, mostrar como S. Tomás é um autêntico modelo para quantos
buscam a verdade. De facto, na sua reflexão, a exigência da razão e a força
da fé encontraram a síntese mais elevada que o pensamento jamais alcançou,
enquanto soube defender a novidade radical trazida pela Revelação, sem nunca
humilhar o caminho próprio da razão.
79. Ao explicitar melhor os conteúdos do
Magistério precedente, é minha intenção, nesta última parte, indicar algumas
exigências que a teologia — e, ainda antes, a palavra de Deus — coloca, hoje,
ao pensamento filosófico e às filosofias actuais. Como já assinalei, o
filósofo deve proceder segundo as próprias regras e basear-se sobre os
próprios princípios; todavia, a verdade é uma só. A Revelação, com os seus
conteúdos, não poderá nunca humilhar a razão nas suas descobertas e na sua
legítima autonomia; a razão, por sua vez, não deverá perder nunca a sua
capacidade de interrogar-se e de interrogar, consciente de não poder
arvorar-se em valor absoluto e exclusivo. A verdade revelada, projectando
plena luz sobre o ser a partir do esplendor que lhe vem do próprio Ser
subsistente, iluminará o caminho da reflexão filosófica. Em resumo, a
revelação cristã torna-se o verdadeiro ponto de enlace e confronto entre o
pensar filosófico e o teológico, no seu recíproco intercâmbio. Espera-se,
pois, que teólogos e filósofos se deixem guiar unicamente pela autoridade da
verdade, para que seja elaborada uma filosofia de harmonia com a palavra de
Deus. Esta filosofia será o terreno de encontro entre as culturas e a fé
cristã, o espaço de entendimento entre crentes e não crentes. Ajudará os
crentes a convencerem-se mais intimamente de que a profundidade e a
autenticidade da fé saem favorecidas quando esta se une ao pensamento e não
renuncia a ele. Mais uma vez, encontramos nos Padres a lição que nos guia
nesta convicção: « Crer, nada mais é senão pensar consentindo [...]. Todo o
que crê, pensa; crendo pensa, e pensando crê [...]. A fé, se não for pensada,
nada é ». 95 Mais: « Se se tira o assentimento,
tira-se a fé, pois, sem o assentimento, realmente não se crê ». 96
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CAPÍTULO VII - EXIGÊNCIAS E TAREFAS ACTUAIS
1. As exigências irrenunciáveis da
palavra de Deus
80. A Sagrada Escritura contém, de forma
explícita ou implícita, toda uma série de elementos que permite alcançar uma
perspectiva de notável densidade filosófica acerca do homem e do mundo. Os
cristãos foram gradualmente tomando consciência da riqueza contida naquelas
páginas sagradas. Delas se conclui que a realidade que experimentamos, não é
o absoluto: não é incriada, nem se autogerou. Só Deus é o Absoluto. Nas
páginas da Bíblia, o homem é visto como imago Dei, que contém
indicações precisas sobre o seu ser, a sua liberdade e a imortalidade do seu
espírito. Uma vez que o mundo criado não é autosuficiente, qualquer ilusão de
autonomia que ignore a essencial dependência de Deus de toda criatura —
incluindo o homem — leva a dramas que destroem a busca racional da harmonia e
do sentido da existência humana.
Também o problema do mal moral — a forma mais
trágica do mal — é considerado na Bíblia, dizendo-nos que este não pode ser
reduzido a uma mera deficiência devida à matéria, mas é uma ferida que provém
de uma manifestação desordenada da liberdade humana. Finalmente, a palavra de
Deus apresenta o problema do sentido da existência e revela a resposta para o
mesmo, encaminhando o homem para Jesus Cristo, o Verbo de Deus encarnado, que
realiza em plenitude a existência humana. Poder-se-iam ainda explicitar
outros aspectos da leitura do texto sagrado; de qualquer modo, o que
sobressai é a rejeição de toda a forma de relativismo, materialismo,
panteísmo.
A convicção fundamental desta « filosofia »
presente na Bíblia é que a vida humana e o mundo têm um sentido e caminham
para a sua plenitude, que se verifica em Jesus Cristo. O mistério da
Encarnação permanecerá sempre o centro de referência para se poder
compreender o enigma da existência humana, do mundo criado, e mesmo de Deus.
A filosofia encontra, neste mistério, os desafios extremos, porque a razão é
chamada a assumir uma lógica que destrói as barreiras onde ela mesma corre o
risco de se fechar. Somente aqui, porém, o sentido da existência alcança o
seu ponto culminante. Com efeito, torna-se inteligível a essência íntima de
Deus e do homem: no mistério do Verbo encarnado, são salvaguardadas a
natureza divina e a natureza humana, com sua respectiva autonomia, e
simultaneamente manifesta-se aquele vínculo único que as coloca em mútuo
relacionamento, sem confusão. 97
81. Deve ter-se em conta que um dos dados mais
salientes da nossa situação actual consiste na « crise de sentido ». Os
pontos de vista, muitas vezes de carácter científico, sobre a vida e o mundo
multiplicaram-se tanto que estamos efectivamente assistindo à afirmação
crescente do fenómeno da fragmentação do saber. É precisamente isto que torna
difícil e frequentemente vã a procura de um sentido. E, mais dramático ainda,
neste emaranhado de dados e de factos, em que se vive e que parece constituir
a própria trama da existência, tantos se interrogam se ainda tem sentido
pôr-se a questão do sentido. A pluralidade das teorias que se disputam a resposta,
ou os diversos modos de ver e interpretar o mundo e a vida do homem não fazem
senão agravar esta dúvida radical, que facilmente desemboca num estado de
cepticismo e indiferença ou nas diversas expressões do niilismo.
Em consequência disto, o espírito humano fica
muitas vezes ocupado por uma forma de pensamento ambíguo, que o leva a
encerrar-se ainda mais em si próprio, dentro dos limites da própria
imanência, sem qualquer referência ao transcendente. Privada da questão do
sentido da existência, uma filosofia incorreria no grave perigo de relegar a
razão para funções meramente instrumentais, sem uma autêntica paixão pela
busca da verdade.
Para estar em consonância com a palavra de Deus
ocorre, antes de mais, que a filosofia volte a encontrar a sua dimensão
sapiencial de procura do sentido último e global da vida. Esta
primeira exigência, por sinal, constitui um estímulo utilíssimo para a
filosofia se conformar com a sua própria natureza. Deste modo, ela não será
apenas aquela instância crítica decisiva que indica, às várias partes do
saber científico, o seu fundamento e os seus limites, mas representará também
a instância última de unificação do saber e do agir humano, levando-os a
convergirem para um fim e um sentido definitivos. Esta dimensão sapiencial é
ainda mais indispensável hoje, uma vez que o imenso crescimento do poder
técnico da humanidade requer uma renovada e viva consciência dos valores
últimos. Se viesse a faltar a estes meios técnicos a sua orientação para um
fim não meramente utilitarista, poderiam rapidamente revelar-se desumanos e
transformar-se mesmo em potenciais destrutores do género humano. 98
A palavra de Deus revela o fim último do homem, e
dá um sentido global à sua acção no mundo. Por isso, ela convida a filosofia
a empenhar-se na busca do fundamento natural desse sentido, que é a
religiosidade constitutiva de cada pessoa. Uma filosofia que quisesse negar a
possibilidade de um sentido último e global, seria não apenas imprópria, mas
errónea.
82. De resto, este papel sapiencial não poderia
ser desempenhado por uma filosofia que não fosse, ela própria, um autêntico e
verdadeiro saber, isto é, debruçado não só sobre os aspectos particulares e
relativos — sejam eles funcionais, formais ou úteis — da realidade, mas sobre
a verdade total e definitiva desta, ou seja, sobre o próprio ser do objecto
de conhecimento. Daqui, uma segunda exigência: verificar a capacidade do
homem chegar ao conhecimento da verdade; mais, um conhecimento
que alcance a verdade objectiva por meio daquela adæquatio rei et
intellectus, a que se referem os Doutores da Escolástica. 99 Esta exigência, própria da fé, foi
explicitamente reafirmada pelo Concílio Vaticano II: « A inteligência, de
facto, não se limita ao domínio dos fenómenos; embora, em consequência do
pecado, esteja parcialmente obscurecida e debilitada, ela é capaz de atingir
com certeza a realidade inteligível ». 100
Uma filosofia, radicalmente fenomenista ou
relativista, revelar-se-ia inadequada para ajudar no aprofundamento da
riqueza contida na palavra de Deus. De facto, a Sagrada Escritura sempre
pressupõe que o homem, mesmo quando culpável de duplicidade e mentira, é
capaz de conhecer e captar a verdade clara e simples. Nos Livros Sagrados, e
de modo particular no Novo Testamento, encontram-se textos e afirmações de
alcance propriamente ontológico. Os autores inspirados, com efeito, quiseram
formular afirmações verdadeiras, isto é, capazes de exprimir a realidade
objectiva. Não se pode dizer que a tradição católica tenha cometido um erro,
quando entendeu alguns textos de S. João e de S. Paulo como afirmações sobre
o ser mesmo de Cristo. Ora, quando a teologia procura compreender e explicar
estas afirmações, tem necessidade do auxílio duma filosofia que não renegue a
possibilidade de um conhecimento objectivamente verdadeiro, embora sempre
passível de aperfeiçoamento. Isto vale também para os juízos da consciência
moral, que a Sagrada Escritura supõe ser objectivamente verdadeiros. 101
83. As duas exigências, já referidas, implicam
uma terceira: ocorre uma filosofia de alcanceautenticamente metafísico,
isto é, capaz de transcender os dados empíricos para chegar, na sua busca da
verdade, a algo de absoluto, definitivo, básico. Trata-se duma exigência
implícita tanto no conhecimento de tipo sapiencial, como de carácter
analítico; de modo particular, é uma exigência própria do conhecimento do bem
moral, cujo fundamento último é o sumo Bem, o próprio Deus. Não é minha
intenção falar aqui da metafísica enquanto escola específica ou particular
corrente histórica; desejo somente afirmar que a realidade e a verdade
transcendem o elemento factível e empírico, e quero reivindicar a capacidade
que o homem possui de conhecer esta dimensão transcendente e metafísica de
forma verdadeira e certa, mesmo se imperfeita e analógica. Neste sentido, a
metafísica não deve ser vista como alternativa à antropologia, pois é
precisamente ela que permite dar fundamento ao conceito da dignidade da
pessoa, assente na sua condição espiritual. De modo particular, a pessoa
constitui um âmbito privilegiado para o encontro com o ser e,
consequentemente, com a reflexão metafísica.
Em toda a parte onde o homem descobre a presença
dum apelo ao absoluto e ao transcendente, lá se abre uma fresta para a dimensão
metafísica do real: na verdade, na beleza, nos valores morais, na pessoa do
outro, no ser, em Deus. Um grande desafio, que nos espera no final deste
milénio, é saber realizar a passagem, tão necessária como urgente, do fenómeno ao fundamento.
Não é possível deter-se simplesmente na experiência; mesmo quando esta
exprime e manifesta a interioridade do homem e a sua espiritualidade, é
necessário que a reflexão especulativa alcance a substância espiritual e o
fundamento que a sustenta. Portanto, um pensamento filosófico que rejeitasse
qualquer abertura metafísica, seria radicalmente inadequado para desempenhar
um papel de mediação na compreensão da Revelação.
A palavra de Deus alude continuamente a
realidades que ultrapassam a experiência e até mesmo o pensamento do homem;
mas, este « mistério » não poderia ser revelado, nem a teologia poderia de
modo algum torná-lo inteligível, 102 se o conhecimento humano se
limitasse exclusivamente ao mundo da experiência sensível. Por isso, a
metafísica constitui uma intermediária privilegiada na pesquisa teológica.
Uma teologia, privada do horizonte metafísico, não conseguiria chegar além da
análise da experiência religiosa, não permitindo ao intellectus
fidei exprimir coerentemente o valor universal e transcendente da
verdade revelada.
Se insisto tanto na componente metafísica, é
porque estou convencido de que este é o caminho obrigatório para superar a
situação de crise que aflige actualmente grandes sectores da filosofia e,
desta forma, corrigir alguns comportamentos errados, difusos na nossa sociedade.
84. A importância da instância metafísica
torna-se ainda mais evidente, quando se considera o progresso actual das
ciências hermenêuticas e das diferentes análises da linguagem. Os resultados
alcançados por estes estudos podem ser muito úteis para a compreensão da fé,
enquanto manifestam a estrutura do nosso pensar e falar, e o sentido presente
na linguagem. Existem, porém, especialistas destas ciências que tendem, nas
suas pesquisas, a deter-se no modo como se compreende e exprime a realidade,
prescindindo de verificar a possibilidade de a razão descobrir a essência da
mesma. Como não individuar neste comportamento uma confirmação da crise de
confiança, que a nossa época está a atravessar, acerca das capacidades da
razão? Além disso, quando estas teses, baseando-se em convicções
apriorísticas, tendem a ofuscar os conteúdos da fé ou a negar a sua validade
universal, então não só humilham a razão, mas colocam-se por si mesmas fora
de jogo. De facto, a fé pressupõe claramente que a linguagem humana seja
capaz de exprimir de modo universal — embora em termos analógicos, mas nem
por isso menos significativos — a realidade divina e transcendente. 103 Se assim não fosse, a palavra de
Deus, que é sempre palavra divina em linguagem humana, não seria capaz de
exprimir nada sobre Deus. A interpretação desta Palavra não pode remeter-nos
apenas de uma interpretação para outra, sem nunca nos fazer chegar a uma
afirmação absolutamente verdadeira; caso contrário, não haveria revelação de
Deus, mas só a expressão de noções humanas sobre Ele e sobre aquilo que
presumivelmente Ele pensa de nós.
85. Bem sei que, aos olhos de muitos dos que
actualmente se entregam à pesquisa filosófica, podem parecer árduas estas
exigências postas pela palavra de Deus à filosofia. Por isso mesmo, retomando
aquilo que, já há algumas gerações, os Sumos Pontífices não cessam de ensinar
e que o próprio Concílio Vaticano II confirmou, quero exprimir vigorosamente
a convicção de que o homem é capaz de alcançar uma visão unitária e orgânica
do saber. Esta é uma das tarefas que o pensamento cristão deverá assumir
durante o próximo milénio da era cristã. A subdivisão do saber, enquanto
comporta uma visão parcial da verdade com a consequente fragmentação do seu
sentido, impede a unidade interior do homem de hoje. Como poderia a Igreja
deixar de preocupar-se? Os Pastores recebem esta função sapiencial
directamente do Evangelho, e não podem eximir-se do dever de concretizá-la.
Considero que todos os que actualmente desejam
responder, como filósofos, às exigências que a palavra de Deus põe ao
pensamento humano, deveriam elaborar o seu raciocínio sobre a base destes
postulados, numa coerente continuidade com aquela grande tradição que,
partindo dos antigos, passa pelos Padres da Igreja e os mestres da
escolástica até chegar a englobar as conquistas fundamentais do pensamento
moderno e contemporâneo. Se conseguir recorrer a esta tradição e inspirar-se
nela, o filósofo não deixará de se mostrar fiel à exigência de autonomia do
pensamento filosófico.
Neste sentido, é muito importante que, no
contexto actual, alguns filósofos se façam promotores da descoberta do papel
determinante que tem a tradição para uma forma correcta de conhecimento. De
facto, o recurso à tradição não é uma mera lembrança do passado; mas
constitui sobretudo o reconhecimento dum património cultural que pertence a
toda a humanidade. Poder-se-ia mesmo dizer que somos nós que pertencemos à
tradição, e por isso não podemos dispor dela a nosso bel-prazer. É
precisamente este enraizamento na tradição que hoje nos permite poder
exprimir um pensamento original, novo e aberto para o futuro. Esta observação
é ainda mais pertinente para a teologia, não só porque ela possui a Tradição
viva da Igreja como fonte originária, 104 mas também porque ela, em virtude
disso mesmo, deve ser capaz de recuperar quer a profunda tradição teológica
que marcou as épocas precedentes, quer a tradição perene daquela filosofia
que, pela sua real sabedoria, conseguiu superar as fronteiras do espaço e do
tempo.
86. A insistência sobre a necessidade duma
estreita relação de continuidade entre a reflexão filosófica actual e a
reflexão elaborada na tradição cristã visa prevenir do perigo que se esconde
em algumas correntes de pensamento, hoje particularmente difusas. Embora
brevemente, considero oportuno deter-me sobre elas, para pôr em relevo os
seus erros e consequentes riscos para a actividade filosófica.
A primeira aparece sob o nome de ecletismo,
termo com o qual se designa o comportamento de quem, na pesquisa, na doutrina
e na argumentação, mesmo teológica, costuma assumir ideias tomadas
isoladamente de distintas filosofias, sem se preocupar com a sua coerência e
conexão sistemática, nem com o seu contexto histórico. Deste modo, a pessoa
fica impossibilitada de discernir entre a parte de verdade dum pensamento e
aquilo que nele pode ser errado ou inadequado. Também é possível individuar
uma forma extrema de ecletismo no abuso retórico dos termos filosóficos, às
vezes praticado por alguns teólogos. Este género de instrumentalização não
favorece a busca da verdade, nem educa a razão — tanto teológica, como
filosófica — a argumentar de forma séria e científica. O estudo rigoroso e
profundo das doutrinas filosóficas, da linguagem que lhes é peculiar, e do
contexto onde surgiram, ajuda a superar os riscos do ecletismo e permite uma
adequada integração daquelas na argumentação teológica.
87. O ecletismo é um erro de método, mas poderia
também ocultar em si as teses próprias dohistoricismo. Para
compreender correctamente uma doutrina do passado, é necessário que esteja
inserida no seu contexto histórico e cultural. Diversamente, o historicismo
toma como sua tese fundamental estabelecer a verdade duma filosofia com base
na sua adequação a um determinado período e função histórica. Deste modo
nega-se, pelo menos implicitamente, a validade perene da verdade. O que era
verdade numa época, afirma o historicista, pode já não sê-lo noutra. Em
resumo, a história do pensamento, para ele, reduz-se a uma espécie de achado
arqueológico, a que recorre a fim de pôr em evidência posições do passado, em
grande parte já superadas e sem significado para o tempo presente. Ora,
apesar de a formulação estar de certo modo ligada ao tempo e à cultura,
deve-se considerar que a verdade ou o erro nela expressos podem ser, não
obstante a distância espácio-temporal, reconhecidos e avaliados como tais.
Na reflexão teológica, o historicismo tende a
maior parte das vezes a apresentar-se sob uma forma de « modernismo ». Com a
justa preocupação de tornar o discurso teológico actual e assimilável para o
homem contemporâneo, faz-se apenas uso das asserções e termos filosóficos
mais recentes, descuidando exigências críticas que, à luz da tradição,
dever-se-iam eventualmente colocar. Esta forma de modernismo, pelo simples
facto de trocar a actualidade pela verdade, revela-se incapaz de satisfazer
as exigências de verdade a que a teologia é chamada a dar resposta.
88. Outro perigo a ser considerado é o cientificismo.
Esta concepção filosófica recusa-se a admitir, como válidas, formas de
conhecimento distintas daquelas que são próprias das ciências positivas,
relegando para o âmbito da pura imaginação tanto o conhecimento religioso e
teológico, como o saber ético e estético. No passado, a mesma ideia aparecia
expressa no positivismo e no neopositivismo, que consideravam destituídas de
sentido as afirmações de carácter metafísico. A crítica epistemológica
desacreditou esta posição; mas, vemo-las agora renascer sob as novas vestes
do cientificismo. Na sua perspectiva, os valores são reduzidos a simples
produtos da emotividade, e a noção de ser é posta de lado para dar lugar ao
facto puro e simples. A ciência, prepara-se assim para dominar todos os
aspectos da existência humana, através do progresso tecnológico. Os sucessos
inegáveis no âmbito da pesquisa científica e da tecnologia contemporânea
contribuíram para a difusão da mentalidade cientificista, que parece não
conhecer fronteiras, quando vemos como penetrou nas diversas culturas e as
mudanças radicais que aí provocou.
Infelizmente, deve-se constatar que o
cientificismo considera tudo o que se refere à questão do sentido da vida
como fazendo parte do domínio do irracional ou da fantasia. Ainda mais
decepcionante é a perspectiva apresentada por esta corrente de pensamento a
respeito dos outros grandes problemas da filosofia que, quando não passam
simplesmente ignorados, são analisados com base em analogias superficiais,
destituídas de fundamentação racional. Isto leva ao empobrecimento da
reflexão humana, subtraindo-lhe aqueles problemas fundamentais que o animal
rationale se tem colocado constantemente, desde o início da sua
existência sobre a terra. Na mesma linha, ao pôr de lado a crítica que nasce
da avaliação ética, a mentalidade cientificista conseguiu fazer com que
muitos aceitassem a ideia de que aquilo que se pode realizar tecnicamente,
torna-se por isso mesmo também moralmente admissível.
89. Portador de perigos não menores é o pragmatismo,
atitude mental própria de quem, ao fazer as suas opções, exclui o recurso a
reflexões abstractas ou a avaliações fundadas sobre princípios éticos. As
consequências práticas, que derivam desta linha de pensamento, são notáveis.
De modo particular, tem vindo a ganhar terreno uma concepção da democracia
que não contempla o referimento a fundamentos de ordem axiológica e, por isso
mesmo, imutáveis: a admissibilidade, ou não, de determinado comportamento é
decidida com base no voto da maioria parlamentar. 105 A consequência de semelhante
posição é clara: as grandes decisões morais do homem ficam efectivamente
subordinadas às deliberações que os órgãos institucionais vão assumindo pouco
a pouco. Mais, a própria antropologia fica fortemente condicionada com a
proposta duma visão unidimensional do ser humano, da qual se excluem os
grandes dilemas éticos e as análises existenciais sobre o sentido do
sofrimento e do sacrifício, da vida e da morte.
90. As teses examinadas até aqui conduzem, por
sua vez, a uma concepção mais geral, que parece constituir, hoje, o horizonte
comum de muitas filosofias que não querem saber do sentido do ser. Estou a
referir-me à leitura niilista, que é a rejeição de qualquer fundamento e
simultaneamente a negação de toda a verdade objectiva. O niilismo,
antes mesmo de estar em contraste com as exigências e os conteúdos próprios
da palavra de Deus, é negação da humanidade do homem e também da sua
identidade. De facto, é preciso ter em conta que o olvido do ser implica
inevitavelmente a perda de contacto com a verdade objectiva e,
consequentemente, com o fundamento sobre o qual se apoia a dignidade do
homem. Deste modo, abre-se espaço à possibilidade de apagar, da face do homem,
os traços que revelam a sua semelhança com Deus, conduzindo-o
progressivamente a uma destrutiva ambição de poder ou ao desespero da
solidão. Uma vez que se privou o homem da verdade, é pura ilusão pretender
torná-lo livre. Verdade e liberdade, com efeito, ou caminham juntas, ou
juntas miseravelmente perecem. 106
91. Ao comentar as correntes de pensamento acima
lembradas, não foi minha intenção apresentar um quadro completo da situação
actual da filosofia: aliás, esta dificilmente poderia ser integrada numa
visão unitária. Faço questão de assinalar que a herança do saber e da
sabedoria se enriqueceu efectivamente em diversos campos. Basta citar a
lógica, a filosofia da linguagem, a epistemologia, a filosofia da natureza, a
antropologia, a análise profunda das vias afectivas do conhecimento, a
perspectiva existencial aplicada à análise da liberdade. Por outro lado, a afirmação
do princípio de imanência, que está no âmago da pretensão racionalista,
suscitou, a partir do século passado, reacções que levaram a pôr radicalmente
em questão postulados considerados indiscutíveis. Nasceram assim correntes
irracionalistas, ao mesmo tempo que a crítica punha em evidência a
inutilidade da exigência de auto-fundamentação absoluta da razão.
A nossa época foi definida por certos pensadores
como a época da « pós-modernidade ». Este termo, não raramente usado em
contextos muito distanciados entre si, designa a aparição de um conjunto de
factores novos, que, pela sua extensão e eficácia, se revelaram capazes de
determinar mudanças significativas e duradouras. Assim, o termo foi
primeiramente usado no campo de fenómenos de ordem estética, social,
tecnológica. Depois, estendeu-se ao âmbito filosófico, permanecendo, porém,
marcado por certa ambiguidade, quer porque a avaliação do que se define como
« pós-moderno » é umas vezes positivo e outras negativo, quer porque não
existe consenso sobre o delicado problema da delimitação das várias épocas
históricas. Uma coisa, todavia, é certa: as correntes de pensamento que fazem
referência à pós-modernidade merecem adequada atenção. Segundo algumas delas,
de facto, o tempo das certezas teria irremediavelmente passado, o homem
deveria finalmente aprender a viver num horizonte de ausência total de
sentido, sob o signo do provisório e do efémero. Muitos autores, na sua
crítica demolidora de toda a certeza e ignorando as devidas distinções,
contestam inclusivamente as certezas da fé.
De algum modo, este niilismo encontra confirmação
na terrível experiência do mal que caracterizou a nossa época. O optimismo
racionalista que via na história o avanço vitorioso da razão, fonte de
felicidade e de liberdade, não pôde resistir face à dramaticidade de tal
experiência, a ponto de uma das maiores ameaças, neste final de século, ser a
tentação do desespero.
Verdade é que uma certa mentalidade positivista
continua a defender a ilusão de que, graças às conquistas científicas e
técnicas, o homem, como se fosse um demiurgo, poderá chegar por si mesmo a
garantir o domínio total do seu destino.
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2. Tarefas actuais da teologia
92. Enquanto compreensão da Revelação, a
teologia, nas sucessivas épocas históricas, sempre sentiu como próprio dever
escutar as solicitações das várias culturas, para permeá-las depois, através
duma coerente conceptualização, com o conteúdo da fé. Também hoje lhe compete
uma dupla tarefa. Por um lado, deve cumprir a missão que o Concílio Vaticano
II lhe confiou: renovar as suas metodologias, tendo em vista um serviço mais
eficaz à evangelização. Nesta perspectiva, como não pensar às palavras
pronunciadas pelo Sumo Pontífice João XXIII, na abertura do Concílio? Dizia
ele: « Correspondendo à viva expectativa de quantos amam sinceramente a
religião cristã, católica e apostólica, é necessário que esta doutrina seja
conhecida mais ampla e profundamente e que nela sejam instruídas e formadas
mais plenamente as consciências; é preciso que esta doutrina certa e
imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e apresentada
segundo as exigências do nosso tempo ». 107
Mas, por outro lado, a teologia deve manter o
olhar fixo sobre a verdade última que lhe foi confiada por meio da Revelação,
não se contentando nem se detendo em etapas intermédias. O teólogo recorde-se
de que o seu trabalho corresponde « ao dinamismo interior próprio da fé » e que
o objecto específico da sua indagação é « a Verdade, o Deus vivo e o seu
desígnio de salvação revelado em Jesus Cristo ». 108 Esta tarefa, que diz respeito em
primeiro lugar à teologia, interpela também a filosofia. De facto, a
quantidade imensa de problemas, que hoje aparece, requer um trabalho comum,
embora desenvolvido com metodologias diversas, para que a verdade possa
novamente ser conhecida e anunciada. A Verdade, que é Cristo, impõe-se como
autoridade universal que rege, estimula e faz crescer (cf. Ef 4,
15) tanto a teologia como a filosofia.
O facto de acreditar na possibilidade de se
conhecer uma verdade universalmente válida não é de forma alguma fonte de
intolerância; pelo contrário, é condição necessária para um diálogo sincero e
autêntico entre as pessoas. Só com esta condição será possível superar as
divisões e percorrer juntos o caminho que conduz à verdade total, seguindo
por sendas que só Espírito do Senhor ressuscitado conhece. 109 O modo como se configura hoje
concretamente a exigência de unidade, tendo em vista as tarefas actuais da
teologia, é o que desejo agora indicar.
93. O objectivo fundamental, que a teologia
persegue, é apresentar a compreensão da Revelação e o conteúdo da fé.
Assim, o verdadeiro centro da sua reflexão há-de ser a contemplação do
próprio mistério de Deus Uno e Trino. E a este chega-se reflectindo sobre o
mistério da encarnação do Filho de Deus: sobre o facto de Ele Se fazer homem
e, depois, caminhar até à paixão e à morte, mistério este que desembocará na
sua gloriosa ressurreição e ascensão à direita do Pai, donde enviará o
Espírito de verdade para constituir e animar a sua Igreja. Neste horizonte, a
obrigação primeira da teologia é a compreensão da kenosi de Deus,
mistério verdadeiramente grande para a mente humana, porque lhe parece
insustentável que o sofrimento e a morte possam exprimir o amor que se dá sem
pedir nada em troca. Nesta perspectiva, impõe-se como exigência fundamental e
urgente uma análise atenta dos textos: os textos bíblicos primeiro, e depois
os que exprimem a Tradição viva da Igreja. A este respeito, surgem hoje
alguns problemas, novos só em parte, cuja solução coerente não poderá ser
encontrada sem o contributo da filosofia.
94. Um primeiro aspecto problemático refere-se à
relação entre o significado e a verdade. Como qualquer outro texto, também as
fontes que o teólogo interpreta transmitem, antes de mais, um significado,
que tem de ser individuado e exposto. Ora, este significado apresenta-se como
a verdade acerca de Deus, que é comunicada pelo próprio Deus por meio do
texto sagrado. Assim, a linguagem de Deus toma corpo na linguagem humana,
comunicando a verdade sobre Ele mesmo com aquela « condescendência »
admirável que reflecte a lógica da Encarnação. 110 Por isso, ao interpretar as fontes
da Revelação, é necessário que o teólogo se interrogue sobre qual seja a
verdade profunda e genuína que os textos querem comunicar, embora dentro dos
limites da linguagem.
Quanto aos textos bíblicos, e em particular os
Evangelhos, a sua verdade não se reduz seguramente à narração de simples
acontecimentos históricos ou à revelação de factos neutros, como pretendia o
positivismo historicista. 111 Pelo contrário, esses textos expõem
acontecimentos, cuja verdade está para além da mera ocorrência histórica:
está no seu significado para e dentro da história
da salvação. Esta verdade adquire a sua plena explicitação na leitura perene
que a Igreja faz dos referidos textos ao longo dos séculos, mantendo
inalterado o seu significado originário. Portanto, é urgente que se
interroguem, filosoficamente também, sobre a relação que há entre o facto e o
seu significado; relação essa que constitui o sentido específico da história.
95. A palavra de Deus não se destina apenas a um
povo ou só a uma época. De igual modo, também os enunciados dogmáticos
formulam uma verdade permanente e definitiva, ainda que às vezes se possa
notar neles a cultura do período em que foram definidos. Surge, assim, a pergunta
sobre como seja possível conciliar o carácter absoluto e universal da verdade
com o inevitável condicionamento histórico e cultural das fórmulas que a
exprimem. Como disse anteriormente, as teses do historicismo não são
defendíveis. Pelo contrário, a aplicação duma hermenêutica aberta à questão
metafísica é capaz de mostrar como se passa das circunstâncias históricas e
contingentes, onde maturaram os textos, à verdade por eles expressa que está
para além desses condicionalismos.
Com a sua linguagem histórica e limitada, o homem
pode exprimir verdades que transcendem o fenómeno linguístico. De facto, a
verdade nunca pode estar limitada a um tempo, nem a uma cultura; é conhecida
na história, mas supera a própria história.
96. Esta consideração permite vislumbrar a
solução de outro problema: o da perene validade dos conceitos usados nas
definições conciliares. Já o meu venerado Predecessor Pio XII enfrentara a
questão, na carta encíclica Humani generis. 112
A reflexão sobre este assunto não é fácil, porque
tem-se de atender cuidadosamente ao sentido que as palavras adquirem nas
diversas culturas e nas diferentes épocas. Entretanto, a história do
pensamento mostra que certos conceitos básicos mantêm, através da evolução e
da variedade das culturas, o seu valor cognoscitivo universal e,
consequentemente, a verdade das proposições que os exprimem. 113 Se assim não fosse, a filosofia e
as ciências não poderiam comunicar entre si, nem ser recebidas por culturas
diferentes daquelas onde foram pensadas e elaboradas. O problema hermenêutico
é real, mas tem solução. O valor objectivo de muitos conceitos não exclui,
aliás, que o seu significado frequentemente seja imperfeito. A reflexão
filosófica poderia ser de grande ajuda neste campo. Possa ela prestar o seu
contributo particular no aprofundamento da relação entre linguagem conceptual
e verdade, e na proposta de caminhos adequados para uma sua correcta
compreensão.
97. Se uma tarefa importante da teologia é a
interpretação das fontes, mais delicado e exigente ainda é o trabalho
seguinte: a compreensão da verdade revelada, ou seja, a
elaboração do intellectus fidei. Como já aludi, o intellectus
fidei requer o contributo duma filosofia do ser que, antes de mais,
permita à teologia dogmática realizar adequadamente as suas
funções. O pragmatismo dogmático dos inícios deste século, segundo o qual as
verdades da fé nada mais seriam do que regras de comportamento, foi já
refutado e rejeitado; 114 apesar disso, persiste sempre a
tentação de compreender estas verdades de forma puramente funcional. Neste
caso, cair-se-ia num esquema inadequado, redutivo e desprovido da necessária
incisividade especulativa. Por exemplo, uma cristologia que partisse
unilateralmente « de baixo », como hoje se costuma dizer, ou uma eclesiologia
elaborada unicamente a partir do modelo das sociedades civis dificilmente
poderiam evitar o perigo de tal reducionismo.
Se o intellectus fidei quer
integrar toda a riqueza da tradição teológica, tem de recorrer à filosofia do
ser. Esta deverá ser capaz de propor o problema do ser segundo as exigências
e as contribuições de toda a tradição filosófica, incluindo a mais recente,
evitando cair em estéreis repetições de esquemas antiquados. No quadro da
tradição metafísica cristã, a filosofia do ser é uma filosofia dinâmica que
vê a realidade nas suas estruturas ontológicas, causais e inter-relacionais.
A sua força e perenidade derivam do facto de se basear precisamente sobre o
acto do ser, o que lhe permite uma abertura plena e global a toda a
realidade, superando todo e qualquer limite até alcançar Aquele que tudo leva
à perfeição. 115 Na teologia, que recebe os seus
princípios da Revelação como nova fonte de conhecimento, esta perspectiva é
confirmada através da relação íntima entre fé e racionalidade metafísica.
98. Idênticas considerações podem ser feitas a
propósito da teologia moral. A recuperação da filosofia é urgente
também para a compreensão da fé que diz respeito ao agir dos crentes. Diante
dos desafios que se levantam actualmente no campo social, económico, político
e científico, a consciência ética do homem desorientou-se. Na carta
encíclica Veritatis splendor, pus em evidência que muitos
problemas do mundo contemporâneo derivam de uma « crise em torno da verdade.
Perdida a ideia duma verdade universal sobre o bem, cognoscível pela razão
humana, mudou também inevitavelmente a concepção de consciência: esta deixa
de ser considerada na sua realidade original, ou seja, como um acto da
inteligência da pessoa, a quem cabe aplicar o conhecimento universal do bem a
uma determinada situação e exprimir assim um juízo sobre a conduta justa a
ter aqui e agora; tende-se a conceder à consciência do indivíduo o privilégio
de estabelecer autonomamente os critérios do bem e do mal, e de agir em
consequência. Esta visão identifica-se com uma ética individualista, na qual
cada um se vê confrontado com a sua verdade, diferente da verdade dos outros
». 116
Ao longo de toda a encíclica agora citada,
sublinhei claramente o papel fundamental que compete à verdade no campo da
moral. Ora esta verdade, na maior parte dos problemas éticos mais urgentes,
requer, da teologia moral, uma cuidadosa reflexão que saiba pôr em evidência
as suas raízes na palavra de Deus. Para poder desempenhar esta sua missão, a
teologia moral deve recorrer a uma ética filosófica que tenha em vista a
verdade do bem, isto é, uma ética que não seja subjectivista nem
utilitarista. Tal ética implica e pressupõe uma antropologia filosófica e uma
metafísica do bem. A teologia moral, valendo-se desta visão unitária que está
necessariamente ligada à santidade cristã e à prática das virtudes humanas e
sobrenaturais, será capaz de enfrentar os vários problemas que lhe dizem
respeito — tais como a paz, a justiça social, a família, a defesa da vida e
do ambiente natural — de forma mais adequada e eficaz.
99. Na Igreja, o trabalho teológico está,
primariamente, ao serviço do anúncio da fé e da catequese.117 O anúncio, ou querigma, chama à
conversão, propondo a verdade de Cristo que tem o seu ponto culminante no
Mistério Pascal: na verdade, só em Cristo é possível conhecer a plenitude da
verdade que salva (cf. Act 4, 12; 1 Tim 2,
4-6).
Neste contexto, é fácil compreender a razão por
que, além da teologia, assuma também grande relevo a referência à catequese:
é que esta possui implicações filosóficas que têm de ser aprofundadas à luz
da fé. A doutrina ensinada na catequese pretende formar a pessoa. Por isso a
catequese, que é também comunicação linguística, deve apresentar a doutrina
da Igreja na sua integridade, 118 mostrando a ligação que ela tem com
a vida dos crentes. 119 Realiza-se, assim, uma singular
união entre doutrina e vida, que é impossível conseguir de outro modo. De
facto, aquilo que se comunica na catequese não é um corpo de verdades
conceptuais, mas o mistério do Deus vivo.120
A reflexão filosófica muito pode contribuir para
esclarecer a relação entre verdade e vida, entre acontecimento e verdade
doutrinal, e sobretudo a relação entre verdade transcendente e linguagem
humanamente inteligível. 121 A reciprocidade que se cria entre
as disciplinas teológicas e os resultados alcançados pelas diversas correntes
filosóficas, pode traduzir-se numa real fecundidade para a comunicação da fé
e para uma sua compreensão mais profunda.
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CONCLUSÃO
100. Passados mais de cem anos da publicação da
encíclica Æterni Patris de Leão XIII, à qual me referi
várias vezes nestas páginas, pareceu-me necessário abordar novamente e de
forma mais sistemática o discurso sobre o tema da relação entre a fé e a
filosofia. É óbvia a importância que o pensamento filosófico tem no progresso
das culturas e na orientação dos comportamentos pessoais e sociais. Embora
isso nem sempre se note de forma explícita, ele exerce também uma grande
influência sobre a teologia e suas diversas disciplinas. Por estes motivos,
considerei justo e necessário sublinhar o valor que a filosofia tem para a
compreensão da fé, e as limitações em que aquela se vê, quando esquece ou
rejeita as verdades da Revelação. De facto, a Igreja continua profundamente
convencida de que fé e razão « se ajudam mutuamente », 122 exercendo, uma em prol da outra, a
função tanto de discernimento crítico e purificador, como de estímulo para
progredir na investigação e no aprofundamento.
101. Se detivermos o nosso olhar sobre a história
do pensamento, sobretudo no Ocidente, é fácil constatar a riqueza que
sobreveio, para o progresso da humanidade, do encontro da filosofia com a
teologia e do intercâmbio das suas respectivas conquistas. A teologia, que
recebeu o dom duma abertura e originalidade que lhe permite existir como
ciência da fé, fez seguramente com que a razão permanecesse aberta diante da
novidade radical que a revelação de Deus traz consigo. E isto foi, sem dúvida
alguma, uma vantagem para a filosofia, que, assim, viu abrirem-se novos
horizontes apontando para sucessivos significados que a razão está chamada a
aprofundar.
Precisamente à luz desta constatação, tal como
reafirmei o dever que tem a teologia de recuperar a sua genuína relação com a
filosofia, da mesma forma sinto a obrigação de sublinhar que é conveniente
para o bem e o progresso do pensamento que também a filosofia recupere a sua
relação com a teologia. Nesta, encontrará não a reflexão dum mero indivíduo,
que, embora profunda e rica, sempre traz consigo as limitações de perspectiva
próprias do pensamento de um só, mas a riqueza duma reflexão comum. De facto,
quando indaga sobre a verdade, a teologia, por sua natureza, é sustentada
pela nota da eclesialidade 123 e pela tradição do Povo de Deus,
com sua riqueza multiforme de conhecimentos e de culturas na unidade da fé.
102. Com tal insistência sobre a importância e as
autênticas dimensões do pensamento filosófico, a Igreja promove a defesa da
dignidade humana e, simultaneamente, o anúncio da mensagem evangélica. Ora,
para estas tarefas, não existe, hoje, preparação mais urgente do que esta:
levar os homens à descoberta da sua capacidade de conhecer a verdade 124 e do seu anseio pelo sentido último
e definitivo da existência. À luz destas exigências profundas, inscritas por
Deus na natureza humana, aparece mais claro também o significado humano e
humanizante da palavra de Deus. Graças à mediação de uma filosofia que se
tornou também verdadeira sabedoria, o homem contemporâneo chegará a
reconhecer que será tanto mais homem quanto mais se abrir a Cristo,
acreditando no Evangelho.
103. Além disso, a filosofia é como que o espelho
onde se reflecte a cultura dos povos. Uma filosofia que se desenvolve de
harmonia com a fé aceitando o estímulo das exigências teológicas, faz parte
daquela « evangelização da cultura » que Paulo VI propôs como um dos
objectivos fundamentais da evangelização. 125 Pensando na nova
evangelização, cuja urgência não me canso de recordar, faço apelo
aos filósofos para que saibam aprofundar aquelas dimensões de verdade, bem e
beleza, a que dá acesso a palavra de Deus. Isto torna-se ainda mais urgente,
ao considerar os desafios que o novo milénio parece trazer consigo: eles
tocam de modo particular as regiões e as culturas de antiga tradição cristã.
Este cuidado deve considerar-se também um contributo fundamental e original
para o avanço da nova evangelização.
104. O pensamento filosófico é frequentemente o
único terreno comum de entendimento e diálogo com quem não partilha a nossa fé.
O movimento filosófico contemporâneo exige o empenhamento solícito e
competente de filósofos crentes que sejam capazes de individuar as
expectativas, possibilidades e problemáticas deste momento histórico.
Discorrendo à luz da razão e segundo as suas regras, o filósofo cristão,
sempre guiado naturalmente pela leitura superior que lhe vem da palavra de
Deus, pode criar uma reflexão que seja compreensível e sensata mesmo para
quem ainda não possua a verdade plena que a revelação divina manifesta. Este
terreno comum de entendimento e diálogo é ainda mais importante hoje, se se
pensa que os problemas mais urgentes da humanidade — como, por exemplo, o
problema ecológico, o problema da paz ou da convivência das raças e das
culturas — podem ter solução à luz duma colaboração clara e honesta dos
cristãos com os fiéis doutras religiões e com todos os que, mesmo não
aderindo a qualquer crença religiosa, têm a peito a renovação da humanidade.
Afirmou-o o Concílio Vaticano II: « Por nossa parte, o desejo de um tal diálogo,
guiado apenas pelo amor pela verdade e com a necessária prudência, não exclui
ninguém: nem aqueles que cultivam os altos valores do espírito humano, sem
ainda conhecerem o seu Autor, nem aqueles que se opõem à Igreja e, de várias
maneiras, a perseguem ». 126 Uma filosofia, na qual já
resplandeça algo da verdade de Cristo, única resposta definitiva aos
problemas do homem, 127será um apoio eficaz para aquela ética
verdadeira e simultaneamente universal de que, hoje, a humanidade tem
necessidade.
105. Não posso concluir esta carta encíclica sem
dirigir um último apelo, em primeiro lugar aosteólogos, para que
prestem particular atenção às implicações filosóficas da palavra de Deus e
realizem uma reflexão onde sobressaia a densidade especulativa e prática da
ciência teológica. Desejo agradecer-lhes o seu serviço eclesial. A estrita
conexão entre a sabedoria teológica e o saber filosófico é uma das riquezas
mais originais da tradição cristã no aprofundamento da verdade revelada. Por isso,
exorto-os a recuperarem e a porem em evidência o melhor possível a dimensão
metafísica da verdade, para desse modo entrarem num diálogo crítico e
exigente quer com o pensamento filosófico contemporâneo, quer com toda a
tradição filosófica, esteja esta em sintonia ou contradição com a palavra de
Deus. Tenham sempre presente a indicação dum grande mestre do pensamento e da
espiritualidade, S. Boaventura, que, ao introduzir o leitor na sua obra Itinerarium
mentis in Deum, convidava-o a ter consciência de que « a leitura não é
suficiente sem a compunção, o conhecimento sem a devoção, a investigação sem
o arrebatamento do enlevo, a prudência sem a capacidade de abandonar-se à
alegria, a actividade separada da religiosidade, o saber separado da
caridade, a inteligência sem a humildade, o estudo sem o suporte da graça
divina, a reflexão sem a sabedoria inspirada por Deus ». 128
Dirijo o meu apelo também a quantos têm a responsabilidade
da formação sacerdotal, tanto académica como pastoral, para que cuidem,
com particular atenção, da preparação filosófica daquele que deverá anunciar
o Evangelho ao homem de hoje, e mais ainda se se vai dedicar à investigação e
ao ensino da teologia. Procurem organizar o seu trabalho à luz das
prescrições do Concílio Vaticano II 129 e sucessivas determinações, que
mostram a tarefa indeclinável e urgente, que cabe a todos nós, de contribuir
para uma genuína e profunda comunicação das verdades da fé. Não se esqueça a
grave responsabilidade de uma preparação prévia e condigna do corpo docente,
destinado ao ensino da filosofia nos Seminários e nas Faculdades
Eclesiásticas. 130 É necessário que uma tal docência
possua a conveniente preparação científica, proponha de maneira sistemática o
grande património da tradição cristã, e seja efectuada com o devido
discernimento face às exigências actuais da Igreja e do mundo.
106. O meu apelo dirige-se ainda aos filósofos e
a quantos ensinam a filosofia, para que, na esteira duma tradição
filosófica perenemente válida, tenham a coragem de recuperar as dimensões de
autêntica sabedoria e de verdade, inclusive metafísica, do pensamento
filosófico. Deixem-se interpelar pelas exigências que nascem da palavra de
Deus, e tenham a força de elaborar o seu discurso racional e argumentativo de
resposta a tal interpelação. Vivam em permanente tensão para a verdade e
atentos ao bem que existe em tudo o que é verdadeiro. Poderão, assim,
formular aquela ética genuína de que a humanidade tem urgente necessidade,
sobretudo nestes anos. A Igreja acompanha com atenção e simpatia as suas
investigações; podem, pois, estar seguros do respeito que ela nutre pela justa
autonomia da sua ciência. De modo particular, quero encorajar os crentes
empenhados no campo da filosofia para que iluminem os diversos âmbitos da
actividade humana, graças ao exercício de uma razão que se torna mais segura
e perspicaz com o apoio que recebe da fé.
Não posso, enfim, deixar de dirigir uma palavra
também aos cientistas, que nos proporcionam, com as suas
pesquisas, um conhecimento sempre maior do universo inteiro e da variedade
extraordinariamente rica dos seus componentes, animados e inanimados, com
suas complexas estruturas de átomos e moléculas. O caminho por eles realizado
atingiu, especialmente neste século, metas que não cessam de nos maravilhar.
Ao exprimir a minha admiração e o meu encorajamento a estes valorosos
pioneiros da pesquisa científica, a quem a humanidade muito deve do seu
progresso actual, sinto o dever de exortá-los a prosseguir nos seus esforços,
permanecendo sempre naquele horizonte sapiencial onde aos
resultados científicos e tecnológicos se unem os valores filosóficos e
éticos, que são manifestação característica e imprescindível da pessoa
humana. O cientista está bem cônscio de que « a busca da verdade, mesmo
quando se refere a uma realidade limitada do mundo ou do homem, jamais
termina; remete sempre para alguma coisa que está acima do objecto imediato
dos estudos, para os interrogativos que abrem o acesso ao Mistério ». 131
107. A todos peço para se
debruçarem profundamente sobre o homem, que Cristo salvou no mistério do seu
amor, e sobre a sua busca constante de verdade e de sentido. Iludindo-o,
vários sistemas filosóficos convenceram-no de que ele é senhor absoluto de si
mesmo, que pode decidir autonomamente sobre o seu destino e o seu futuro,
confiando apenas em si próprio e nas suas forças. Ora, esta nunca poderá ser
a grandeza do homem. Para a sua realização, será determinante apenas a opção
de viver na verdade, construindo a própria casa à sombra da Sabedoria e nela
habitando. Só neste horizonte da verdade poderá compreender, com toda a
clareza, a sua liberdade e o seu chamamento ao amor e ao conhecimento de Deus
como suprema realização de si mesmo.
108. Por último, o meu pensamento dirige-se para
Aquela que a oração da Igreja invoca como Sede da Sabedoria. A
sua vida é uma verdadeira parábola, capaz de iluminar a reflexão que
desenvolvi. De facto, pode-se entrever uma profunda analogia entre a vocação
da bem-aventurada Virgem Maria e a vocação da filosofia genuína. Como a
Virgem foi chamada a oferecer toda a sua humanidade e feminilidade para que o
Verbo de Deus pudesse encarnar e fazer-Se um de nós, também a filosofia é
chamada a dar o seu contributo racional e crítico para que a teologia,
enquanto compreensão da fé, seja fecunda e eficaz. E como Maria, ao prestar o
seu consentimento ao anúncio de Gabriel, nada perdeu da sua verdadeira
humanidade e liberdade, assim também o pensamento filosófico, quando acolhe a
interpelação que recebe da verdade do Evangelho, nada perde da sua autonomia,
antes vê toda a sua indagação elevada à mais alta realização. Os santos
monges da antiguidade cristã tinham compreendido bem esta verdade, quando
designavam Maria como « a mesa intelectual da fé ». 132 N'Ela, viam a imagem coerente da
verdadeira filosofia, e estavam convencidos de que deviam philosophari
in Maria.
Que a Sede da Sabedoria seja o porto seguro para
quantos consagram a sua vida à procura da sabedoria! O caminho para a
sabedoria, fim último e autêntico de todo o verdadeiro saber, possa ver-se
livre de qualquer obstáculo por intercessão d'Aquela que, depois de gerar a
Verdade e tê-La conservado no seu coração, comunicou-A para sempre à
humanidade inteira.
Dado em Roma, junto de S. Pedro, no dia 14 de
Setembro — Festa da Exaltação da Santa Cruz — de 1998, vigésimo ano de
Pontificado.
IOANNES PAULUS PP. II
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1 Na
minha primeira encíclica, a Redemptor hominis, já tinha escrito:
« Tornámo-nos participantes de tal missão de Cristo profeta, e, em virtude
desta mesma missão e juntamente com Ele, servimos a verdade divina na Igreja.
A responsabilidade por esta verdade implica também amá-la e procurar obter a
sua mais exacta compreensão, a fim de a tornarmos mais próxima de nós mesmos
e dos outros, com toda a sua força salvífica, com o seu esplendor, com a sua
profundidade e simultaneamente a sua simplicidade » [N. 19: AAS 71
(1979), 306].
3 Const.
dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 25.
4 N. 4: AAS 85 (1993), 1136. 5 Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a revelação divina Dei Verbum, 2. 6 Cf. Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius, III: DS 3008. 7 Ibid., IV: DS 3015; citado também em Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneoGaudium et spes, 59. 8 Const. dogm. sobre a revelação divina Dei Verbum, 2. 9 João Paulo II, Carta ap. Tertio millennio adveniente (10 de Novembro de 1994), 10: AAS 87 (1995), 11. 10 N. 4. 11 N. 8. 12 N. 22. 13 Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a revelação divina Dei Verbum, 4. 14 Ibid., 5. 15 O Concílio Vaticano I, ao qual se refere a sentença anteriormente citada, ensina que a obediência da fé exige o empenhamento da inteligência e da vontade: « Dado que o homem depende totalmente de Deus, enquanto seu Criador e Senhor, e a razão criada está submetida completamente à verdade incriada, somos obrigados, quando Deus Se revela, a prestar-Lhe, mediante a fé, a plena submissão da nossa inteligência e da nossa vontade » [Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius, III: DS 3008]. 16 Sequência, na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. 17 Pensées (ed. L. Brunschvicg), 789. 18 Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 22. 19 Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a revelação divina Dei Verbum, 2. 20 Proémio e nn. 1 e 15: PL 158, 223-224.226.235. 21 De vera religione, XXXIX, 72: CCL 32, 234. 22 « Ut te semper desiderando quærerent et inveniendo quiescerent »: Missale Romanum. 23 Aristóteles, Metafísica, I, 1. 24 Confessiones, X, 23, 33: CCL 27,173. 25 N. 34: AAS 85 (1993), 1161. 26 Cf. João Paulo II, Carta ap. Salvifici doloris (11 de Fevereiro de 1984), 9: AAS 76 (1984), 209-210. 27 Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decl. sobre a relação da Igreja com as religiões não-cristãs Nostra ætate, 2. 28 Desenvolvo, há muito tempo, esta argumentação, tendo-a expresso em diversas ocasiões: « "Quem é o homem, e para que serve? E que bem ou que mal pode ele fazer?" (Sir 18, 8) (...) Estas perguntas estão no coração de cada homem, como bem demonstra o génio poético de todos os tempos e de todos os povos, que, quase como profecia da humanidade, repropõe continuamente a séria pergunta que torna o homem verdadeiramente tal. Exprimem a urgência de encontrar um porquê da existência, de todos os seus instantes, tanto das suas etapas salientes e decisivas como dos seus momentos mais comuns. Em tais perguntas, é testemunhada a razão profunda da existência humana, pois nelas a inteligência e a vontade do homem são solicitadas a procurar livremente a solução capaz de oferecer um sentido pleno à vida. Estes interrogativos, portanto, constituem a expressão mais elevada da natureza do homem; por conseguinte, a resposta a eles mede a profundidade do seu empenho na própria existência. Em particular, quando o porquê das coisas é procurado a fundo em busca da resposta última e mais exauriente, então a razão humana atinge o seu vértice e abre-se à religiosidade. De facto, a religiosidade representa a expressão mais elevada da pessoa humana, porque é o ápice da sua natureza racional. Brota da profunda aspiração do homem à verdade, e está na base da busca livre e pessoal que ele faz do divino » [Alocução da Audiência Geral de quarta-feira, 19 de Outubro de 1983, 1-2: L'Osservatore Romano (ed. portuguesa, de 23 de Outubro de 1983), 12]. 29 « [Galileu] declarou explicitamente que as duas verdades, de fé e de ciência, não podem nunca contradizer-se, "procedendo igualmente do Verbo divino a Escritura santa e a natureza, a primeira como ditada pelo Espírito Santo, a segunda como executora fidelíssima das ordens de Deus", segundo ele escreveu na sua carta ao Padre Benedetto Castelli, a 21 de Dezembro de 1613. O Concílio Vaticano II não se exprime diferentemente; retoma mesmo expressões semelhantes, quando ensina: "A investigação metódica em todos os campos do saber, quando levada a cabo (...) segundo as normas morais, nunca será realmente
oposta à fé, já que as realidades profanas e as
da fé têm origem no mesmo Deus" (Gaudium et spes, 36). Galileu
manifesta, na sua investigação científica, a presença do Criador que o
estimula, que Se antecipa às suas intuições e as ajuda, operando no mais
profundo do seu espírito » [João Paulo II, Discurso à Pontifícia Academia das
Ciências, a 10 de Novembro de 1979: L'Osservatore Romano (ed.
portuguesa, de 25 de Novembro de 1979), 6].
30 Cf.
Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a revelação divina Dei Verbum,
4.
31 Orígenes, Contra Celso 3, 55: SC 136, 130. 32 Diálogo com Trifão, 8, 1: PG 6, 492. 33 Stromata I, 18, 90, 1: SC 30, 115. 34 Cf. ibid. I, 16, 80, 5: SC 30, 108. 35 Cf. ibid. I, 5, 28, 1: SC 30, 65. 36 Ibid., VI, 7, 55, 1-2: PG 9, 277. 37 Ibid., I, 20, 100, 1: SC 30, 124. 38 Santo Agostinho, Confessiones VI, 5, 7: CCL 27, 77-78. 39 Cf. ibid. VII, 9, 13-14: CCL 27, 101-102. 40 « Quid ergo Athenis et Hierosolymis? Quid academiæ et ecclesiæ? » [De præscriptione hereticorum, VII, 9: SC 46, 98]. 41 Cf. Congr. da Educação Católica, Instr. sobre o estudo dos Padres da Igreja na formação sacerdotal (10 de Novembro de 1989), 25: AAS 82 (1990), 617-618. 42 Santo Anselmo, Proslogion, 1: PL 158, 226. 43 Idem, Monologion, 64: PL 158, 210. 44 Cf. S. Tomás de Aquino, Summa contra gentiles, I, VII. 45 « Cum enim gratia non tollat naturam, sed perficiat » [Idem, Summa theologiæ, I, 1, 8 ad 2]. 46 Cf. João Paulo II, Discurso aos participantes no IX Congresso Tomista Internacional (29 de Setembro de 1990):L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 28 de Outubro de 1990), 9. 47 Carta ap. Lumen Ecclesiæ (20 de Novembro de 1974), 8: AAS 66 (1974), 680. 48 « Præterea, hæc doctrina per studium acquiritur. Sapientia autem per infusionem habetur, unde inter septem dona Spiritus Sancti connumeratur » [Summa theologiæ, I, 1, 6]. 49 Ibid., II, II, 45, 1 ad 2; cf. também II, II, 45, 2. 50 Ibid., I, II, 109, 1 ad 1, que cita a conhecida frase do Ambrosiaster, In prima Cor 12,3: PL 17, 258. 51 Leão XIII, Carta enc. ÆTERNI PATRIS (4 de Agosto de 1879): ASS 11 (1878-1879), 109. 52 Paulo VI, Carta ap. Lumen Ecclesiæ (20 de Novembro de 1974), 8: AAS 66 (1974), 683. 53 Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 15: AAS 71 (1979), 286. 54 Cf. Pio XII, Carta enc. Humani generis (12 de Agosto de 1950): AAS 42 (1950), 566. 55 Cf. Conc. Ecum. Vat. I, Primeira const. dogm. sobre a Igreja de Cristo Pastor TERNUS: DS 3070; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 25c. 56 Cf. Sínodo de Constantinopla, DS 403. 57 Cf. Concílio de Toledo I, DS 205; Concílio de Braga I, DS 459-460; Sisto V, Bula Cœli et terræ Creator (5 de Janeiro de 1586): Bullarium Romanum 44 (Roma, 1747), 176-179; Urbano VIII, Inscrutabilis iudiciorum(1 de Abril de 1631): Bullarium Romanum 61 (Roma, 1758), 268-270. 58 Cf. Conc. Ecum. de Viena, Decr. Fidei catholicæ: DS 902; Conc. Ecum. Lateranense V, Bula Apostolici regiminis: DS 1440. 59 Cf. Theses a Ludovico Eugenio Bautain iussu sui Episcopi subscriptæ (8 de Setembro de 1840): DS2751-2756; Theses a Ludovico Eugenio Bautain ex mandato S. Congr. Episcoporum et Religiosorum subscriptæ (26 de Abril de 1844): DS 2765-2769. 60 Cf. S. Congr. Indicis, Decr. Theses contra traditionalismum Augustini Bonnety (11 de Junho de 1855):DS 2811-2814. 61 Cf. Pio IX, Breve Eximiam tuam (15 de Junho de 1857): DS 2828-2831; Breve Gravissimas inter (11 de Dezembro de 1862): DS 2850-2861. 62 Cf. S. Congr. do Santo Ofício, Decr. Errores ontologistarum (18 de Setembro de 1861): DS 2841-2847. 63 Cf. Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius, II: DS 3004; e cân. 2-§1: DS 3026. 64 Ibid., IV: DS 3015, citado em Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneoGaudium et spes, 59. 65 Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius, IV: DS 3017. 66 Cf. Carta enc. Pascendi dominici gregis (8 de Setembro de 1907): ASS 40 (1907), 596-597. 67 Cf. Pio XI, Carta enc. Divini Redemptoris (19 de Março de 1937): AAS 29 (1937), 65-106. 68 Carta enc. Humani generis (12 de Agosto de 1950): AAS 42 (1950), 562-563. 69 Ibid.: o.c., 563-564. 70 Cf. João Paulo II, Const. ap. Pastor Bonus (28 de Junho de 1988) arts. 48-49: AAS 80 (1988), 873; Congr. da Doutrina da Fé, Instr. sobre a vocação eclesial do teólogo Donum veritatis (24 de Maio de 1990), 18: AAS82 (1990), 1558. 71 Cf. Instr. sobre alguns aspectos da « teologia da libertação » Libertatis nuntius (6 de Agosto de 1984), VII-X: AAS 76 (1984), 890-903. 72 Com sua palavra clara e de grande autoridade, o Concílio Vaticano I tinha já condenado este erro, ao afirmar, por um lado, que, « relativamente à fé (...), a Igreja Católica preconiza que é uma virtude sobrenatural pela qual, sob a inspiração divina e com a ajuda da graça, acreditamos que são verdadeiras as coisas por Ele reveladas, não por causa da verdade intrínseca das coisas percebida pela luz natural da razão, mas por causa da autoridade do próprio Deus que as revela, o qual não pode enganar-Se nem enganar » [Const. dogm. sobre a doutrina católica Dei Filius, III: DS 3008; e cân. 3-§ 2: DS 3032]. E, por outro lado, o Concílio declarava que a razão nunca « chega a ser capaz de penetrar [tais mistérios], nem as verdades que formam o seu objecto específico » [ibid., IV: DS 3016]. Daqui tirava a seguinte conclusão prática: « Os fiéis cristãos não só não têm o direito de defender, como legítimas conclusões da ciência, as opiniões reconhecidas contrárias à doutrina da fé, especialmente quando estão condenadas pela Igreja, mas são estritamente obrigados a considerá-las como erros, que apenas têm uma ilusória aparência de verdade » [ibid., IV: DS 3018]. 73 Cf. nn. 9-10. 74 Const. dogm. sobre a revelação divina Dei Verbum, 10. 75 Ibid., 21. 76 Cf. ibid., 10. 77 Cf. Carta enc. Humani generis (12 de Agosto de 1950): AAS 42 (1950), 565-567.571-573. 78 Cf. Carta enc. ÆTERNI PATRIS (4 de Agosto de 1879): ASS 11 (1878-1879), 97-115. 79 Ibid.: o.c., 109. 80 Cf. nn. 14-15. 81 Cf. ibid., 20-21. 82 Ibid., 22; cf. João Paulo II, Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 8: AAS 71 (1979), 271-272. 83 Decr. sobre a formação sacerdotal Optatam totius, 15. 84 Cf. João Paulo II, Const. ap. Sapientia christiana (15 de Abril de 1979), arts. 79-80: AAS 71 (1979), 495-496; Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de Março de 1992), 52: AAS 84 (1992), 750-751. Vejam-se também algumas reflexões sobre a filosofia de S. Tomás: Discurso na Pontifícia Universidade de S. Tomás (17 de Novembro de 1979): L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 25 de Novembro de 1979), 1; Discurso aos participantes no VIII Congresso Tomista Internacional (13 de Setembro de 1980): L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 28 de Setembro de 1980), 4; Discurso aos participantes no Congresso Internacional da Sociedade S. Tomás de Aquino sobre « A doutrina tomista da alma » (4 de Janeiro de 1986): L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 12 de Janeiro de 1986), 9. E ainda: S. Congr. da Educação Católica, Ratio fundamentalis institutionis sacerdotalis (6 de Janeiro de 1970), 70-75: AAS 62 (1970), 366-368; Decr. Sacra theologia (20 de Janeiro de 1972): AAS 64 (1972), 583-586. 85 Cf. Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 57.62. 86 Cf. ibid., 44. 87 Cf. Bula Apostolici regimini sollicitudo, Sessão VIII: Conc. Rcum. Decreta (1991), 605-606. 88 Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a revelação divina Dei Verbum, 10. 89 S. Tomás de Aquino, Summa theologiæ, II-II, 5, 3 ad 2. 90 « A busca das condições, nas quais o homem faz por si próprio as primeiras perguntas fundamentais acerca do sentido da vida, do fim que lhe deseja dar e daquilo que o espera depois da morte, constitui para a Teologia Fundamental o preâmbulo necessário, para que, também hoje, a fé possa mostrar plenamente o caminho a uma razão em busca sincera da verdade » [João Paulo II, Carta aos participantes no Congresso Internacional de Teologia Fundamental por ocasião do 125o aniversário da promulgação da Const. dogm. « Dei Filius » (30 de Setembro de 1995), 4: L'Osservatore Romano, (ed. portuguesa de 7 de Outubro de 1995), 10]. 91 Ibid., 4: o.c., 10. 92 Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 15; Decr. sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 22. 93 S. Tomás de Aquino, De Cœlo 1, 22. 94 Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 53-59. 95 S. Agostinho, De prædestinatione Sanctorum 2, 5: PL 44, 963. 96 Idem, De fide, spe et caritate, 7: CCL 64, 61. 97 Cf. Conc. Ecum. de Calcedónia, Symbolum, definitio: DS 302. 98 Cf. João Paulo II, Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 15: AAS 71 (1979), 286-289. 99 Veja-se, por exemplo, S. Tomás de Aquino, Summa theologiæ, I, 16, 1; S. Boaventura, Coll. in Hex., 3, 8, 1. 100 Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 15. 101 Cf. João Paulo II, Carta enc. Veritatis splendor (6 de Agosto de 1993), 57-61: AAS 85 (1993), 1179-1182. 102 Cf. Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius, IV: DS 3016. 103 Cf. Conc. Ecum. Lateranense IV, De errore abbatis Ioachim, II: DS 806. 104 Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a revelação divina Dei Verbum, 24; Decr. sobre a formação sacerdotal Optatam totius, 16. 105 Cf. João Paulo II, Carta enc. Evangelium vitæ (25 de Março de 1995), 69: AAS 87 (1995), 481. 106 Neste mesmo sentido, escrevi na minha primeira encíclica, comentando a frase « conhecereis a verdade, e a verdade tornar-vos-á livres » do Evangelho de S. João (8, 32): « Estas palavras encerram em si uma exigência fundamental e, ao mesmo tempo, uma advertência: a exigência de uma relação honesta para com a verdade, como condição de uma autêntica liberdade; e a advertência, ademais, para que seja evitada qualquer verdade aparente, toda a liberdade superficial e unilateral, toda a liberdade que não compreenda cabalmente a verdade sobre o homem e sobre o mundo. Ainda hoje, depois de dois mil anos, Cristo continua a aparecer-nos como Aquele que traz ao homem a liberdade baseada na verdade, como Aquele que liberta o homem daquilo que limita, diminui e como que despedaça pelas próprias raízes essa liberdade, na alma do homem, no seu coração e na sua consciência » [Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 12: AAS 71 (1979), 280-281]. 107 Discurso de abertura do Concílio (11 de Outubro de 1962): AAS 54 (1962), 792. 108 Congr. da Doutrina da Fé, Instr. sobre a vocação eclesial do teólogo Donum veritatis (24 de Maio de 1990), 7-8: AAS 82 (1990), 1552-1553. 109 Escrevi na encíclica Dominum et vivificantem, comentando Jo 16, 12-13: « Jesus apresenta o Consolador, o Espírito da Verdade, como Aquele que "ensinará e recordará", como Aquele que "dará testemunho" d'Ele; agora diz: "Ele vos guiará para a verdade total". Este "guiar para a verdade total", em relação com aquilo que "os Apóstolos por agora não estão em condições de compreender", está necessariamente em ligação com o despojamento de Cristo, por meio da sua paixão e morte de cruz, que então, quando Ele pronunciava estas palavras, já estava iminente. Mas, em seguida, torna-se bem claro que aquele "guiar para a verdade total" tem a ver não apenas com o scandalum crucis, mas também com tudo o que Cristo "fez e ensinou" (Act 1, 1). Com efeito, o mysterium Christi na sua globalidade exige a fé, porquanto é ela que introduz o homem oportunamente na realidade do mistério revelado. O "guiar para a verdade total" realiza-se, pois, na fé e mediante a fé: é obra do Espírito da verdade e é fruto da sua acção no homem. O Espírito Santo deve ser em tudo isso o guia supremo do homem, a luz do espírito humano » [n. 6: AAS 78 (1986), 815-816]. 110 Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a revelação divina Dei Verbum, 13. 111 Cf. Pontifícia Comissão Bíblica, Instr. sobre a verdade histórica dos Evangelhos (21 de Abril de 1964): AAS56 (1964), 713. 112 « É claro que a Igreja não pode estar ligada a qualquer sistema filosófico efémero; aquelas noções e termos que, segundo o consenso geral, foram compostos ao longo de vários séculos pelos doutores católicos para se chegar a um certo conhecimento e compreensão do dogma, sem dúvida que não se apoiam sobre fundamento tão caduco. Apoiam-se, ao contrário, em princípios e noções ditadas por um verdadeiro conhecimento da criação; e, para deduzirem estes conhecimentos, a verdade revelada, como se fosse uma estrela, iluminou a mente humana por meio da Igreja. Por isso, não há de que maravilhar-se se alguma destas noções acabou não apenas por ser usada em Concílios Ecuménicos, mas foi aí de tal modo ratificada que não é lícito abandoná-la » [Carta enc. Humani generis (12 de Agosto de 1950): AAS 42 (1950), 566-567; cf. Comissão Teológica Internacional, Doc.Interpretationis problema (Outubro de 1989): Enchiridion Vaticanum, XI, nn. 2717-2811]. 113 « Quanto ao próprio significado das fórmulas dogmáticas, este permanece, na Igreja, sempre verdadeiro e coerente, mesmo quando se torna mais claro e melhor compreendido. Por isso, os fiéis devem rejeitar a opinião segundo a qual as fórmulas dogmáticas (ou uma parte delas) não podem manifestar exactamente a verdade, mas apenas aproximações variáveis que, de certa forma, não passam de deformações e alterações da mesma » [S. Congr. da Doutrina da Fé, Decl. sobre a defesa da doutrina católica acerca da Igreja Mysterium Ecclesiæ (24 de Junho de 1973), 5: AAS 65 (1973), 403]. 114 Cf. Congr. S. Officii, Decr. Lamentabili (3 de Julho de 1907), 26: ASS 40 (1907), 473. 115 Cf. João Paulo II, Discurso na Pontifícia Universidade de S. Tomás (17 de Novembro de 1979), 6:L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 25 de Novembro de 1979), 8. 116 N. 32: AAS 85 (1993), 1159-1160. 117 Cf. João Paulo II, Exort. ap. Catechesi tradendæ (16 de Outubro de 1979), 30: AAS 71 (1979), 1302-1303; Congr. da Doutrina da Fé, Instr. sobre a vocação eclesial do teólogo Donum veritatis (24 de Maio de 1990), 7:AAS 82 (1990), 1552-1553. 118 Cf. João Paulo II, Exort. ap. Catechesi tradendæ (16 de Outubro de 1979), 30: AAS 71 (1979), 1302-1303. 119 Cf. ibid., 22: o.c., 1295-1296. 120 Cf. ibid., 7: o.c., 1282. 121 Cf. ibid., 59: o.c., 1325. 122 Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius, IV: DS 3019. 123 « Ninguém pode tratar a teologia como se fosse uma simples colectânea dos próprios conceitos pessoais; mas cada um deve ter a consciência de permanecer em íntima união com aquela missão de ensinar a verdade, de que é responsável a Igreja » [João Paulo II, Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 19: AAS 71 (1979), 308]. 124 Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decl. sobre a liberdade religiosa Dignitatis humanæ, 1-3. 125 Cf. Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de Dezembro de 1975), 20: AAS 68 (1976), 18-19. 126 Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 92. 127 Cf. ibid., 10. 128 Prólogo, 4: Opera omnia, t. V (Florença 1891), 296. 129 Cf. Decr. sobre a formação sacerdotal Optatam totius, 15. 130 Cf. João Paulo II, Const. ap. Sapientia christiana (15 de Abril de 1979), arts. 67-68: AAS 71 (1979), 491-492. 131 João Paulo II, Discurso na Universidade de Cracóvia, por ocasião dos 600 anos da Alma Mater Jaghelónica (8 de Junho de 1997), 4: L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 21 de Junho de 1997), 6. 132 « 'e noerà tes pìsteos tràpeza » [Pseudo-Epifânio, Homilia em louvor de Santa Maria Mãe de Deus: PG 43, 493] .
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