CONSTITUIÇÃO
DOGMÁTICA
DEI VERBUM
SOBRE A REVELAÇÃO DIVINA
DEI VERBUM
SOBRE A REVELAÇÃO DIVINA
PROÉMIO
Intenção do Concílio
1. O sagrado Concílio, ouvindo religiosamente a Palavra de
Deus proclamando-a com confiança, faz suas as palavras de S. João:
«anunciamo-vos a vida eterna, que estava junto do Pai e nos apareceu:
anunciamo-vos o que vimos e ouvimos, para que também vós vivais em comunhão
conosco, e a nossa comunhão seja com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo"
(1Jo 1, 2-3). Por isso, segundo os Concílios Tridentino e Vaticano I, entende
propor a genuína doutrina sobre a Revelação divina e a sua transmissão, para
que o mundo inteiro, ouvindo, acredite na mensagem da salvação, acreditando
espere, e esperando ame (1).
CAPÍTULO I
A REVELAÇÃO EM SI MESMA
Natureza e objeto da revelação
2. Aprouve a Deus. na sua bondade e sabedoria, revelar-se
a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1,9), segundo o
qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no
Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 2,18; 2Pd
1,4). Em virtude desta revelação, Deus invisível (cf. Cl 1,15; 1Tm 1,17), na
riqueza do seu amor fala aos homens como amigos (cf. Ex 33, 11; Jo 15,14-15) e
convive com eles (cf. Br 3,38), para os convidar e admitir à comunhão com Ele.
Esta «economia» da revelação realiza-se por meio de ações e palavras
intimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por
Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades
significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e
esclarecem o mistério nelas contido. Porém, a verdade profunda tanto a respeito
de Deus como a respeito da salvação dos homens, manifesta-se-nos, por esta
revelação, em Cristo, que é, simultaneamente, o mediador e a plenitude de toda
a revelação (2).
Preparação da revelação evangélica
3. Deus, criando e conservando
todas as coisas pelo Verbo (cf. Jo 1,3), oferece aos homens um testemunho
perene de Si mesmo na criação (cf. Rm 1, 1-20) e, além disso, decidindo abrir o
caminho da salvação sobrenatural, manifestou-se a Si mesmo, desde o princípio,
aos nossos primeiros pais. Depois da sua queda, com a promessa de redenção,
deu-lhes a esperança da salvação (cf. Gn 3,15), e cuidou continuamente do gênero
humano, para dar a vida eterna a todos aqueles que, perseverando na prática das
boas obras, procuram a salvação (cf. Rm. 2, 6-7). No devido tempo chamou
Abraão, para fazer dele pai dum grande povo (cf. Gn 12,2), povo que, depois dos
patriarcas, ele instruiu, por meio de Moisés e dos profetas, para que o
reconhecessem como único Deus vivo e verdadeiro, pai providente e juiz justo, e
para que esperassem o Salvador prometido; assim preparou Deus através dos
tempos o caminho ao Evangelho.
Consumação e plenitude da revelação em Cristo
4. Depois de ter falado muitas vezes e de muitos modos
pelos profetas, falou-nos Deus nestes nossos dias, que são os últimos, através
de Seu Filho (Hb 1, 1-2). Com efeito, enviou o Seu Filho, isto é, o Verbo
eterno, que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e
manifestar-lhes a vida íntima de Deus (cf. Jo 1, 1-18). Jesus Cristo, Verbo
feito carne, enviado «como homem para os homens» (3), «fala, portanto, as
palavras de Deus» (Jo 3,34) e consuma a obra de salvação que o Pai lhe mandou
realizar (cf. Jo 5,36; 17,4). Por
isso, Ele, vê-lo a Ele é ver o Pai (cf. Jo 14,9), com toda a sua presença e
manifestação da sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e
sobretudo com a sua morte e gloriosa ressurreição, enfim, com o envio do
Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a
revelação, a saber, que Deus está conosco para nos libertar das trevas do
pecado e da morte e para nos ressuscitar para a vida eterna.
Portanto, a economia cristã, como
nova e definitiva aliança, jamais passará, e não se há de esperar nenhuma outra
revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus
Cristo (cf. 1Tm 6,14; Tt
2,13).
Aceitação da revelação pela fé
Necessidade da revelação
6. Pela revelação divina quis Deus manifestar e
comunicar-se a Si mesmo e os decretos eternos da Sua vontade a respeito da
salvação dos homens, «para os fazer participar dos bens divinos, que superam
absolutamente a capacidade da inteligência humana»(6).
O sagrado Concílio professa que
Deus, princípio e fim de todas as coisas, se pode conhecer com certeza pela luz
natural da razão a partir das criaturas» (cf Rm 1,20); mas ensina também que
deve atribuir-se à Sua revelação «poderem todos os homens conhecer com
facilidade, firme certeza e sem mistura de erro aquilo que nas coisas divinas
não é inacessível à razão humana, mesmo na presente condição do gênero humano».
CAPÍTULO II
A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA
Os apóstolos e seus sucessores, transmissores do Evangelho
7. Deus dispôs amorosamente que permanecesse integro e
fosse transmitido a todas as gerações tudo quanto tinha revelado para salvação
de todos os povos. Por isso, Cristo Senhor, em quem toda a revelação do Deus
altíssimo se consuma (cf. 2Cor 1,20; 3,16-4,6), mandou aos Apóstolos que
pregassem a todos, como fonte de toda a verdade salutar e de toda a disciplina
de costumes, o Evangelho prometido antes pelos profetas e por Ele cumprido e
promulgado pessoalmente (1), comunicando-lhes assim os dons divinos. Isto foi
realizado com fidelidade, tanto pelos Apóstolos que, na sua pregação oral,
exemplos e instituições, transmitiram aquilo que tinham recebido dos lábios,
trato e obras de Cristo, e o que tinham aprendido por inspiração do Espírito
Santo, como por aqueles Apóstolos e varões apostólicos que, sob a inspiração do
mesmo Espírito Santo, escreveram a mensagem da salvação (2).
Porém, para que o Evangelho fosse
perenemente conservado integro e vivo na Igreja, os Apóstolos deixaram os
Bispos como seus sucessores, «entregando lhes o seu próprio ofício de
magistério». Portanto, esta sagrada Tradição e a Sagrada Escritura dos dois
Testamentos são como um espelho no qual a Igreja peregrina na terra contempla a
Deus, de quem tudo recebe, até ser conduzida a vê-lo face a face tal qual Ele é
(cf. 1Jo 3,2).
A sagrada Tradição
8. E assim, a pregação apostólica, que se exprime de modo
especial nos livros inspirados, devia conservar-se, por uma sucessão contínua,
até à consumação dos tempos. Por isso, os Apóstolos, transmitindo o que eles
mesmos receberam, advertem os fiéis a que observem as tradições que tinham
aprendido quer por palavras quer por escrito (cf 2Ts 2,15), e a que lutem pela
fé recebida dama vez para sempre (cf. Jud. 3) (4). Ora, o que foi transmitido
pelos Apóstolos, abrange tudo quanto contribui para a vida santa do Povo de
Deus e para o aumento da sua fé; e assim a Igreja, na sua doutrina, vida e
culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela é e tudo
quanto acredita.
Esta tradição apostólica progride
na Igreja sob a assistência do Espírito Santo (5). Com efeito, progride a
percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas, quer mercê da
contemplação e estudo dos crentes, que as meditam no seu coração (cf. Lc 2,
19.51), quer mercê da íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais,
quer mercê da pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado, receberam o
carisma da verdade. Isto é, a Igreja, no decurso dos séculos, tende
continuamente para a plenitude da verdade divina, até que nela se realizem as
palavras de Deus.
Afirmações dos santos Padres
testemunham a presença vivificadora desta Tradição, cujas riquezas entram na
prática e na vida da Igreja crente e orante. Mediante a mesma Tradição, conhece
a Igreja o cânon inteiro dos livros sagrados, e a própria Sagrada Escritura entende-se
nela mais profundamente e torna-se incessantemente operante; e assim, Deus, que
outrora falou, dialoga sem interrupção com a esposa do seu amado Filho; e o
Espírito Santo - por quem ressoa a voz do Evangelho na Igreja e, pela Igreja,
no mundo - introduz os crentes na verdade plena e faz com que a palavra de
Cristo neles habite em toda a sua riqueza (cf. Cl 3,16).
Relação entre a sagrada Tradição e a Sagrada Escritura
Relação de uma e outra com a Igreja e com o Magistério
eclesiástico
Porém, o encargo de interpretar
autenticamente a palavra de Deus escrita ou contida na Tradição (8), foi
confiado só ao magistério vivo da Igreja (9), cuja autoridade é exercida em
nome de Jesus Cristo. Este magistério não está acima da palavra de Deus, mas
sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato
divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda
religiosamente e a expõe fielmente, haurindo deste depósito único da fé tudo
quanto propõe à fé como divinamente revelado.
É claro, portanto, que a sagrada Tradição, a sagrada Escritura
e o magistério da Igreja, segundo o sapientíssimo desígnio de Deus, de tal
maneira se unem e se associam que um sem os outros não se mantém, e todos
juntos, cada um a seu modo, sob a ação do mesmo Espírito Santo, contribuem
eficazmente para a salvação das almas
CAPÍTULO III
A INSPIRAÇÃO
DIVINA DA SAGRADA ESCRITURA
E A SUA INTERPRETAÇÃO
E A SUA INTERPRETAÇÃO
Natureza da inspiração e verdade da Sagrada Escritura
11. As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas
na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. Com
efeito, a santa mãe Igreja, segundo a fé apostólica, considera como santos e
canônicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas
partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo (cf. Jo 20,31; 2Tm 3,16;
2Pd 1, 19-21; 3, 15-16), têm Deus por autor, e como tais foram confiados à
própria Igreja (1). Todavia, para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e
serviu-se de homens na posse das suas faculdades e capacidades (2), para que,
agindo Ele neles e por eles (3), pusessem por escrito, como verdadeiros
autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria (4).
E assim, como tudo quanto afirmam
os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito
Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com
certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que
fosse consignada nas sagradas Letras (5). Por isso, «toda a Escritura é
divinamente inspirada e útil para ensinar, para corrigir, para instruir na
justiça: para que o homem de Deus seja perfeito, experimentado em todas as
obras boas» (Tm 3, 7-17 gr.).
Interpretação da Sagrada Escritura
12. Como, porém, Deus na Sagrada
Escritura falou por meio dos homens e à maneira humana (6), o intérprete da
Sagrada Escritura, para saber o que Ele quis comunicar-nos, deve investigar com
atenção o que os hagiógrafos realmente quiseram significar e que aprouve a Deus
manifestar por meio das suas palavras.
Para descobrir a intenção dos
hagiógrafos, devem ser tidos também em conta, entre outras coisas, os «gêneros
literários». Com efeito, a verdade é proposta e expressa de modos diversos,
segundo se trata de gêneros histéricos, proféticos, poéticos ou outros.
Importa, além disso, que o intérprete busque o sentido que o hagiógrafo em
determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua
cultura, pretendeu exprimir e de fato exprimiu servindo se os gêneros
literários então usados (7). Com efeito, para entender retamente o que autor
sagrado quis afirmar, deve atender-se convenientemente, quer aos modos nativos
de sentir, dizer ou narrar em uso nos tempos do hagiógrafo, quer àqueles que
costumavam empregar-se freqüentemente nas relações entre os homens de então
(8).
Mas, como a Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada
com o mesmo espírito com que foi escrita (9), não menos atenção se deve dar, na
investigação do reto sentido dos textos sagrados, ao contexto e à unidade de
toda a Escritura, tendo em conta a Tradição viva de toda a Igreja e a analogia
da fé. Cabe aos exegetas trabalhar, de harmonia com estas regras, por entender
e expor mais profundamente o sentido da Escritura, para que, mercê deste estudo
de algum modo preparatório, amadureça o juízo da Igreja. Com efeito, tudo
quanto diz respeito à interpretação da Escritura, está sujeito ao juízo último
da Igreja, que tem o divino mandato e o ministério de guardar e interpretar a
palavra de Deus (10).
Condescendência de Deus
13. Portanto, na Sagrada
Escritura, salvas sempre a verdade e a santidade de Deus, manifesta-se a
admirável «condescendência» da eterna sabedoria, «para conhecermos a inefável
benignidade de Deus e com quanta acomodação Ele falou, tomando providência e
cuidado da nossa natureza» (11). As palavras de Deus com efeito, expressas por
línguas humanas, tornaram-se intimamente semelhantes à linguagem humana, como
outrora o Verbo do eterno Pai se assemelhou aos homens tomando a carne da
fraqueza humana.
CAPÍTULO IV
O ANTIGO
TESTAMENTO
A história da salvação consignada nos livros do Antigo Testamento
14. Deus amantíssimo,
desejando e preparando com solicitude a salvação de todo o gênero humano,
escolheu por especial providência um povo a quem confiar as suas promessas.
Tendo estabelecido aliança com Abraão (cf. Gn 15,18), e com o povo de Israel
por meio de Moisés (cf. Ex 24,8), revelou-se ao Povo escolhido como único Deus
verdadeiro e vivo, em palavras e obras, de tal modo que Israel pudesse conhecer
por experiência os planos de Deus sobre os homens, os compreendesse cada vez mais
profunda e claramente, ouvindo o mesmo Deus falar por boca dos profetas, e os
difundisse mais amplamente entre os homens (cf. Sl 21, 28-29; 95, 1-3; Is 2,
1-4; Jr 3,17). A «economia» da salvação de antemão anunciada, narrada e
explicada pelos autores sagrados, encontra-se nos livros do Antigo Testamento
como verdadeira palavra de Deus. Por isso, estes livros divinamente inspirados
conservam um valor perene: «Tudo quanto está escrito, para nossa instrução está
escrito, para que, por meio da paciência e consolação que nos vem da Escritura,
tenhamos esperança» (Rm 15,4).
Importância do Antigo Testamento para os cristãos
Unidade de ambos ao Testamentos
16. Foi por isso que Deus, inspirador e autor dos livros
dos dois Testamentos, dispôs tão sabiamente as coisas, que o Novo Testamento
está latente no Antigo, e o Antigo está patente no Novo (2). Pois, apesar de
Cristo ter alicerçado à nova Aliança no seu sangue (cf. Lc 22,20; 1Cor 11,25),
os livros do Antigo Testamento, ao serem integralmente assumidos na pregação
evangélica (3) adquirem e manifestam a sua plena significação no Novo
Testamento (cf. Mt 5,17; Lc 24,27; Rm 16, 25-26; 2Cor 3, 1416), que por sua vez
iluminam e explicam.
CAPÍTULO V
O NOVO TESTAMENTO
Excelência do Novo Testamento
Origem apostólica dos Evangelhos
18. Ninguém ignora que entre todas as Escrituras, mesmo do
Novo Testamento, os Evangelhos têm o primeiro lugar, enquanto são o principal
testemunho da vida e doutrina do Verbo encarnado, nosso salvador.
A Igreja defendeu e defende
sempre e em toda a parte a origem apostólica dos quatro Evangelhos. Com efeito,
aquelas coisas que os Apóstolos, por ordem de Cristo, pregaram, foram depois,
por inspiração do Espírito Santo, transmitidas por escrito por eles mesmos e
por varões apostólicos como fundamento da fé, ou seja, o Evangelho quadriforme,
segundo Mateus, Marcos, Lucas e João (1).
Caráter histórico dos Evangelhos
Os restantes escritos do Novo Testamento
20. O cânon do Novo Testamento contém igualmente além dos
quatro Evangelhos, as Epístolas de S. Paulo e outros escritos apostólicos
redigidos por inspiração do Espírito Santo, com os quais, segundo o plano da
sabedoria divina, é confirmado o que diz respeito a Cristo Senhor, é explicada
mais e mais a sua genuína doutrina, é pregada a virtude salvadora da obra
divina de Cristo, são narrados os começos da Igreja e a sua admirável difusão,
e é anunciada a sua consumação gloriosa.
Com efeito, o Senhor Jesus
assistiu os seus Apóstolos como tinha prometido (cf. Mt 28,20) e enviou-lhes o
Espírito consolador que os devia introduzir na plenitude da verdade (cf. Jo
16,13).
CAPÍTULO VI
A SAGRADA
ESCRITURA NA VIDA DA IGREJA
A Igreja venera as Sagradas Escrituras
Traduções da Sagrada Escritura
22. É preciso que os fiéis tenham
acesso patente à Sagrada Escritura. Por esta razão, a Igreja logo desde os seus
começos fez sua aquela tradução grega antiqüíssima do Antigo Testamento chamada
dos Setenta; e sempre tem em grande apreço as outras traduções, quer orientais
quer latinas, sobretudo a chamada Vulgata. Mas, visto que a palavra de Deus
deve estar sempre acessível a todos, a Igreja procura com solicitude maternal
que se façam traduções aptas e fiéis nas várias línguas, sobretudo a partir dos
textos originais dos livros sagrados. Se porém, segundo a oportunidade e com a
aprovação da autoridade da Igreja, essas traduções se fizerem em colaboração
com os irmãos separados, poderão ser usadas por todos os cristãos.
Investigação Bíblica
Importância da Sagrada Escritura para a Teologia
Leitura da Sagrada Escritura
25. É necessário, por isso, que todos os clérigos e
sobretudo os sacerdotes de Cristo e outros que, como os diáconos e os
catequistas, se consagram legitimamente ao ministério da palavra, mantenham um
contacto íntimo com as Escrituras, mediante a leitura assídua e o estudo
aturado, a fim de que nenhum deles se torne «pregador vão e superficial da
palavra de Deus. por não a ouvir de dentro» (4), tendo, como têm, a obrigação
de comunicar aos fiéis que lhes estão confiados as grandíssimas riquezas da
palavra divina, sobretudo na sagrada Liturgia. Do mesmo modo, o sagrado
Concílio exorta com ardor e insistência todos os fiéis, mormente os religiosos,
a que aprendam «a sublime ciência de Jesus Cristo» (Fil. 3,8) com a leitura
freqüente das divinas Escrituras, porque «a ignorância das Escrituras é
ignorância de Cristo» (5). Debrucem-se, pois, gostosamente sobre o texto
sagrado, quer através da sagrada Liturgia, rica de palavras divinas, quer pela
leitura espiritual, quer por outros meios que se vão espalhando tão
louvavelmente por toda a parte, com a aprovação e estímulo dos pastores da
Igreja. Lembrem-se, porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser
acompanhada de oração para que seja possível o diálogo entre Deus e o homem;
porque «a Ele falamos, quando rezamos, a Ele ouvimos, quando lemos os divinos
oráculos» (6).
Compete aos sagrados pastores «depositários da doutrina
apostólica» (7), ensinar oportunamente os fiéis que lhes foram confiados no uso
reto dos livros divinos, de modo particular do Novo Testamento, e sobretudo dos
Evangelhos. E isto por meio de traduções dos textos sagrados, que devem ser
acompanhadas das explicações necessárias e verdadeiramente suficientes, para
que os filhos da Igreja se familiarizem dum modo seguro e. útil com a Sagrada
Escritura, e se penetrem do seu espírito.
Além disso, façam-se edições da
Sagrada Escritura, munidas das convenientes anotações, para uso também dos não
cristãos, e adaptadas às suas condições; e tanto os pastores de almas como os
cristãos de qualquer estado procuram difundi-las com zelo e prudência.
Influência e importância da
renovação escriturística.
26. Deste modo, pois, com a
leitura e estudo dos livros sagrados, «a palavra de Deus se difunda e
resplandeça (2Ts 3,1), e o tesouro da revelação confiado à Igreja encha cada
vez mais os corações dos homens. Assim como a vida da Igreja cresce com a
assídua freqüência do mistério eucarístico, assim também é lícito esperar um
novo impulso de vida espiritual, se fizermos crescer a veneração pela palavra
de Deus, que «permanece para sempre» (Is 40,8; cf. lPd 1, 23-25).
Roma, 18 de Novembro de 1965.
PAPA PAULO VI
Notas
1. Cf. S. Agostinho, De
catechizandis rudibus, c. IV, 8: PL 40, 316.
2. Cf. Mt. 11,27; Jo. 1,14 e
17; 14,6; 17, 1-3; 2 Cor. 3,16 e 4,6; Ef. 1, 3-14.
3. Epist. ad
Diognetum, c. VII, 4: Funk, Patres Apostolici, I, p. 403.
4. Conc. Vat. I, Const. dogmatica De fide catholica, Dei
Filius, cap. 3: Denz. 1789 (3008).
5. Conc. Araus. II, can. 7: Denz, 180 (377); Conc. Vat. I, 1. c.: Denz. 1791 (3010).
6. Conc. Vat. I, Const. dogmatica De fide catholica, Dei
Filius, cap. 2 Denz. 1786 (3005).
7. Ibid.: Denz. 1785 e 1786 (3004 e 3005).
Capítulo II
1. Cf. Mt. 28, 19-20 e Mc. 16,15; Concilio Tridentino deer.
De canonicis Scripturis: Denz. 783 (1501).
2. Cf. Concílio Tridentino, I. c.; Concílio Vat I, sess.
III, Const. dogmatica De fide catholica, Dei Filius, cap. 2. Denz. 1787
(3006).
3. S. Ireneu, Adv. Haer. III, 3, 1: PG 7, 848:
Harvey, 2, p. 9.
4. Cf. II Concílio Niceno, Denz. 303 (602); IV Concilio
Constantinopolitano, sess. X, can. 1: Denz. 336 (650-652).
5. Cf. Concílio Vat. I, Const. dogm. De fide catholica, Dei
Filius, cap. 4: Denz. 1800 (3020).
6. Cf. Concílio Tridentino, Decr. De canonicis
scripturis: Denz. 783 (1501).
7. Cf. Pio XII, Const. apost. Munificentissimus Deus,
1 nov. 1950: AAS 42 (1950) 756; eft. as palavras de S. Cipriano, Epist. 66,8:
CSEL, 3,2, 733: «A Igreja e o povo unido ao sacerdote e o rebanho unido ao seu
pastor».
8. Cf. Concilio Vat. I, Const. dogmatica De fide catholica,
Dei Filius, cap. 3: Denz. 1792 (3011).
9. Cf. Pio XII, Enciclica Humani generis, 12 ago.
1950: AAS 42 (1950) 568-569: Denz. 2314 (3886).
Capítulo III
1. Cf. Conc. Vat. I, Const. dogm. de fide cath., Dei
Filius, cap. 2: Denz. 1787 (3006). Denz. da Comissão Biblica, 18 jun. 1915:
Denz. 2180 (3629) ; EB 420. Santo Officio, Epist.; 22 dez. 1923: EB 499.
2. Cf. Pio XII, Encíclica Divino afflante Spiritu,
30 set. 1944: AAS 35 (1943) 314; EB 556.
3. Em o por o homem: cf. Hebr. 1,1 e 4,7 (Em);
2 Sam. 23,2; Mt. 1,22 e passim (por); Conc. Vat. I: schema de doctr.
cath., nota 9: Coll. Lac. VII, 522.
4. Leão XIII, Encíclica Providentissimus Deus, 18
nov. 1893: Denz. 1952 (3293) EB 125.
5. Cf. S. Agostinho, De Gen. ad Litt. 2, 9, 20: PL
34, 270-271; CSEL 28, 1, 46-47 e Epist. 82, 3: PL 33, 277: CSEL 34, 2,
p. 354.—S. Tomás, De Ver. q. 12, a . 2 c. —Conc. de Trento, decr. De
canonicis Scripturis: Denz. 783 (1501) —Ledo XIII, Enc. Providentissimus:
EB 121, 124, 126-127—Pio XII, Enc. Divino afflante Spiritu: EB 539.
6. S. Agostinho, De civ. Dei, XVII, 6, 2: PL 41,
537: CSEL XL 2, 228.
7. S. Agostinho, De doct. christ., III, 18, 26: PL
34, 75-76; CSEL 80, 95.
8. Pio XII, 1. c.: Denz. 2294 (3829-3830); EB 557-562.
9. Cf. Bento XV, Enc. Spiritus Paraclitus, 15 set.
1920: EB 469.- S. Jerónimo, In Gal., 5, 19-21: PL 26, 417 A .
10. Cf. Conc. Vat. I, Const. dogm. De fide catholica, Dei
Filius, cap. 2: Denz. 1788 (3007).
11. S. João Crisóstomo, In Gen. 3,8 (hom. 17,1): PG
53, 134. «Acomodação», em grego synkatábasis.
Capítulo IV
1. Pio XI, Enc. Mit brennender Sorge, 14 mar. 1937:
AAS 29 (1937) 151.
2. S. Agostinho, Quaest.
in Hept. 2, 73: PL 34, 623.
3. S. Ireneu, Adv.:
Haer. III, 21, 3: PG 7, 950: ( = 25, 1: Harvey 2, p. 115). S. Cirilo de Jerusalém, Caech. 4, 35: PG 33, 497,
Teodoro de Mopsuesta, In Soph. 1, 4-6: PG 66, 452 D-453 A .
Capítulo V
1. Cf. S, Ireneu, Adv. Haer. III, 11, 8: PG. 7, 885;
ed. Sagnard, p. 194.
2. Cf. Jo. 14,26; 16,13,
3. Cf. Jo. 2,22; 12,16; eft. 14,26; 16, 12-13; 7,39.
4. Cf. Instrução Sancta Mater Ecclesia, da
Pontifícia Comisão Bíblica: AAS 56 (1964) 715.
Capítulo VI
1. Cf. Pio XII, Enc. Divino afflante, 30. set. 1943:
EB 551, 553, 567. — Pontifícia Comissão Bíblica, Instructio de S. Scriptura
in Clericorum seminariis et Religiosorum Collegiis recte docenda, 13 maio
1950: AAS 42 (1950) 495-505.
2. Cf. Pio XII, 1. c.: EB 569.
3. Cf. Leão XIII, Enc. Providentissimus Deus: EB
114; Bento XV, Enc., Spiritus Paraclitus, 15. set. 1920: EB 483.
4. S. Agostinho, Serm. 179, 1: PL 38, 966.
5. S. Jerónimo, Comm.
in Is. Prol.: PL 24, 17. — Cf. Bento XV,
Enc. Spiritus Paraclitus: EB 475-480; Pio XII, Enc. Divino afflante:
EB 544.
6. S. Ambrósio, De officiis ministrorum I, 20, 88:
PL 16, 50.
7. S. Ireneu, Adv.
Haer. IV, 32, 1: PG 7, 1071; ( = 49, 2), Harvey, 2, p. 255.
Nenhum comentário:
Postar um comentário